- Retomando.
O mundo não é uma casca de matéria regida por forças transcendentes, espirituais. O ocasionalismo, que é aquela teoria de que as criaturas materiais não podem ser causas reais de eventos em nosso mundo, mas que a atuação de Deus em cada evento nos dá a ilusão de que elas têm poder causal, é uma falsa teoria. Também é falso o niilismo oriental que prega que o mundo material é maya, uma grande ilusão decorrente do nosso orgulho egóico que não percebe que na verdade a única realidade é o nada. Um grande teólogo polonês-alemão chamado Erich Przywara, que viveu no século XX, afirmava que uma grande parte da teologia corrente vivia em um dos dois pólos, quanto à consistência do mundo criado, material: há aqueles que acha que Deus é imanente ao mundo criado, e que há identidade entre o mundo criado e Deus (são os panteístas) e aqueles outros que acreditam que o mundo criado é apenas uma casca, uma ilusão ou um pretexto para a ação de Deus – que é o único capaz de agir. São os teopanistas, como os ocasionalistas e os seguidores niilistas da doutrina de Maya.
Tomás se coloca numa posição fortemente diversa de todos estes. O mundo material é derivado, dependente e contingente, mas é real, causal, consistente. Esta questão que estamos estudando agora diz respeito justamente ao lugar das criaturas materiais no governo do universo.
Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que todo o mundo material é composto de coisas passivas, incapazes de ação, e que toda ação decorre apenas dos seres imateriais, como as formas, os anjos e o próprio Deus. Vimos cinco argumentos objetores que tentam defender que as coisas materiais não são capazes de nenhuma atualidade, nenhuma atividade real, e finalmente o argumento sed contra, que recusa esta hipótese apenas pela constatação de que o fogo é algo material e queima realmente. Ou, tem uma atualidade inegável.
Examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás sobre este debate.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Não se pode ter dúvida de que as coisas materiais, corporais, têm real capacidade de agir, são atuais e são capazes de causar efeitos no mundo material.
Mas, ainda assim, diz Tomás, há pelo menos três correntes de ideias equivocadas a respeito dessa capacidade ativa das criaturas corporais. São elas:
- A opinião do filósofo muçulmano Avicebron, que entende que as criaturas corporais não cgem por seus corpos, porque a matéria seria completamente desprovida de qualquer atividade ou qualidade causal. Assim, na atuação das coisas corporais, não seriam as próprias coisas a agir e causar efeitos, mas uma “força espiritual” que está para além do corpo e o penetra, agindo por meio dele. Assim, quando, por exemplo, uma chama de fogo nos queima, ou uma pedra nos atinge e nos fere, não seria a matéria do fogo a nos queimar, nem o corpo da pedra a nos ferir, mas a ideia universal de fogo, ou a ideia universal de pedra, na sua realidade espiritual e transcendente da matéria, que causaria, por meio daquela chama de fogo concreta ou daquele pedaço de pedra específio, os efeitos citados – a queimadura ou a lesão.
Na verdade, Avicebron interpreta a teoria das ideias separadas de Platão de uma maneira mais radical do que o próprio Platão. Para Platão, como sabemos, o mundo material é apenas uma participação imperfeita no mundo imaterial das ideias. As ideias podem agir sobre o mundo inteiro: onde quer que haja matéria, a ideia (ou forma) pode se imprimir nela, dando origem a um ser individual. Mas esse ser individual, por ser material, não teria nenhum poder para agir, porque estaria como que contido pela matéria. Para dar um exemplo que tornasse clara essa visão: pensemos num grande carimbo: o carimbo seria como a ideia separada, capaz de deixar sua impressão em qualquer folha de papel; mas a impressão deixada na folha de papel não é capaz, por sua vez, de imprimir-se em outra folha de papel. Assim, cada vez que aparece a impressão, seria o carimbo, e não a outra folha já carimbada, que estaria deixando a nova marca. Avicebron entende, então, que as coisas materiais seriam como impressões carimbadas e inertes de ideias que seriam como carimbos espirituais, e cada vez que ocorresse alguma coisa no mundo material, seria por força da atividade da ideia separada, não da criatura material. A ideia, como agente universal, agiria através das coisas individuais e inertes, dando-nos a impressão de que as coisas materiais são ativas, quando na verdade não seriam, para esse filósofo. assim, a pequena chama de fogo não nos queimaria, mas a ideia separada de fogo, dona de toda causalidade universal, é que queimaria por meio do fogo material e concreto.
- Como dissemos, aquela primeira posição posição ultrapassa o pensamento do próprio Platão. Estudemos agora a posição de Avicena, que segue mais de perto, neste assunto, a posição original de Platão. Ele entende que a forma universal age sobre a matéria para fazer com que a substância material venha a existir como coisa concreta. A ideia existindo no reino separado não possui características como tamanho, cor, densidade, dureza, e assim por diante. Quando ela se imprime na matéria, ela adquire essas características acidentais e se torna capaz de agir concretamente no mundo material. Para entender melhor: é como se a ideia de gato, existindo fora do mundo material, não representasse um gato determinado, com raça, cor, tamanho, cheiro e lugar concretos. Quando, porém, vem a formar um gatinho específico, a matéria lhe dá todas essas especificações: por ter, então, esses acidentes materiais que o concretizam como indivíduo, a forma universal passa a agir no reino material. Mas ela somente seria capaz de atuações acidentais: influir na matéria de outros seres. Para que surgisse um outro gatinho, ou seja, uma nova substância, os gatos podem preparar materialmente o mundo, por exemplo através da cruza, que prepara a matéria para receber uma nova forma substancial de gato. Mas não seria a própria cruza, mas a ideia universal de gato que, inscrevendo-se na matéria resultante do cruzamento, daria origem a um novo gato. Deste modo, as coisas individuais, corporais, somente agiriam acidentalmente sobre o mundo, mas nunca substancialmente. A atuação substancial, para o surgimento de novas coisas, está reservado, para Avicena e Platão, à atuação das ideias universais, separadas puramente espirituais.
- Por fim, temos a posição de Demócrito, que iniciou a corrente filosófica chamada de atomismo. Para Demócrito, não haveria formas separadas que se imprimiriam na matéria; todos os entes, todas as coisas materiais, seriam formadas por átomos que se combinariam de determinado modo. Estes mesmos átomos, pequenas partículas de matéria, seriam trocados entre as coisas, quando elas interagem. Deste modo, toda atuação e toda atividade entre dois entes materiais, segundo Demócrito, nada mais seria do que uma troca de partículas.
A posição de Demócrito, diz Tomás, é inaceitável, porque implicaria duas coisas: toda a atividade estaria nos corpos, que seriam plenamente ativos ou , e cada atividade implicaria que os corpos se “gastassem” um pouquinho, diminuindo sua massa.
A atividade das criaturas materiais, conclui Tomás, se insere na noção de atualidade-potencialidade. Há sempre uma criatura material atual, isto é, já ativa e capaz, que age sobre uma outra criatura potencial, ou seja, capaz de ser aperfeiçoada, capaz de ser levada a uma nova perfeição. Assim, por exemplo, uma parede recém construída ainda não tem cor – está ainda inacabada, portanto, porque é potencial para a cor. Mas a tinta, aquele líquido capaz de colorir, já tem a cor atualmente, e é capaz, na sua atualidade, de colorir a parede ainda inacabada. Assim, a atualidade da tinta age sobre a potencialidade da parede; é deste modo, sempre uma atualidade sobre uma potencialidade, que as coisas materiais agem no mundo material.
3. Encerrando.
Texto longo e complexo.
No próximo texto começaremos a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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