1. Retomando.

As coisas materiais têm consistência existencial. O mundo não é uma ilusão, nem um jogo de energias, nem uma aparência externa de um jogo de partículas. As coisas existem, são capazes de agir, são capazes de receber ação. Elas agem entre si justamente sob esse esquema: as coisas atuais, ou seja, aquelas que já apresentam determinadas perfeições, agem sobre aquelas coisas potenciais, isto é, sobre aquelas coisas que, embora possam apresentar futuramente certas perfeições, ainda não as possuem. A tinta possui a cor em ato, ela é capaz de dar cor à parede recém construída, que ainda está em potência para a cor, porque ainda não foi pintada. Vimos isto no último texto.

Agora vamos começar a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais. 

  1. Os três primeiros argumentos objetores e as respectivas respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita uma frase de Santo Agostinho, que afirma que há coisas que são corporais e não são ativas, como os entes materiais; há um ser que que é plenamente ativo, mas não é criatura: é Deus. E há entes que são criaturas e são ativas, como as substâncias espirituais. Ora, as substâncias espirituais são os anjos e as almas humanas, e estes são, segundo esta frase de Agostinho, os únicos entes ativos, além de Deus. Logo, as criaturas materiais, todo o mundo dos corpos, não age, mas apenas sofre a ação dos entes espirituais; o mundo material, portanto, é estritamente passivo, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há, para Tomás, uma hierarquia do ser no universo. O primeiro ser é Deus, e ele é o incriado, o absoluto, o Espírito por definição. Ele é capaz de agir sobre todas as coisas, justamente porque é Deus. Além disso, o mundo espiritual, que, para Tomás, é um mundo pessoal (para ele, aquilo que chamamos de forças físicas fundamentais, e que temos por impessoais, é, na verdade, um mundo de pessoas espirituais) age sobre toda a realidade material (como hoje achamos que as forças físicas impessoais – gravidade, forças eletromagnéticas, etc., agem sobre todo o universo); mas as coisas corporais, em seu conjunto, não tem uma realidade inferior a ele para agir incondicionalmente. E portanto, no sentido da relação entre as esferas da existência, Agostinho está certo. A esfera das coisas materiais está submetida às esferas superiores, mas não age sobre nenhuma esfera inferior, porque não existem esferas inferiores. Mas uma criatura corporal que tenha atualidade pode agir sobre uma outra criatura corporal que esteja em potência, como, por exemplo, a água, o solo e a luz agem sobre a semente e a transformam numa árvore. Portanto, no campo das coisas materiais e concretas, existe, sim, a possibilidade de que uma coisa corporal tenha capacidade de agir sobre outra

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor vai na mesma linha do primeiro: parte de uma visão hierárquica do ser, (O ser incriado, os seres espirituais e os seres materiais) para afirmar que todo ser que age precisa agir sobre alguma coisa, que seja objeto de sua atuação. Ora, Deus age sobre toda a criação. Toda a criação é, portanto, destinatária de seu agir. Os seres espirituais agem sobre os materiais, ou seja, estes são objeto da ação dos espíritos. Mas os seres materiais não têm uma esfera do ser inferior a eles, logo eles não podem agir sobre nada. Por isso, conclui o argumento, os seres materiais não são agentes, mas apenas pacientes; não são ativos, mas apenas passivos, afirma imprudentemente. 

A resposta de Tomás.

A resposta à primeira objeção já responde também a esta. De fato, não há esfera do ser que seja inferior à das coisas materiais, mas, dentre as coisas materiais, as atuais agem sobre as potenciais

Tomás acrescenta, porém, que Avicebron tinha razão em ensinar que há um primeiro ser que é puro ato, pura capacidade ativa, capaz de agir sobre todas as coisas e sem sombra de potencialidades passivas, e este ser é Deus. E, por outro lado, há algo que é puramente passivo e potencial, que existe apenas como ente de razão e é incapaz de qualquer tipo de atividade: é a matéria-prima. Mas as coisas materiais que efetivamente existem no mundo da vida não são pura potência, mas um composto de ato e potência. Então, por seus atos, ela pode agir sobre aquilo que está em potência. Não são, pois, as criaturas materiais efetivamente existentes no mundo criado que estão no pólo oposto a Deus, mas a matéria-prima, que não existe no mundo em estado puro, senão como ente de razão. Isto parece muito técnico e difícil de entender, mas sugiro que, para quem quiser mais informações, seja consultada a questão 66 desta primeira parte da Suma.

O terceiro argumento objetor.

Toda criatura corporal tem uma certa quantidade de matéria que compõe seu corpo. Ora, é justamente esse corpo que localiza e limita radicalmente a coisa àquele lugar e àquele tempo, imergindo-o radicalmente na limitação do mundo físico. Para dar um exemplo: quando temos um livro, o pensamento que está impresso naquele livro fica localizado naquela estante, naquele momento, de modo que somente quem tem acesso ao livro naquele dia e lugar pode ler suas páginas. Mas se o mesmo livro é digitalizado, e seu conteúdo (imaterial) fica desvinculado das limitações de seu suporte de papel (corpo material), ele adquire uma mobilidade enorme, e passa a poder ser distribuído por quaisquer meios digitais que a sua edição corpórea não permite. Neste sentido, a corporeidade priva o ente de ação, de capacidade ativa, e é tão mais restritiva quanto maior seja a quantidade de matéria envolvida – uma enciclopédia em papel é muito mais difícil de circular do que um pequeno livro impresso, mas ambos são muito mais restritos do que suas versões digitais. Deste modo, o argumento conclui que a corporeidade das criaturas impede sua atividade real, e esse impedimento é tão maior quanto mais denso e volumoso for o corpo. 

A resposta de Tomás.

Não é a existência de um corpo, de um substrato material, que impede as criaturas materiais de agir. Na verdade, para seguir com o exemplo dos livros digitais (que certamente Tomás não conheceu, tendo vivido há oitocentos anos, mas cuja realidade hoje pode se ajustar perfeitamente a esta resposta) mesmo os livros digitais precisam de algum tipo de suporte material, ainda que eletrônico (algum tipo de memória como hard disks, flash drives ou disquetes) para existir e circular. Mesmo o livro físico só pode ser lido porque se encontra impresso em papel, sendo óbvio que a mera existência espiritual da ideia na cabeça do escritor não permite a sua circulação. Portanto, o corpo, a dimensão material dos entes, embora esteja restrito à inserção histórica e temporal (as coisas existem aqui e agora, e não em outro tempo e lugar) não é impedimento à atividade dos entes materiais, mas apenas de sua atividade universal: um ser humano não pode estar instantaneamente em dois lugares diferentes, como podem os anjos e demônios, que não são materiais. 

Ademais, Tomás nos lembra que nem toda atividade consiste num movimento de deslocamento local, como passar daqui para ali; a maior parte da atividade que ocorre no mundo material consiste em passar da potência ao ato, muitas vezes sem deslocamento, como no caso da fruta que amadurece ou do pensamento que é expresso pela fala.  Não podemos, pois, limitar a atividade das criaturas materiais ao deslocamento de lugar. Há muitas outras atividades dos entes materiais que representam a passagem de uma potência a um ato sem que haja nenhum tipo de deslocamento de lugar. 

  1. Encerrando.

O artigo é longo. Aconselhável interrompê-lo aqui, para que examinemos os dois últimos argumentos no próximo texto.