1. Retornando para encerrar.

Há um único universo; nele as forças se entrelaçam e se influenciam reciprocamente. Se por um lado é certo que a antiga ciência do tempo de Tomás, herdada dos antigos, via uma cisão entre as coisas que estavam “abaixo da lua” e as coisas que estavam “acima da lua”, interpretando erroneamente que a dinâmica da geração e da destruição não se aplicava às coisas do espaço, por outro lado é impressionante que Tomás, e com ele a melhor tradição cristã, tivesse o discernimento de estabelecer os princípios certos – nem isolamento nem determinismo na relação entre as coisas da Terra e o resto do universo, mas influência recíproca. Tudo isto foi ainda mais confirmado pela ciência de nossos dias.

Vimos tudo isto nos textos anteriores. Agora, de posse desses mesmos princípios, examinaremos as respostas de Tomás aos três últimos argumentos objetores. 

  1. Os três últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que os elementos e os princípios existentes no mundo terrestre são suficientes para explicar a existência, geração e corrupção de todas as criaturas corporais que existem na Terra. As forças existentes aqui, as relações entre os entes, tudo isto é suficiente para explicar as dinâmicas dos entes terrestres. Assim, não é necessário postular causalidade, para os astros e estrelas, quanto às coisas terrenas. Logo, não há causalidade imputável aos astros e estrelas quanto aos entes terrestres, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás. 

Tomás dá, aqui, uma resposta muito baseada na ciência de seu tempo, que era muito fundamentada na filosofia aristotélica. Vamos fazer uma visita a esta explicação, para tentar entender os seus princípios.

As forças existentes em nosso mundo terreno e material, diz Tomás, não são suficientes para explicar o dinamismo das coisas terrestres. De fato, a matéria tem seus dinamismos (ela se aquece, esfria, dilata, contrai, etc.). Poderíamos acrescentar as dinâmicas da evolução ou as forças eletromagnéticas, descobertas pela ciência que veio após Tomás, e que não mudam o seu raciocínio: nenhuma dessas forças intrínsecas ao mundo material poderiam explicar os modos concretos pelos quais o mundo material se organiza. De fato, a matéria e todas essas forças físicas podem explicar o modo pelo qual a matéria se comporta, mas não explica as razões pelas quais ela se organizou de um modo e não de outro. Dada a existência de vida e de seres vivos, por exemplo, a ciência pode até explicar a razão pela qual estes entes sobreviveram à seleção natural, mas não pode explicar por que eles se organizam assim ou assado, de modo que venham a constituir entes que resistem à seleção natural e outros que não resistem. O acaso, a mera sorte, o caso fortuito, não são propriamente uma explicação, mas, na verdade, são uma negativa de explicação. Quando eu digo que algo se constituiu por acaso, ou fortuitamente, não estou explicando essa coisa, mas, ao contrário, estou afirmando que ela não tem explicação. Isso não satisfez grandes mentes como Platão e Aristóteles, nem grandes pensadores cristãos como Agostinho e Tomás, nem deveria nos satisfazer hoje. 

Na verdade, diz Tomás, essas forças e dinamismos da matéria são como pressupostos para que ela se desenvolva do modo pelo qual ela se desenvolve. Mas não são explicação para as formas específicas pelas quais ela se desenvolve.

Ora, foi buscando explicar justamente essa forma que Platão propôs a existência de um mundo de formas ideal e imaterial, que serviria de paradigma ou modelo para o nosso mundo material.  Mas isto não convenceu Aristóteles, porque não explica suficientemente a riqueza da diversidade das coisas materiais nem a pluralidade de meios pelos quais elas são geradas, transformadas e destruídas. Se nosso mundo fosse simplesmente a cópia malfeita de uma realidade transcendental, imaterial, abstrata e imutável, não seria possível explicar a realidade das transformações históricas que as espécies sofrem – como o surgimento de novas espécies a extinção de outras e mesmo a alterabilidade dos espécimes dentro das próprias espécies. Nem a história humana poderia ser explicada, com sua dinâmica irrepetível. Parece claro que não há nenhum tipo de paradigma imóvel e supra-histórico  conduzindo a dinâmica dos seres materiais, diz Tomás.

Parece ser certo, então, que é necessário explicar algum tipo de paradigma mutável, intra histórico, capaz de explicar a geração, a transformação e a destruição dos seres materiais. E isto só pode ser explicado, por um lado, pelas forças de geração e corrupção intrínseca aos seres (como a reprodução assexuada ou sexuada, no caso dos seres vivos) e as grandes forças cósmicas, como a gravitação, que atravessam todo o cosmos, unindo a dinâmica do espaço sideral com as dinâmicas terrestres. Não são duas realidades, mas uma única realidade interligada, com fortes influências recíprocas. Pode-se afirmar, diz Tomás, que as causas diretas, como os genitores na concepção da prole, agem movidos, de certa forma, por toda essa dinâmica universal da qual participam, a ponto de podermos dizer que não apenas o homem e a mulher geram o filho, mas o homem, a mulher e o sol, ou mesmo as estrelas e astros, acrescentaríamos.

É interessante perceber que a física de hoje em dia (oitocentos anos após Tomás) não desmentiu esse raciocínio, e até o confirmou, quando explica que muitos elementos complexos que são necessários à vida foram forjados nas estrelas, e que o sol é a grande fonte de energia na Terra. Alguns cientistas de nosso tempo chegam a dizer que, de certo modo, somos poeira de estrelas.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento também traz a marca da velha ciência do tempo de Tomás. Lá, havia o princípio de que as coisas acima da lua (o mundo supralunar, ou o espaço sideral,, diríamos hoje em dia) seriam de um outro tipo com relação às coisas abaixo da lua (as coisas sublunares, como se dizia naquele tempo, ou as coisas terrestres, diríamos hoje). As coisas supralunares, para a ciência de então, eram imutáveis, indestrutíveis, impassíveis, enquanto as coisas sublunares seriam mutáveis, transitórias, contingentes. Assim, as coisas terrestres seriam compostas de quatro elementos – ar, fogo, água e terra – enquanto os corpos celestes seriam compostos de elementos completamente diferentes.

Ora, uma vez que aquela ciência também defendia que as coisas semelhantes transformam as coisas semelhantes (assim a água age sobre a água, a terra age sobre a terra, o fogo age sobre o fogo e o ar age sobre o ar), e uma vez que os corpos celestes seriam essencialmente diversos dos corpos terrestres (completamente dessemelhantes), então não haveria possibilidade de que os corpos celestes exercessem qualquer tipo de influência sobre os entes terrestres, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

A ciência do tempo de Tomás, de fato, acreditava que os corpos celestes não eram semelhantes, em seus elementos constitutivos, aos entes materiais terrestres. Mas, de certo modo, os corpos celestes contêm, em si, todas as virtualidades que os integram ao resto do universo, e dinamizam essa virtualidade na relação com os entes terrestres. Ou, diríamos hoje, estão ligados a nós pelas mesmas forças físicas fundamentais (força gravitacional, força eletromagnética, força nuclear forte e força nuclear fraca) que determinam que eles exercem influência sobre nós e vice-versa. Mais uma vez, apesar dos limites da física de seu tempo, Tomás consegue alcançar conclusões que ainda são válidas, de certo modo, para nós hoje.

O quarto argumento objetor.

Sabemos, e Santo Agostinho já sabia, que a causa próxima da reprodução é o sexo. Mas o sexo, diz o argumento, não sofre nenhuma influência de corpos celestes, já que mesmo gêmeos gerados no mesmo instante podem ter sexos diferentes e até corpos muito diferentes em aparência, peso e tamanho. Mas se os astros celestes fossem também causas próximas da geração, então seres gerados no mesmo momento teriam o mesmo sexo, a mesma aparência e o mesmo tamanho, já que estiveram subetidos às mesmas causas, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

As influências dos corpos celestes sobre os seres da Terra, ou seja, sobre nós, não é de modo nenhum determinista. A influência que eles exercem está na ordem das grandes forças universais, que são essenciais para nós também, mas que não representam coação sobre nós. Neste sentido, não são as forças dos astros que determinam os atributos individuais dos seres terrestres, mas a interação entre as causas determina que cada indivíduo seja único e irrepetível.  

  1. Concluindo.

Vivemos num universo, isto é, num grande conjunto de seres interligados. É esta realidade que levou o Papa Francisco, na Laudato Sí, a afirmar que tudo está interligado, e que, por isso, precisamos de uma ecologia integral. Mas essa interligação não pode ser lida nem em chave astrológica, nem em chave panteísta. É interdependência, mas não é submissão nem subordinação. Somos todos criaturas do mesmo Deus.