1. Retomando.

É muito fácil atribuir a nós mesmos o bem que fazemos; mas isto não seria verdadeiro. De fato, podemos participar do bem, e podemos até fazer coisas boas naturalmente, como plantar uma árvore ou escrever um livro divertido. Mas não é deste bem que estamos falando, mas daquele bem que permanece, que importa, que transforma. Este tipo de bem só podemos fazer quando estamos abertos ao nosso anjo da guarda e à graça de Deus que nos capacita. 

Vimos, no texto anterior, a hipótese provocadora de que todos os pecados humanos procederiam de alguma tentação demoníaca, e vimos os argumentos que tentam provar que, cada vez que pecamos, há alguma provocação ou iniciativa do Diabo a nos provocar e seduzir. Mas vimos também o argumento contrário a esta hipótese, que, seguindo um velho manual de dogmática católica, lembra que nem todas as nossas deliberações más decorrem de tentações demoníacas, mas algumas resultam de iniciativa da nossa própria capacidade volitiva; somos perfeitamente capazes de eleger o mal sozinhos, diz o argumento.

postos assim os termos do nosso debate, examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele nos apontará os elementos adequados para a compreensão do tema.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás inicia sua resposta com uma distinção interessante, que ainda é usada no pensamento jurídico do nosso tempo, entre as causas próximas e as causas remotas de alguma coisa, ou de algum evento.

De fato, a causa próxima é aquilo que explica a coisa ou desencadeia o evento imediatamente, de modo direto. Mas há sempre aquelas causas que predispõem a coisa ou o evento a surgir, e que são causas indiretas, ou remotas, deles. Assim, por exemplo, segundo o próprio Tomás, a causa remota de que a madeira entre em combustão é que se trata de madeira seca e pronta para arder, e a causa direta  ou próxima é a fagulha que iniciou a combustão. 

 Usando esta distinção, podemos dizer que o Diabo é, na verdade, a causa remota ou indireta de todos os nossos pecados, porque, ao instigar nossos primeiros pais ao pecado, causou a inimizade do ser humano com Deus que é a origem de todos os pecados atuais. É justamente neste sentido que o Pseudo-Dionísio, e outros grandes teólogos do passado, apontavam o Diabo como causa da qual procedem todos os pecados – como é o caso da citação aduzida no primeiro argumento objetor, que vimos no texto anterior. De fato, todos os pecados do ser humano têm sua raiz no pecado original, e este foi instigado pelo Diabo. Neste sentido, todos os pecados humanos procedem do Diabo, como causa remota ou indireta.

A causa direta do pecado é a vontade humana; a questão é saber, portanto, se, a cada vez que a vontade humana escolhe pecar, ela está sendo atualmente instigada por uma tentação efetiva e presente dos demônios. E a resposta de Tomás é não. É certo que, na maioria das vezes em que pecamos, os demônios nos incentivam, nos tentam positivamente e nos inclinam para o mal. Mas é a vontade humana, seu livre arbítrio, que, em última instância, escolhe o pecado. Há, é certo, quase sempre uma atuação pessoal e atual do demônio nessa escolha humana, mas ele nunca substitui, aqui, a ação da vontade humana. 

De fato, como nos ensina Orígenes, independentemente da ação demoníaca o ser humano tem desejos e necessidades, e até mesmo se o Diabo não existisse nós, humanos, teríamos a necessidade de ponderar essas inclinações com a razão, para fazer boas escolhas: desenvolver a virtude da prudência. Deste modo, mesmo sem a influência do Diabo haveria sempre a possibilidade da escolha imprudente que leva ao pecado. Mas o fato é que, além dessa possibilidade, há a atuação invisível e poderosa desses seres espirituais maléficos nos incitando ao mal. Mas somos perfeitamente capazes de pecar sozinhos, independentemente dessa influência. E mesmo essa influência não retira nosso livre arbítrio e, portanto, nossa responsabilidade pessoal pelo pecado.

E quanto àqueles pecados que cometemos por instigação demoníaca, Tomás nos ensina, citando São Isidro, que a instigação do demônio sobre nós, hoje, não é diferente da que ele exerceu sobre nossos primeiros pais, e que os levou ao pecado: a mesma malícia sutil que, no entanto, não apaga nossa responsabilidade, quando caímos nos seus efeitos.

  1. Encerrando.

O bem pertence a Deus e somente com relação a ele pode ser alcançado. 

Mas não se poderia dizer a mesma coisa do mal. Podemos perfeitamente fazer o mal sozinhos. Embora tentar seja atividade própria do Diabo, fazer o mal é responsabilidade nossa. Embora, normalmente, o mal que fazemos seja uma resposta à atividade de tentação que os demônios exercem sobre nós. Trata-se, aqui, de discernimento, tal como nos aconselha São João em sua Primeira Carta de São João, capítulo 4, versículos de 1 a 6.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.