1. Introdução.

Há uma velha anedota que se conta assim: um certo dia, alguém passava pela praça em frente a uma igreja na qual o pregador falava muito alto e com muita veemência; notando que havia alguém cabisbaixo e choroso na praça, o passante se aproxima dele. Percebe que aquele ser choroso e cabisbaixo é o próprio Diabo. O passante, então, pergunta ao Diabo:

  • Ora, Satanás, porque estás triste e abatido?

Ao que o Diabo responde: 

  • É que eles pecam e depois colocam a culpa toda em mim…  

Esta pequena anedota traz um problema teológico que precisamos discutir agora: será que o Diabo é, de fato, o responsável por todos os nossos pecados, ou, ao menos, a causa remota que está por trás de todos os pecados que cometemos? Qual o limite da responsabilidade do Diabo pelas nossas más escolhas? Podemos pecar, podemos nos inclinar para o mal, sem que isso seja precedido por uma tentação demoníaca? Ou será que, cada vez que pecamos, somos primeiro tentados pelo demônio?

É um tema interessante; vamos debatê-lo agora.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, que deve provocar o debate e nos fazer aprofundar nosso conhecimento, propõe que todos os pecados humanos procedem da tentação demoníaca. A proposta é a de que poderíamos ter certeza infalível, cada vez que pecamos, de que o Diabo se dirigiu a nós, nos tentou e nos seduziu ao pecado, e que, no fundo, todo pecado tem como causa remota uma tentação demoníaca. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que o próprio Pseudo-Dionísio, reconhecida autoridade em matéria de anjos e demônios, ensina que as hostes demoníacas são a causa de todos os males, tanto os males deles próprios, quanto os nossos males humanos, ou seja, todos os pecados têm sua causa na tentação dos demônios, conclui apressadamente o argumento.  

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que Jesus, em certa discussão que teve com pessoas que rejeitavam seu ensinamento, declarou: “vós tendes por pai o Diabo” (João 8, 44). Ora, prossegue o argumento, isto só pode significar que todo o pecado daqueles que rejeitam a Deus em suas ações tem origem no Diabo, que é como o pai do pecado. Logo, todo pecado que praticamos tem origem na tentação demoníaca, conclui apressadamente o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Como os anjos são enviados por Deus para a missão de guardar os seres humanos, também os demônios nos são designados pelo Diabo para a missão de nos tentar, diz o argumento. Ora, todo o bem que fazemos procede das boas influências dos anjos da guarda sobre nós, que nos orientam a acolher a graça de Deus e fazer o bem, iluminando-nos a isto. Logo, de modo paralelo, todo o mal que fazemos decorre da má influência dos demônios, que nos tentam ao pecado, conclui o argumento com aparente lógica.  

  1. O argumento sed contra.

Na obra antiga cujo nome é Dos Dogmas Eclesiásticos, sempre muito respeitada como reta na fé, se ensina que “nem todas as nossas más inspirações surgem da influência demoníaca; às vezes somos inclinados a pecar por causa dos desvios do nosso próprio arbítrio”. Logo, nem toda vez que pecamos estamos sob tentação demoníaca, conclui este argumento contrário à hipótese inicial, provocando-nos a refletir mais sobre ela.

  1. Encerrando por enquanto.

Há, de fato, responsabilidade do Diabo por todos os nossos pecados? Sempre que pecamos estamos seguindo suas tentações e obedecendo às suas influências? Será que o mal moral é uma espécie de monopólio dos demônios, do qual participamos apenas como marionetes?

São perguntas interessantes, que serão aprofundadas em nossos próximos textos.