- Retomando.
O debate aqui diz respeito À possibilidade de que nós, com o apoio dos anjos e a ajuda da graça, possamos vencer o assédio dos demônios. Trata-se da esperança de que nossos esforços, devidamente iluminados e assentados na graça, gerem, em algum momento, frutos de paz ao nosso coração, o que seria impossível se os demônios jamais cessassem de nos assaltar mesmo quando venhamos a resistir aos assaltos de maneira eficaz.
Trata-se, portanto, de debater a possibilidade de um alento: será possível vencer os demônios e ter momentos de paz, mesmo aqui neste vale´de lágrimas? A hipótese inicial sugere que essa paz nunca é possível, e que, mesmo vencendo os assédios momentaneamente, os demônios nunca cessam de nos assaltar com os mesmos desafios à nossa salvação. Vimos dois argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese, bem como o argumento sed contra que nos lembra que, quando vencido por Jesus, o Diabo se afastou dele.
Estudaremos, agora, as respostas de Tomás neste importante debate.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Há quem diga, lembra Tomás, que, quando nós conseguimos vencer um determinado assalto demoníaco (quando, por exemplo, desenvolvemos alguma virtude que nos faz superar um vício), nós nos livramos daquele demônio que nos assediava: ele já não poderia nos tentar quanto àquele pecado que foi superado, e já não teria a chance de nos tentar de nenhum modo. Há quem diga que não se pode ser tão radical assim, com relação à atuação dos demônios; uma vez vencido um demônio, ele até pode se afastar daquele ser humano, mas irá assediar outra pessoa. Com isto se pode concordar em parte, diz Tomás; de fato, podemos admitir que, vencida uma tentação pelo desenvolvimento da virtude oposta, aquele demônio cessa sua atuação por algum tempo, mas pode vir a tentar, de novo, o mesmo ser humano com o mesmo tipo de tentação, num momento posterior.
Esta afirmação de Tomás tem base bíblica. De fato, em Lucas 4, 13, o evangelista nos diz que “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Há duas razões pelas quais, vencida a tentação, o demônio se afasta por, pelo menos, algum tempo, diz Tomás. As duas razões são:
- Deus é clemente e misericordioso; como nos ensina São João Crisóstomo, o Diabo não assedia os seres humanos pelo tempo que ele quer, mas pelo tempo e pelo modo que Deus permite. Ora, Deus não permite ao Diabo que nos assedie incondicionalmente, mas, depois de nos ter tentado por um tempo, Deus o repele, limitando-o, porque o Senhor sabe da fraqueza da nossa natureza.
- A outra razão tem a ver com o próprio modo de ser do Diabo. De fato, o Diabo não gosta de perder, não quer ser derrotado, não se expõe a ser vencido. Assim, como ensina Santo Ambrósio, o Diabo, quando derrotado em seu assalto, não renova imediatamente seus ataques porque não quer se expor imprudentemente a uma nova derrota.
No entanto, mesmo depois de derrotado, o Diabo pode perceber um relaxamento, uma fresta, uma oportunidade no ser humano que, anteriormente, havia vencido alguma tentação. Ele pode, por exemplo, perceber um relaxamento na vida de oração, ou o desenvolvimento de alguma compulsão, de tal modo que ele pode voltar a atacar a mesma pessoa com a mesma tentação, com esperança de, nessa nova tentativa, vencer e afastar aquela pessoa da salvação. Isto também está registrado na Bíblia; é Lucas que nos diz que o Diabo pode retornar, depois de expulso. Diz São Lucas (Lc 11, 24-26): “Quando um espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; não o achando, diz: ‘Voltarei à minha casa, de onde saí’. Chegando, acha-a varrida e adornada. Vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e entram e estabelecem-se ali. E a última condição desse homem vem a ser pior do que a primeira”.
Com isto, diz Tomás, ficam respondidos os argumentos objetores iniciais. De fato, o primeiro argumento objetor lembra que o Diabo se afastou de Jesus para retornar no momento oportuno, como vimos no Evangelho de Lucas. Mas isso não prova que o Diabo não tenha se afastado; apenas prova que esse afastamento pode ser temporário, mesmo quando a vitória é real. No segundo argumento, a proposta é a de que punir o Diabo, quando ele é derrotado, apenas o levaria a voltar ainda mais furioso. Ora, o Diabo sempre tem que se sujeitar aos limites impostos pela misericórdia de Deus, tanto com relação ao tempo em que ele pode agir, quanto com relação aos limites impostos aos seus assédios.
3. Conclusão.
Não relaxemos, portanto. Vencido um assalto demoníaco, vem um tempo de paz, que deve ser aproveitado para o crescimento das virtudes, especialmente as teologais. Diz a Primeira Carta de São Pedro (5, 8): “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.”
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