1. Retomando para encerrar.

Nem sempre o nosso pecado decorre de alguma tentação diabólica. Somos capazes de escolher o pecado sem que haja tentação atual, devido ao fato de que temos livre arbítrio. A causa próxima do pecado é a vontade livre; a tentação atual é causa próxima ou direta também, mas não está presente sempre, nem é condição necessária para que pequemos.

Não há paralelo, aqui, entre a iluminação que o anjos da guarda nos dá e a graça que recebemos para fazer o bem – que são condições necessárias para a prática do bem – e o mal que podemos fazer sozinhos, mas para cuja prática os demônios sempre querem nos levar.

Vimos, nos textos anteriores, o início desta discussão, com a hipótese inicial e a resposta sintetizadora de Tomás. Agora, de posse destes fundamentos, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, para aprender com Tomás quais são as suas respostas.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita o Pseudo-Dionísio e São João Damasceno, duas autoridades incontestáveis em matéria de anjos e demônios, para afirmar que o conjunto dos demônios é a origem de todos os males, deles próprios e dos outros, de tal modo que toda maldade e toda sujeira partem das elucubrações do Diabo. Deste modo, o argumento conclui apressadamente que todos os pecados têm causa direta nas tentações demoníacas.

A resposta de Tomás.

Tomás considera que este argumento já foi suficientemente respondido pela sua resposta sintetizadora, que examinamos no último texto, e na qual ele nos ensina que a multidão dos demônios são causa remota de todo o mal moral da humanidade, pela sedução que o Diabo exerceu sobre nossos primeiros pais, e causa próxima de grande parte dos nossos pecados atuais; mas isto não exclui a responsabilidade da vontade humana nem o fato de que somos capazes de, eventualmente, pecar sozinhos, sem influência das tentações dos demônios.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que, segundo as Escrituras, aqueles que pecam têm o Diabo como pai (João 8, 44). Ora, isto só pode ser porque é o Diabo quem insinua o pecado aos seres humanos que ofendem a Deus, e que estão, portanto, assemelhando-se a ele como os membros de uma família se assemelham ao respectivo pai. Assim, diz o argumento, todo pecado decorre de alguma tentação demoníaca, como sua causa direta.

A resposta de Tomás.

Quando o ser humano peca, ele se assemelha ao Diabo, que foi o primeiro pecador e é o pai de todo pecado. Mas não é preciso que o pecado tenha sido cometido sob tentação demoníaca. Mesmo os pecados espontaneamente cometidos pelo ser humano, independentemente de tentação demoníaca,  fazem-no semelhante ao Diabo, e por isso permitem que se diga que todo pecador é, de certo modo, filho do Diabo. Eis a importância da vida sacramental que nos devolve a condição de filhos de Deus.

O terceiro argumento objetor

Os anjos recebem de Deus a missão de nos guardar; os demônios são enviados pelo Diabo para nos tentar e nos provar, e recebem a permissão de Deus para fazê-lo. Portanto, se todo bem que fazemos tem origem, de algum modo, na sugestão e na iluminação do anjo da guarda sobre nós, então, de modo análogo, todo mal que cometemos deve ter origem na tentação que os demônios realizam em nós, conclui imprudentemente o argumento. 

A resposta de Tomás

Para fazer o mal, não precisamos de ajuda; podemos realizar o mal sozinhos, porque somos perfeitamente capazes de pecar com nossas próprias forças. É claro que os demônios estão aí para nos ajudar nessas ocasiões, e, na maior parte das vezes, são a fonte das más ideias e das sugestões perversas em nossos corações. 

Mas, por outro lado, para fazer o bem, de modo a obter méritos sobrenaturais perante Deus, sempre precisamos da orientação dos anjos e do auxílio da graça. Não somos capazes de fazer, por nós mesmos, atos sobrenaturalmente meritórios, isto está além da nossa capacidade natural e depende tanto da iluminação do anjo da guarda quanto da assistência da graça.

Portanto, não há analogia entre a nossa capacidade de pecar, por um lado, e a nossa capacidade de praticar o bem, por outro. Logo, o paralelo que o argumento faz entre a atuação do anjo da guarda e dos demônios que nos tentam é equivocada, conclui Tomás.

  1. Concluindo.

Como é intensa a atuação dos anjos em nossas vidas. Quantas inspirações boas que recebemos a cada momento, e quantos pensamentos malignos que nos surgem a cada instante, e que não têm origem em nós mesmos. Isto é algo que Tomás pode nos ensinar, e que precisamos perceber ainda hoje. Não é à toa que o Papa francisco insiste tanto na necessidade do discernimento das inspirações, ou dos espíritos, e dedicou inclusive uma série de catequeses sobre esse tema recentemente.