1. Introdução.

Sabemos que estamos estudando, agora, o Tratado do Governo do Mundo, isto é, verdadeiramente uma cosmologia, assim como vista pela melhor ciência nos tempos de Tomás. Em primeiro lugar, estudamos esse governo em geral, verificando que o Universo criado tem uma ordem inscrita nele, que o leva ao seu fim: dar glória a Deus. Ele não é apenas um grande mecanismo cego, mas é algo cheio de sentido em si mesmo. Vimos, então, as relações do universo criado com Deus, e em seguida o papel dos seres espirituais nesse governo. Agora estamos estudando o papel das coisas corporais em geral, e, nas próximas questões, estudaremos os seres humanos em sua relação com todo o governo do cosmos.

Quando estudamos os seres corporais, surge a questão da relação entre os corpos celestes – estrelas, planetas, etc., e as coisas materiais que estão na Terra. Nós sabemos que, no tempo de Tomás, os conhecimentos científicos sobre os corpos celestes eram escassos, em comparação com o nosso. Mas a humanidade sabia, desde seus primórdios, que havia relação entre os astros e as coisas da Terra, quando percebiam, por exemplo, que a mudança das estações se relacionava com a posição relativa de estrelas, planetas e o Sol, ou que a Lua tinha fases que influenciam nas marés. Isto colocou a humanidade na posição de considerar que os astros não apenas estavam relacionados com eventos naturais terrestres, mas podiam até mesmo determinar nosso destino humano. Tomás, e com ele a grande tradição cristã, nunca admitiu essa determinação, mas nunca negou a influência. 

É claro que a linguagem aqui utilizada é a da ciência do tempo de Tomás, e por isso pode parecer estranha para nós. Mas suas intuições fundamentais continuam válidas. 

É esse justamente o debate aqui: em que medida os astros e corpos celestes influenciam as coisas que ocorrem na Terra? 

Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Para provocar o debate e estimular a discussão, a hipótese polêmica inicial sugere que os corpos celestes não influem de nenhum modo em tudo o que ocorre aqui na Terra, não são causa de eventos aqui, nem são determinantes para a nossa vida cotidiana e para a ordem física terrestre. Há quatro argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que São João Damasceno ensinava, a respeito do papel dos astros celestes sobre os acontecimentos na Terra, que eles não são a causa da formação das coisas na Terra, nem a causa de sua corrupção”. Ele admitia apenas que os corpos celestes podem causar grandes eventos climáticos, como  as chuvas e tempestades e as grandes alterações atmosféricas. Assim, conclui açodadamente o argumento, a influência dos astros sobre as coisas corporais na Terra seria apenas indireta, por meio da influência climática, e não podemos dizer que eles são verdadeiramente causa de tudo o que há aqui na Terra. 

O segundo argumento objetor.

As coisas corporais que existem na Terra têm sua causa completamente explicada a partir da matéria que se encontra aqui e dos agentes que também se encontram aqui. Ou seja, a matéria da terra, com a atividade das causas terrestres, ou seja, dos agentes causadores que se encontram por aqui, são suficientes para explicar a existência, a geração e a destruição das coisas materiais que existem na Terra. Assim, não precisamos atribuir nenhum tipo de causalidade aos corpos celestes, com relação às coisas terrestres, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor. 

Este argumento precisa ser lido com muita atenção, porque ele se fundamenta na física que a ciência conhecia na época de Tomás. Tomás respeitava muito a ciência de seu tempo e a conhecia. Não podemos imaginar que ele pudesse prever os desenvolvimentos da ciência em nossos tempos, mas podemos tentar acompanhar os bons raciocínios de Tomás e os princípios que ele aplica.

De fato, naquele tempo, havia o princípio de que as coisas provocam efeitos semelhantes a si mesmas; e isso, se pensarmos bem, faz muito sentido. De fato, coisas sólidas são capazes de provocar danos em outras coisas sólidas, porque a sua solidez atinge a solidez da outra coisa; coisas líquidas fluem e se adaptam ao meio ambiente; seres vivos geram seres vivos semelhantes a si mesmos e assim por diante. 

Além disso, a ciência do tempo de Tomás acreditava que tudo o que há em nosso planeta seria formado de terra, água, ar e fogo – seria uma espécie de “tabela periódica” daquele tempo.Mas a ciência acreditava que as coisas extraterrestres não eram formadas por estes quatro elementos, que são altamente mutáveis, mas por um quinto elemento, que era muito estável, imutável mesmo, de natureza completamente diferente das coisas terrestres. E, por fim, em vez de lidar com forças como a gravidade ou a força eletromagnética, eles pensavam basicamente em quatro forças agentes no mundo: o calor, o frio, a umidade e a secura. Assim, o argumento aduz que os elementos extraterrestres não poderiam causar efeito nas coisas terrestres, porque são de outra natureza – não são semelhantes às coisas terrestres; além disso, as quatro forças (calor, frio, umidade e secura) seriam mais do que suficientes para explicar todas as transformações que ocorrem no planeta Terra. Logo, o argumento conclui, apressadamente, que os corpos supralunares não causam efeitos na realidade terrestre

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor tem relação com a sexualidade e a reprodução, e a influência dos corpos celestes sobre a geração de pessoas e animais. Poderíamos chamar de “argumento do horóscopo”, já que ele quer justamente investigar a suposta influência das constelações do Zodíaco sobre os nascimentos – algo que, ainda em nosso tempo, muita gente crê. 

O sexo, diz Santo Agostinho, é a expressão por excelência da corporeidade. Nada pode ser mais profundamente corpóreo do que o sexo, diz ele.  Ocorre que, se houvesse realmente uma causalidade determinística dos corpos celestes sobre os acontecimentos que incidem nas criaturas da Terra, então teríamos que esperar que todos os gêmeos e todas as gestações múltiplas gerassem uma prole completamente uniforme: que fossem todos do mesmo sexo, com as mesmas características corporais, já que o momento de geração é o mesmo e a posição dos corpos celestes é igual, nesse momento. Nascem sob as mesmas constelações, sob a mesma posição das estrelas.

Mas nós sabemos que isto não é assim. Não somente os animais que geram uma prole múltipla a cada gestação costumam ter filhos de diversos sexos de modo simultâneo, como até mesmo os seres humanos – há muitas gestações (as bivitelinas ou multivitelinas) em que os filhos nascem com diversidade de sexos e de características físicas e até de temperamentos. Ora, se os corpos celestes exercessem uma forte causalidade sobre os seres corporais em nosso planeta, isto não aconteceria: seriam todos idênticos. Logo, conclui o argumento, os corpos celestes não exercem causalidade sobre os acontecimentos que envolvem os corpos terrestres

  1. O argmento sed contra.

O argumento contrário à hipótese inicial parte da constatação, que era óbvia no tempo de Santo Agostinho e mesmo muito antes, de que há uma conexão óbvia entre os corpos celestes e tudo o que ocorre na Terra. No tempo de Agostinho, como no tempo de Tomás, havia uma visão rigidamente hierárquica do universo criado, pela qual os corpos celestes eram vistos como mais perfeitos, mais poderosos do que os corpos dos seres terrestres, e por isso eles seriam mais importantes para manter a ordem do universo, e exerceriam grande influência nos acontecimentos da terra. E o Pseudo-Dionísio já registrava a dependência que a vida na Terra tem, quanto ao sol. Ele afirmava expressamente que a luz do sol contribui para a geração dos seres, interage com sua sensibilidade, possibilita a geração, a nutrição, o crescimento e até a destruição dos seres vivos. Logo, conclui o argumento, as coisas materiais terrestres têm uma enorme dependência causal com relação aos corpos celestes, conclui o argumento.

Mas, em contrário, diz Agostinho: os cor­pos mais grosseiros e inferiores são regidos, nu­ma certa ordem, pelos mais subtis e poderosos. E Dionísio diz: a luz do sol contribui para a geração dos corpos sensíveis, gera a própria vida, nutre, faz crescer e leva ao termo.

  1. Encerrando por enquanto. 

Parecia óbvio a todos os seres humanos, desde tempos imemoriais, que há grande harmonia entre céus e terra: as fases da lua, a posição das estrelas, o movimento do sol, tudo isso determina a sequência de dias e noites, de estações, de marés e, portanto, da agricultura e da pecuária e da própria vida dos seres.  Mas os astros e estrelas, como sabia a tradição judaico-cristã, não são deuses, mas criaturas, dentro de um mesmo cosmos, ou seja, dentro de um só universo que tem uma ordem intrínseca. 

MAs a tendência a divinizar os astros, a desenvolver determinismos exagerados como horóscopos e previsões astrológicas, a enxergar um determinismo dos astros em nossa vida, ainda é um risco presente em nosso tempo – quanto mais no tempo de Tomás. 

No próximo texto, veremos a resposta de Tomás, que colocará essa relação em ordem.