1. Introdução.

A vida humana parece ser uma luta sem tréguas; tanto àqueles a quem parece que  luta para conseguir o mínimo de condição material para sobreviver, quanto àqueles que lutam pela virtude, a vida muitas vezes parece apenas uma tragédia irremediável de ataques incessantes e derrotas persistentes. Mesmo àqueles que se dedicam ao hedonismo a luta parece incessante: o prazer tende a cessar rapidamente e ser cada vez mais difícil de obter. Numa sociedade como a nossa, que não valoriza a luta, a fé e a esperança, mas louva os prazeres, o sucesso público e a riqueza, a ideia de que a luta é impossível de ser vencida pode levar ao desânimo, à desistência e ao suicídio. Será que é realmente impossível ter momentos de paz verdadeira nesta vida? Será que é possível vencer os demônios, com a ajuda de Deus e dos anjos da guarda? Será que a tentação, o assédio, o desafio é incessante, permanente e insuperável? Debateremos todas estas importantes questões neste artigo curto. 

  1. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese inicial, para provocar o debate, propõe que os demônios não podem ser realmente vencidos em momento algum, que nunca sossegam em seu assalto, e que, mesmo vencendo as tentações e resistindo ao assalto, o poder dos demônios sobre nossa vida permanece inalterado, de modo que a nossa vida seria um fardo de combate permanente contra os demônios – uma luta sem trégua e sem possibilidade de superação. De certo modo, esta é uma perspectiva assustadora e desmotivadora, que fecha as portas a um real crescimento espiritual e proximidade com Deus. O assédio demoníaco sobre nós, de acordo com esta hipótese, é permanente e insuperável. Há dois argumentos que tentam comprovar esta tese, e um argumento contrário que tenta provar que ela está errada, Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Não há dúvida de que Jesus Cristo foi assediado pelo Diabo e venceu esse assédio, narrado nos Evangelhos em trechos paralelos (Mt 4, 1-11, Lc 4, 1-13, Mc 1, 13). Mas essa vitória de Jesus não afastou de modo definitivo o Demônio, que permaneceu no seu ataque a Jesus. Assim, não é verdade que vencer o Diabo leva à interrupção de seus ataques, conclui apressadamente o argumento.

O segundo argumento objetor.

Punir quem já foi derrotado, diz o argumento, é incitá-lo a lutar com mais empenho ainda. N verdade, punir o derrotado é, de certo modo, injusto, e portanto indigno de Deus. Portanto, prossegue o argumento, se Deus punisse os demônios com algum tipo de reclusão ou restrição, depois de derrotados em seu combate contra nós, ele estaria sendo, ao mesmo tempo, injusto e inoportuno, porque estaria, além da injustiça, incitando os demônios a fazer ataques ainda mais fortes contra a humanidade no futuro. Deste modo, uma vez que Deus não pode ser injusto nem inconveniente, não seria adequado que Deus impedisse os demônios de nos fazer novos ataques, quando vencidos por nós, conclui imprudentemente o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

Depois de examinarmos os dois argumentos que defendem a hipótese inicial, examinaremos agora o argumento que busca negá-la.

De fato, diz este argumento, há prova bíblica de que, uma vez derrotado, o Diabo se afasta e cessa seu ataque. Ao descrever a vitória de Jesus sobre as tentações demoníacas, o evangelista Mateus (4, 11) nos diz que em seguida o Demônio o deixou (ou seja, ele se afastou de Jesus).

Assim, diz este argumento, há evidência, nas Escrituras, de que, uma vez que se resiste com sucesso às investidas do Demônio, ele se afasta de nós, conclui o argumento.

  1. Encerrando.

Não parece sensato dizer que uma vitória sobre um assalto demoníaco, quando o ser humano supera uma tentação ou vence um desafio, levaria a que aquela mesma tentação ou desafio nunca mais voltasse; mas por outro lado parece bem desanimador imaginar que as tentações e desafios nunca podem ser vencidas, porque estão permanentemente em nosso encalço, mesmo quando resistimos eficazmente a elas, com a iluminação dos anjos e a graça de Deus. No próximo texto veremos as respostas de Tomás nesta importante discussão.