1. Retomando.

É muito frequente que o ser humano se espante com aquilo que é miraculoso, extraordinário, prodigioso ou fantástico. Apesar dos grandes avanços científicos – e desconsiderando o fato de que a maior parte da ciência contemporânea é tão fantástica para nossas mentes quanto a magia e a feitiçaria eram para nossos antepassados – muito daquilo que é extraordinário e causa espanto ainda é associado ao religioso, à crença, ao universo da fé. Mas isto não deve acontecer. Não são os milagres, os prodígios, que devem nos conduzir a Deus (embora, é claro, Deus realiza prodígios em nossas vidas todos os dias). Portanto, parece evidente que os demônios podem usar desses prodígios para nos afastar de Deus.

Mas ainda não chegamos nesse ponto do debate. Por enquanto, temos a hipótese de que os demônios não podem realizar milagres, e portanto devemos crer que tudo aquilo que está no reino do miraculoso deve ser tributado a Deus. Vimos os argumentos objetores que tentam confirmar essa tese, mas vimos também um argumento contrário a ela, que nos mostra que o Diabo pode usar de prodígios para nos afastar de Deus, e portanto devemos ter muito cuidado com eles.

Veremos agora a resposta sintetizadora de Tomás quanto a este assunto.

  1. A resposta de Tomás.

Mais uma vez, diz Tomás, nos deparamos aqui com uma ambiguidade nos termos do debate. De fato, apenas Deus não está sujeito às regras e limites da natureza criada, então apenas Deus pode fazer milagres de verdade. De fato, a noção de milagre em sentido próprio significa aquele acontecimento que vai contra toda a ordem da natureza, ou seja, ocorre para além de todos os poderes das coisas criadas. O grande exemplo, aqui, é a ressurreição de Jesus: não está na ordem criada que um ser humano possa voltar à vida depois de ter sido brutalmente assassinado. Somente Deus poderia realizar a ressurreição – ela é um milagre em sentido próprio

Mas, algumas vezes, chamamos de milagre aquilo que excede a nossa capacidade humana de compreensão ou nos parece inexplicável pela ciência, embora não seja, no fundo, um fato que desconsidera ou quebra a ordem da natureza. Por exemplo, alguém pode se curar, de maneira inesperada, de uma enfermidade tida por incurável pelo estágio atual da ciência, por apresentar uma capacidade de regeneração biológica que nós não esperávamos, de tal modo que alguém pode chamar essa cura de “miraculosa”. Alguém pode, por exemplo, começar a ter um inexplicável sucesso financeiro ou artístico com alguma atividade que, normalmente, não levaria a um resultado desse tipo, de tal modo que o sucesso seja declarado como “miraculoso” pelos críticos e analistas, ou então pode aparecer algum fenômeno físico na atmosfera que venha a lembrar a silhueta de um crucifixo ou de um anjo, de modo a ser declarado como “miraculoso” por populares. Até mesmo algumas realizações humanas podem ser confundidas com milagres por pessoas mais simples: é assim que, por exemplo, alguém muito simples, que vive num lugar remoto e isolado, pode se espantar ao ver uma televisão ou uma projeção cinematográfica, ou ao andar num carro muito moderno e veloz. Isto tudo parecerá miraculoso a ele. 

Ora, sabemos que os demônios, que são espíritos criados como anjos e, portanto, inteligências agudíssimas e com muitos poderes sobre a matéria, conhecem muito mais as estruturas do universo criado do que nós, e são capazes de realizar prodígios que, do ponto de vista humano, parecem realmente miraculosos, e são quase sempre tomados por nós como milagres. 

Mas nem as realizações da alta tecnologia, nem os acontecimentos naturais ainda inexplicáveis para a ciência, nem a intervenção dos anjos e demônios sobre o mundo natural são verdadeiramente milagres em sentido próprio. Mas não são simples ilusões ou truques baratos de mágica: são acontecimentos verdadeiros que deveriam nos revelar que os limites da criação são muito mais largos do que imagina nosso orgulho intelectual. 

Portanto, diante de acontecimentos, fatos ou feitos que nos parecem milagrosos, devemos adotar uma atitude de muita prudência: não podemos, por um lado, descartar a possibilidade de que o próprio Deus esteja a intervir na natureza para realizar alguma coisa que supera ou desconsidera a ordem criada, como uma cura miraculosa ou uma proteção inexplicável. Mas não devemos nos deixar levar por qualquer acontecimento que não pode ser explicado pelos nossos conhecimentos, porque podem ser atuações prodigiosas de seres maus que querem nos tirar do caminho da salvação.

Não faltam exemplos bíblicos de acontecimentos assim. 

De fato, vê-se que, na Bíblia, há relatos de acontecimentos reais causados por atuações demoníacas, como o surgimento de rãs e serpentes entre os magos do Egito (Êxodo 7, 13 e Êxodo 8, 3); trata-se de rãs e serpentes reais, não de alguma ilusão barata. De modo semelhante, os filhos e servos de Jó foram consumidos por turbilhões de fogo caído do céu, resultado da atuação de Satanás (Jó 1, 16). Em todos estes casos, os demônios usaram elementos preexistentes da natureza para, por meios desconhecidos à ciência humana, realizar prodígios verdadeiros – milagres em sentido impróprio –  com coisas reais. 

  1. Encerrando.

Os sinais e prodígios que nos assombram são de natureza dúbia; a partir do nosso ponto de vista humano, podem ser verdadeiros atestados da ação de Deus ou podem ser atuaçoes demoníacas. Somente com o discernimento do Espírito Santo, e com a assistência do Magistério da Igreja e de todas as ciências humanas, podemos entender qual a sua origem.

Veremos mais sobre isto no próximo texto, no qual examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.