Introdução.

Os astros influem sobre a Terra, não há dúvidas. Mas como se dá essa influência? Trata-se de uma determinação, de uma causalidade estrita, como querem os astrólogos e os adoradores de astros? Ou se trata talvez de uma influência do tipo interacionista, como quer a astronomia moderna? Ou não haverá nenhuma influência, dado que o sistema da terra é fechado e capaz de explicar, a partir das causas aqui existentes, tudo o que ocorre na superfície da Terra?
Vimos, no texto anterior, uma hipótese inicial de que os astros e estrelas do céu não influem de nenhum modo no jogo de causalidades em nosso planeta, e vimos quatro argumentos neste sentido. Mas vimos também um argumento contrário à hipótese inicial, que retoma antigos escritores como o Pseudo-Dionísio e Santo Agostinho para sustentar que essa influência existe e já foi observada desde tempos antigos.
Estudaremos agora a resposta de Tomás.

A resposta de Tomás.

É claro que é difícil entender a resposta de Tomás sem entender primeiro os seus pressupostos. De fato, alguns deles podem parecer muito distantes de nós, de nosso jeito contemporâneo de pensar, mas eles continuam fazendo sentido, mesmo se eventualmente não concordarmos com eles. Os fenômenos que estão na base da visão de Tomás continuam a se apresentar para nós, e podemos, a partir deles, entender como o raciocínio de Tomás continua válido, ainda que a visão que temos do mundo tenha se modificado muito desde então.
De fato, na visão de Tomás, tudo o que é universal, abstrato e uno precede, tanto logicamente quanto existencialmente, aquilo que é concreto, particular, individualizado e múltiplo. Ademais, tudo aquilo que é fugaz, transitório e mutável deve ter alguma origem estável, prolongada e sólida, senão não conseguiria continuar a ser gerado.
O que Tomás quer dizer com isto?
Pensemos no engenheiro de uma grande indústria comercial. Para que essa indústria venha a construir e vender, digamos, automóveis e até exportá-los, é preciso que o engenheiro conceba e crie um primeiro modelo do automóvel, o chamado “carro conceito”, a partir do qual todos os modelos e todas as unidades de automóvel possam ser produzidos e vendidos. Mais ainda, é preciso que um primeiro empreendedor tenha conseguido reunir os recursos e a coragem para iniciar a empresa. Deste primeiro movimento, desta primeira iniciativa, surgem todos os produtos que serão fabricados e vendidos. Além disso, é preciso que a empresa continue sempre sólida, produtiva e criativa, para que seus produtos sejam sempre atualizados ao gosto dos compradores e às tendências de mercado. Os produtos sempre são mutáveis, transitórios, consumíveis, múltiplos, mas as condições que os geram devem ser estáveis e unificadas, quer dizer, deve haver uma empresa sólida e bem gerida por trás da produção.
Deste modo, prossegue Tomás, aquilo que é estável, sólido, duradouro, sempre deve preceder o transitório, frágil, múltiplo e contingente. Ora, de tudo o que existe, é claro que os corpos celestes são muito mais estáveis, sólidos e duradouros do que as coisas cotidianas da nossa realidade terrestre. Deste modo, na visão hierárquica do ser que Tomás mantém, pode-se afirmar que a realidade cotidiana dos entes da Terra são profundamente dependentes das causas que estão manifestadas no cosmos, nos corpos celestes, nos astros e estrelas que estão no espaço. Essa estrutura cósmica, que nos supera e nos engloba, é, portanto, efetivamente causal sobre a realidade dos entes que estão na Terra.
Mas isto não exclui nem o fato de que as coisas da Terra seguem sua própria lógica, têm sua própria consistência e leis do ser, e não são inteiramente condicionadas pelos corpos celestes. Neste ponto, Tomás não crê num universo concebido como um grande mecanismo, uma máquina determinista e previsível, como queria, por exemplo, o matemático francês Laplace (famoso por afirmar que, se houvesse uma mente poderosa o suficiente para conhecer a velocidade e a posição de todas as partículas materiais do universo, seria capaz de prever com exatidão todo o futuro). Tampouco quer legitimar aqueles que consideram os astros como seres de natureza divina, como os grandes panteístas que ainda existem nos dias de hoje.
Mas veremos mais sobre essa estrutura do universo, tal como concebida por Tomás, quando examinarmos as suas respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor e a resposta de Tomás.

O primeiro argumento parte de uma frase de São João Damasceno, que, diante dos exageros de divinização e adoração aos astros em seu tempo, pelas filosofias e religiões pagãs que consideravam o Sol, a Lua e as estrelas como deuses, afirma com muita firmeza: “os corpos celestes não são a causa de tudo aquilo que é gerado e corrompido na Terra, mas apenas de fenômenos atmosféricos como os ventos e a chuva”. Portanto, diz o argumento, não podemos considerar de modo algum que os corpos celestes tenham influência sobre as coisas terrestres, conclui.
Em sua resposta, Tomás acolhe a palavra de São João Damasceno, grande Padre da Igreja grega, mas a interpreta não como uma uma afirmação da ordem da física ou da biologia, mas sim como uma afirmação filosófica. De fato, diz Tomás, o que o Damasceno está a nos ensinar é que as coisas são geradas e destruídas pelas causas intraterrenas que s]ao próximas a elas: pela reprodução sexuada ou assexuada ou por algum outro meio de geração que dá origem aos inanimados, e se destróem por morte natural ou provocada ou pelo desgaste do tempo. Neste sentido, os astros celestes não são deuses; mas não se pode negar que eles influem, indiretamente, na dinâmica da existência das coisas terrestres, por força de suas interações com este mundo – como demonstram fenômenos como a sucessão de estações, o dia e a noite, as marés, os fenômenos atmosféricos, etc.

Encerrando.

Este é o princípio: o universo não é um grande mecanismo determinista, mas o conjunto das coisas criadas por Deus que interagem entre si. Deste modo, todo o universo exerce influência recíproca.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos últimos argumentos objetores.