1. Retomando para concluir.

É muito interessante acompanhar o esforço de Tomás para manter a consistência do mundo material mesmo frente a todas as tendências espiritualistas que acompanharam o cristianismo desde o começo. Contra todo gnosticismo, Tomás reafirma energicamente, dentro do verdadeiro espírito bíblico e cristão, a atualidade e a atividade do mundo material, que não é apenas um reflexo ou uma ilusão sem importância perante o mundo espiritual. 

Acompanhemos agora as duas últimas respostas de Tomás aos argumentos objetores colocados neste artigo.

  1. Os dois últimos argumentos objetores e as respectivas respostas de Tomás.

O quarto argumento objetor.

Toda atividade vem de Deus, lembra o argumento, e a criação toda reflete o poder de Deus, por analogia. Dentro dessa visão analógica e fortemente hierarquizada do ser, que coloca em primeiro lugar os seres angélicos e em último lugar as criaturas materiais, o argumento propõe que as criaturas que estão mais próximas de Deus recebem dele sua atualidade e sua atividade; ora, as criaturas materiais são as mais distantes de Deus, insiste o argumento. Logo, não podem receber nenhuma capacidade ativa, e são, portanto, completamente passivas, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

As criaturas materiais são compostas de forma (a sua estrutura imaterial) e matéria (a sua concretude existencial). Ora, de fato a matéria-prima é o que há de mais distante de Deus, porque é pura potência passiva, desprovida de qualquer atualidade. E por isso não encontramos nenhuma matéria-prima em estado puro, no universo criado. Todas as criaturas corporais efetivamente existentes já trazem em si alguma perfeição formal que as faz existir deste ou daquele modo; de fato, a forma é a ideia estruturante da matéria, tal como concebida em primeiro lugar por Deus; logo, não está distante de Deus, e portanto as criaturas corporais efetivamente existentes podem agir, por força de sua forma, conclui Tomás. 

O quinto argumento objetor.

como vimos na resposta do quarto argumento objetor, todas as coisas materiais devem agir por sua forma. Ora, as criaturas materiais têm em si a sua forma substancial (a forma de cão, de gato, de pedra, ou seja, aquela forma que lhes faz ser uma substância, um sujeito no ser) e as suas formas acidentais (alguns são grandes, outros pequenos, outros são marrons, outros brancos, e assim por diante). ora, a ação da forma substancial é transformar a matéria-prima neste ou naquele ente; ela não tem, portanto, nenhum princípio de ação que ultrapasse a matéria que forma seu próprio corpo, não podendo, portanto, ser princípio de atividade das coisas, na sua relação com outras coisas. O princípio de atividade, portanto, deve ser uma forma acidental

Mas as formas acidentais são menos importantes do que as formas substanciais: se um gato mudar, por exemplo, de cor e tamanho (que são formas acidentais) ele continuará sendo um gato (sua forma substancial). Portanto, uma vez que o menor não pode causar o maior (esta é uma lei da física ainda conhecida mais de oitocentos anos depois de Tomás), então a ação das criaturas corporais não pode alcançar as outras substâncias corporais; logo, as criaturas corporais não interagem, isto é, não são ativas frente umas às outras, conclui o argumento.

A resposta de Tomás. 

A resposta de Tomás é bem complexa para nós, porque está fortemente lastreada na metafísica de Aristóteles. Ele começa dizendo que não é verdade que as criaturas corporais somente tenham atividade por seus acidentes. Pensemos, aqui, no urânio, que é radioativo. A sua radioatividade vem da sua substância mesma, não é um acidente nele. Logo, não é apenas por acidente que as coisas materiais agem umas nas outras.

De fato, mesmo quando pensamos em aspectos acidentais das coisas materiais, como o calor que faz com que as aves choquem seus ovos, devemos lembrar que o calor dos seus corpos, embora a rigor seja algo acidental nelas, no entanto vem de sua substância mesma, já que são seres homeotérmicos, isto é, seres de sangue quente. Por isso, embora seja acidental, a temperatura da ave pode ser causa na geração de filhotes, porque pertence de modo próprio à estrutura substancial dela. Não há, pois, aqui, nenhuma ofensa às leis da física.

  1. Concluindo.

Confirmada, pois, a verdadeira atividade do mundo material, sob o governo de Deus.

No próximo texto veremos esta característica interessante do mundo material que são as chamadas razões seminais, quer dizer, a capacidade que a matéria tem de guardar em si a potencialidade de compor qualquer ente material, de tal modo que aquela matéria que um dia foi, digamos, parte de um dinossauro, pode tornar-se, depois, uma parte do nosso próprio corpo – sempre em ordem e dentro de um plano divino maravilhoso.