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- Introdução.
Como estamos lembrados, este tratado da Suma, que começou na questão 103, diz respeito à dinâmica do universo criado, seu funcionamento, sob a ação de Deus – ou seja, é o tratado sobre o governo do mundo, ou, como chamamos hoje, é um Tratado sobre o funcionamento do Universo a partir de sua submissão a Deus.
Assim, existe uma tentação enorme, num tratado teológico, de menosprezar as coisas materiais em favor das espirituais. Uma vez que Deus é puro espírito, é pura atividade, e a matéria-prima é pura passividade, pura receptividade sem nenhuma atualidade – vale dizer, sem nenhuma capacidade de agir, mas apenas com a capacidade de sofrer a ação alheia, haveria uma tendência – muitas vezes presente mesmo nos dias de hoje, oitocentos anos depois de Tomás – a desvalorizar a realidade e a dinâmica das coisas materiais, corporais, em favor das coisas incorpóreas, espirituais, que são mais semelhantes a Deus. Essa ideia perigosa de que o espírito e a ideia são boas, mas a matéria é má é uma tendência sempre à espreita no cristianismo: chama-se gnosticismo, e foi mais de uma vez denunciada pelo Papa Francisco como uma perigosa tentação no caminho da santidade. Dentre outros documentos do Magistério do Papa Francisco sobre o gnosticismo, podemos citar a carta Placuit Deo da Congregação da Doutrina da Fé, e o rico e um tanto complicado capítulo 2 da exortação papal Gaudete et Exsultate.
Estudaremos, aqui, justamente essa consistência, essa capacidade de agir, essa atividade, ou melhor, a atualidade das coisas corporais na dinâmica do universo criado. Será que as coisas corporais, materiais, são apenas joguetes passivos nas mãos de Deus e dos anjos, ou será que o mundo material tem a sua própria capacidade de atuar e causar verdadeiramente? Vamos ao artigo.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é a de que todo o mundo material é composto de coisas passivas, incapazes de ação, e que toda ação decorre apenas dos seres imateriais, como as formas, os anjos e o próprio Deus. Nenhum corpo, diz a hipótese para nos provocar a pensar, é capaz de atividade, de interação, de causalidade real sobre as outras coisas. Essa hipótese muito polêmica, que transforma todo o universo material num joguete inanimado e passivo sob as forças imateriais, é apoiada por nada menos do que cinco argumentos objetores iniciais, que tentam comprová-la. Vamos examinar essas hipóteses.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Os argumentos objetores, como sabemos, tentam comprovar a hipótese inicial, e normalmente não são verdadeiros, mas apresentam desequilíbrios e falhas, que serão melhor debatidas por Tomás em suas respostas, mais adiante, em cada artigo. aqui, como vimos, há cinco argumentos deste tipo, que passamos a examinar.
O primeiro argumento quer comprovar que não há nenhuma atividade real nas coisas corporais a partir de uma citação de Santo Agostinho. De fato, a obra Cidade de Deus, Santo Agostinho parece apoiar a ideia de que as coisas materiais são inertes e passivas, ao afirmar: “há coisas que são criadas, e que apenas sofrem a ação alheia, mas não agem, como as coisas corporais. Há, por outro lado, um ser que é plenamente ativo e não é criado, que é Deus; e, por fim, há outros seres que são criaturas e são ativos, que são as substâncias espirituais. Logo, diz o argumento de modo imprudente, Santo Agostinho parece apoiar a ideia de que as coisas corporais são puramente inertes e passivas, e não ativas.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que todos os sujeitos que agem precisam de um objeto sobre o qual recaia a sua ação; o único que pode agir sem que haja um objeto prévio é Deus. Isto é, todas as coisas que agem incidem a sua ação sobre alguma substância que já exista, e que seja capaz de receber sua ação. Só Deus, que é o primeiro ser e o único capaz de criar a partir do nada, é que não precisa que exista alguma coisa prévia e inferior que possa receber sua atividade.
Mas, na hierarquia do ser, não há nada abaixo das criaturas corporais, que pudesse ser submetido à sua ação. De fato, Deus pode agir sobre todas as coisas, porque é Deus e está acima de qualquer ser criado; e os anjos podem agir sobre a matéria ou sobre os anjos inferiores. Mas nada pode ser mais ínfimo do que um ser corporal. Assim, os seres corporais não podem agir, mas apenas podem receber passivamente a ação dos outros seres superiores, conclui o argumento, imprudentemente.
O terceiro argumento objetor.
As coisas corporais têm, é claro, um corpo, limitado, determinado e concreto, que as insere na existência num tempo e num lugar, e determina a forma a existir ali naquele corpo, naquela matéria de quantidade certa que constitui sua corporeidade. Ora, a matéria limita a capacidade de qualquer ideia ou conceito: por exemplo, a ideia de gato engloba todos os gatos do mundo, que já existiram ou vão existir, de todas as cores, raças, formas e volumes possíveis. De fato, quando uma coisa é material,ela é pesada, lenta, determinada pelo tempo e pelo espaço, de tal modo que ela não é realmente capaz de agir.
Logo, as coisas que são materiais, corporais, estão como que “presas” e limitadas pela sua individualização material, o que as impede de agir, de interagir e mesmo de ser atuais. Deste modo, o argumento conclui, apressadamente, que as coisas corporais não são capazes de agir.
O quarto argumento objetor.
O grande agente, a fonte de toda atividade, de toda capacidade de transformar, de atuar, é o próprio Deus. Assim, as coisas que estão próximas à fonte são mais capazes de agir, quão mais perto estejam de Deus.
Ora, de todas as coisas criadas a mais distante de Deus é aquilo que é material, composto, corpóreo, porque nada pode ser inferior às coisas materiais, na hierarquia do ser. Logo, por serem as coisas mais distantes da fonte de toda ação e de toda transformação, as coisas corpóreas não são capazes de agir, de atuar, de entrar na dinâmica que transforma as outras coisas, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento quer usar a metafísica das coisas materiais, ou seja, a ideia de substância e acidente para provar que as coisas materiais não podem ter verdadeira atividade no mundo.
Se as coisas corporais fossem capazes de produzir ativamente transformações no mundo, isso se daria quando elas: 1) Causassem a existência de outras coisas, ou seja, se elas fossem capazes de gerar substâncias novas colocando-as na existência, ou 2) quando elas fossem capazes de gerar transformações acidentais em outros seres.
Ocorre que, se formos procurar, nas coisas materiais, qual é o fundamento de sua atuação, veremos que, nas coisas corporais que parecem ativas, o fato de ser algo ativo é um acidente, porque as coisas não deixam de ser o que são quando estão momentaneamente quietas ou na passividade. Ser ativo, quer dizer, agir, para uma coisa corporal, é sempre um acidente com relação ao que elas são substancialmente. Por exemplo, um animal dormindo não deixa de ser um animal por estar inativo. Agir é, portanto, um acidente para as coisas corporais.
Ocorre que na pode transmitir mais do que tem, quer dizer, o efeito não pode ser maior do que a causa, ou seja, nada pode gerar mais efeitos do que aquilo que causa. Assim, não haveria sentido que o acidente de ser ativo, numa criatura material, gerasse a substância de um novo ser. Isso violaria as leis da física, porque o acidente, que é dependente e contingente com relação a uma substância, estaria gerando uma nova substância. A causalidade seria, neste caso, violada.
Além disso, por outro lado, os acidentes só existem quando ligados a uma substância, à qual pertence. Não existe a branquitude andando por aí, mas apenas substâncias brancas – porque a cor é um acidente de alguma substância. Ora Santo Agostinho, na Cidade de Deus, nos ensina que, como o acidente sempre depende de alguma substância, então ele não pode se estender para além da substância da qual depende. Ora, se um acidente gerasse um acidente em oura substância, ele estaria se estendendo para além da substância da qual depende para existir, e isso seria contraditório.
Ora, se agir é sempre um acidente para as criaturas materiais, e se acidentes não podem criar novas substâncias, nem sequer podem atuar para além da própria substância à qual pertencem, então as coisas materiais não podem atuar perante outras coisas materiais, e portanto nada do que é material tem real poder ativo no mundo, conclui imprudentemente o argumento,.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra nos lembra que o fogo é algo material, ou seja, é sempre uma reação química de alguma substância material. Ora, o fogo tem atividade intrínseca, é capaz de destruir, de iluminar, de aquecer, enfim, de induzir modificações substanciais e acidentais em outros entes. Isto já era percebido inclusive por autores antigos como o Pseudo-Dionísio, e a física de nosso tempo, oitocentos anos depois de Tomás, confirma este fato. Logo, diz Tomás, as coisas corporais são capazes de verdadeira atividade, atuando junto a outras coisas materiais, conclui este argumento.
- Encerrando.
A física de Tomás parece bem estranha para nós. Para ele, a obra de Aristóteles não é apenas filosófica (no sentido que conhecemos hoje), mas também física (e química). Por isso, a visão científica do tempo de Tomás nos parece sempre estranha e ultrapassada. Mas aquilo que Tomás está tratando aqui – que o mundo material é real, é capaz de agir e interagir, apresenta consistência e regularidade, não precisa da intervenção permanente de Deus ou de anjos para funcionar) foi essencial para o desenvolvimento da ciência que temos hoje. E estes princípios continuam válidos.
No próximo texto começaremos a estudar as longas, complexas e interessantes respostas de Tomás. Não desanimemos – se elas parecerem obscuras e difíceis de entender, vamos lê-las de novo. Tentarei fazer essa “tradução”.
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