1. Introdução.

Se, no artigo anterior, o debate versava sobre a influência dos astros e estrelas sobre os entes materiais da Terra, o debate, agora, é ainda mais específico e interessante: a influência dos corpos celestes sobre a vontade e a inteligência humanas. Ou seja, a relação dos corpos celestes com a liberdade humana. Este era um problema no tempo de Tomás, frente à credulidade das pessoas quanto aos astrólogos e suas previsões; mas continua sendo um problema ainda hoje. 

De fato, no tempo de Tomás, as ciências tinham, por consenso, que os instintos dos animais e o movimento dos vegetais era causado, em última instância, pelos astros e estrelas, já que eles determinam a própria dinâmica da Terra, com a sucessão de dias e noites, de fases da lua, de estações e mesmo de grandes cataclismas climáticos. A ciência de então considerava que a explicação completa para as reações dos seres vivos seguia a explicação para a dinâmica da sucessão de dias, das marés e estações: tinha nos corpos celestes sua explicação final. Havia base fenomenológica para acreditar nisso e, de certo modo, a ciência dos nossos dias concorda em grande parte com algo muito parecido com isto. Mas a questão aqui é outra: pode esta dinâmica do determinismo físico universal explicar a própria atividade humana, naquilo que envolve a nossa liberdade? Será que a liberdade humana é influenciada ou mesmo determinada pelas forças físicas universais?

Vamos ao debate. 

  1. A hipótese polêmica inicial. 

Não se trata mais, aqui, de reconhecer a influência dos astros e estrelas na dinâmica dos seres materiais terrestres; isso já ficou bem estabelecido. O que será debatido aqui é a influência – e mesmo a determinação – dos astros e estrelas sobre a liberdade humana. É muito fácil – e a maioria dos povos o fez em algum momento – extrapolar a influência das forças físicas para reconhecer a influência ou até mesmo a determinação ou controle dos atos humanos pelos astros, que parece ser uma crença que nossa sociedade ainda tem. Em todo caso, a hipótese controvertida, proposta aqui para começar o debate, é justamente a ideia de que os astros e estrelas são causa dos atos humanos. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese polêmica inicial.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Já sabemos que a ciência do tempo de Tomás considerava que as forças regentes do universo (como a gravidade, as forças eletromagnéticas e nucleares, conforme conhecemos hoje, e consideramos como impessoais) eram forças pessoais,  espíritos inteligentes de natureza angelical, poderosíssimos e obedientes, que faziam o universo funcionar conforme a vontade de Deus. Ora, essas forças exercem, inegavelmente, influência em nosso planeta, inclusive sobre os seres vivos. Mas, uma vez que se trata de forças inteligentes e poderosíssimas,dotadas de uma inteligência e uma vontade muito mais poderosa do que a nossa, seu poder não se limita à influência física, diz o argumento; devem se impor também às nossas almas tão frágeis e tão dependentes do mundo material, de tal modo que aquilo que às vezes nos parece resultado de nossa própria liberdade é, na verdade, causado por esses espíritos poderosíssimos agindo sobre nossa alma. Assim, os astros e estrelas determinam o comportamento humano, conclui imprudentemente o argumento. 

O segundo argumento objetor. 

Há sempre um princípio mais profundo que unifica aquilo que é múltiplo e concreto, diz o argumento. De fato, essa ideia continua movendo a ciência, mesmo neste século XXI, tão distante da ciência que era hegemônica quando a Suma foi escrita. É por isso que, observando o movimento dos corpos e dos astros, Sir Isaac Newton propôs a lei da gravitação universal como princípio unificador dos múltiplos movimentos que vemos no universo. 

Ora, os atos humanos, frutos do nosso intelecto e da nossa vontade, são também eventos múltiplos e concretos, como a queda das pedras e a órbita dos planetas. Caberia, portanto, buscar um princípio unificador capaz de explicá-los abstrata e universalmente, como a lei da gravitação explica os eventos corpóreos. Esse princípio deve ser encontrado justamente no poder da dinâmica dos astros e estrelas sobre nós; logo, os corpos celestes condicionam nossos atos humanos, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Existem inúmeras previsões feitas por astrólogos, a partir do estudo do movimento e da posição dos astros e estrelas, que se concretizaram ao longo da história. Astrólogos e outros videntes do mesmo tipo previram, a partir da influência dos corpos celeste, guerras, desastres e tragédias humanas. Ora, eles não teriam essa capacidade de predição se não houvesse, de fato, influência e mesmo determinação dos astros e estrelas sobre os atos humanos e sobre os destinos das pessoas. Assim, os corpos celestes exercem causalidade sobre os atos humanos, conclui o argumento, credulamente. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O artigo apresenta, agora, o chamado argumento sed contra, isto é, o argumento que impede a simples aceitação da hipótese inicial. Aqui, o argumento é retirado da autoridade de São João Damasceno, padre grego, que, opondo-se a videntes, astrólogos e outros adivinhos, afirmava peremptoriamente que os corpos celestes não são, de nenhum modo, causa dos atos livres dos seres humanos.

  1. Encerrando por enquanto. 

Colocados os termos do problema, examinaremos, nos próximos textos, as respostas de Tomás a este debate tão interessante.