1. Retomando para concluir.

O Diabo não é um mero ilusionista. Ele sabe a diferença entre ilusão e realidade, e é capaz de intervir e alterar a realidade. É por isso que o senso comum é tão importante para a fé cristã: o Diabo pode produzir alterações miraculosas no mundo, mas não pode alterar nem um milímetro o andamento ordinário das coisas para Deus. Ainda vale a advertência da Bíblia: Deus não está nas ventanias, nem nos terremotos, nem no fogaréu, mas na brisa suave (1 Reis 19, 11-13). Os sinais prodigiosos são sempre sinais ambíguos que precisam ser compreendidos com a ajuda do discernimento do Magistério da Igreja. Vimos tudo isto nos textos anteriores.

Vamos examinar, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Há, claramente, relação da atuação demoníaca com a vinda do Anticristo, como nos ensina São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses, 2, 9: “a manifestação do homem ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores”. Ora, há fundamento bíblico, portanto, para defender que os milagres demoníacos não passam, afinal, de prodígios enganadores, isto é, simples truques baratos e mentirosos, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Precisamos entender bem este texto bíblico. De fato, como nos ensina Santo Agostinho, as obras do demônio são chamadas de enganadoras não porque são, em si mesmas, apenas truques baratos e ilusões mágicas, mas porque causa engano em nós, seres humanos, que somos levados a interpretá-las como sinais de caminho verdadeiro e, com isso, desvia-nos do único caminho que é Cristo. É neste sentido, de causar engano no caminho da salvação, que as obras do Diabo são chamadas de enganadoras

O segundo argumento objetor.

Os verdadeiros milagres, diz o argumento, são realizados pela transformação das coisas materiais, fazendo com que elas se tornem aquilo que não são.  Ora, prossegue o argumento, os demônios não têm o poder de transmutar a própria substância das coisas materiais, fazendo-as se transformar em algo que elas não são. O próprio Santo Agostinho, na obra Cidade de Deus, é muito claro ao afirmar que eles não têm tal poder. Assim, os demônios não podem fazer verdadeiros milagres, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, Tomás nos lembra que os anjos e os demônios não têm a capacidade de transformar as coisas, fazendo surgir algo novo ali onde havia algo completamente diferente. Somente Deus tem o poder criador em sentido estrito. Assim, os anjos e demônios podem intervir, modificar, fazer germinar, mover localmente, mas não podem fazer com que algo se transforme naquilo que não é, ou que surja algo novo ali onde nada havia, ou que algo desapareça de onde estava. 

Mas os seres espirituais, anjos ou demônios, podem atuar sobre a matéria, de modo a modificá-la acidentalmente, como foi dito. Quer dizer, eles podem agir sobre as potencialidades da matéria, as sementes ou germes que existem na matéria, fazendo com que certas capacidades ocultas na matéria venham a se manifestar. Assim, podem, por exemplo, valer-se de sementes para fazer surgir plantas, ou de ovas fecundadas para fazer surgir pequenos animais, e assim por diante. Mas somente podem alterar, acelerar ou interromper processos naturais, nunca podem agir contra ou sem as inclinações da própria natureza. É certo que podem agir de modo violento contra as coisas materiais, levantando-as contra a gravidade ou atirando-as à distância, ou mesmo provocando sua destruição, mas não podem fazer surgir do nada aquilo que ali não estava.

Mas existe outra dimensão da atuação dos demônios – aquela atuação sobre nossa percepção. De fato, nossos órgãos dos sentidos, como olhos, ouvidos, pele, etc., pertencem ao mundo das coisas corporais. Também nossa memória e imaginação pertencem ao mundo das coisas materiais. Assim, os demônios têm acesso aos nossos sentidos, à nossa imaginação e à nossa memória, de tal modo que, às vezes, podem nos fazer perceber coisas que não são reais, ou mesmo ter falsas lembranças ou emoções e sentimentos inexplicáveis. Desse modo, os demônios podem nos provocar ilusões sensoriais, percepções ilusórias ou mesmo sentimentos e emoções enganosas, sobre coisas que não existem na ordem das coisas materiais. Neste caso, trata-se de falsos milagres, que só são perceptíveis a quem está sofrendo a ação demoníaca naquele momento. Mas é claro que os demônios podem, igualmente, provocar a mesma ilusão simultaneamente em outras pessoas, provocando verdadeiros delírios coletivos, fenômeno que não é desconhecido da psicologia de hoje. 

Mas há outra maneira pela qual os demônios podem provocar ilusões: pela manipulação do mundo material. Assim, por exemplo, a partir do ar e da poeira os demônios podem gerar vultos e figuras inexistentes, de modo a provocar verdadeiras ilusões a quem os vê. Neste caso, o engano também pode se apresentar a mais de uma pessoa.

Assim, os demônios têm poder não somente para mudar efetivamente a realidade, dentro dos limites da natureza das coisas com as quais interagem, quando, por exemplo, as movem ou derrubam, como podem agir sobre nosso corpo, criando percepções, fantasias, memórias e emoções falsas, individuais ou compartilhadas, e podem agir sobre os elementos do mundo, provocando ilusões pela manipulação de elementos naturais como o vento, o pó, a água, etc. 

Mas os demônios não podem criar nem gerar, e não podem atuar diretamente sobre nosso intelecto, que é uma faculdade incorpórea, imaterial. De tal modo que, com a permissão de Deus, podem nos seduzir e enganar com prodígios de diversas maneiras. Fiquemos atentos. 

O terceiro argumento objetor.

|todo sinal marcado pela ambiguidade não tem valor para comunicar alguma mensagem. Ora, se os demônios podem realizar milagres pela efetiva modificação da realidade das coisas materiais, de modo a nos desviar de Deus, então os sinais enviados a nós pelos milagres estão sempre marcados pela ambiguidade – podem provir de Deus ou dos demônios – e seriam inúteis, pois  já não seriam capazes de nos comunicar a verdadeira fé. Mas isto entraria em contradição com a própria Bíblia, que nos ensina, em Marcos 16, 20b: “O Senhor cooperava com eles, e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam”. Logo, não é possível haver milagres ou prodígios provocados pelos demônios que sejam mais do que ilusões e truques baratos, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Segundo Santo Agostinho, a diferença entre os milagres divinos e os prodígios realizados por farsantes e demônios é que, embora talvez usando os mesmos elementos naturais, os demônios os realizam com finalidade diversa e com diverso fundamento.   

De fato, os milagres divinos são feitos para o nosso bem e nossa salvação, para a maior glória de Deus. Mas os prodígios demoníacos são feitos para nosso mal e para prestigiar o Diabo, desviando-nos da salvação. Deste modo, o sinal não se mostra ambíguo: todas as vezes que o fato extraordinário ocorre para maior glória de Deus, trata-se de um milagre em sentido próprio. Toda vez que favorece alguém, em seus interesses egoísticos, ou promove o mal ou o afastamento da fé, não vem de Deus.

  1. Concluindo.

Em nossa época, multiplicam-se os fatos extraordinários ocorridos a pretexto de religião: não somente os pregadores de ponta de esquina que oferecem milagres a troco de arrecadação financeira e proselitismo, mas fenômenos como falsas aparições de Nossa Senhora também têm ocorrido. Confiemos no Magistério da Igreja para o discernimento.