- Retomando.
A tentação está presente em nossa vida – não apenas como exposição impessoal e objetiva a situações tentadoras, mas, muitas vezes, com a complexidade dos ardis criados inteligentemente, capazes de nos derrubar. Nisto os antigos puderam identificar a atuação sutil e inteligente de seres espirituais capazes de colocar provas em nossa vida, testar-nos, visando derrubar-nos do caminho de Deus. É este o debate aqui: será que os demônios de fato nos tentam, quer dizer, preparam armadilhas para nos testar, para que caiamos? Será esta a marca de sua atividade relativamente a nós?
A hipótese inicial, no texto anterior, era a de que esta não é a atividade dos demônios, e vimos os três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese. Vimos também o argumento sed contra, que traz uma citação bíblica (1 Tessalonicenses 3, 5, trecho no qual o Diabo é chamado de tentador), que mostra que não se pode simplesmente aceitar a hipótese inicial.
Estudaremos, agora, as respostas de Tomás a todos estes questionamentos.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
O que significa “tentar”, no sentido de provocar tentações? Em seu sentido próprio, “tentar” significa provar, testar, experimentar alguma coisa ou alguém. Ou seja, tentar é, propriamente, testar alguma coisa ou alguém, com o objetivo de descobrir alguma coisa, quanto a ela.
Mas este processo pode parar simplesmente na dimensão de adquirir conhecimento sobre alguém ou alguma coisa. Mas pode prosseguir, no sentido de: 1) levar aquele que é objeto do conhecimento a progredir ou a cair, vale dizer, a desenvolver suas virtudes e autoconhecimento, por um lado, ou 2) a enganá-lo, prejudicá-lo e fazer pecar, de outro.
Assim, podemos ver que a noção de prova, de teste ou de descoberta relacionada com a noção de tentação pode envolver diferentes propósitos, conforme: 1) aquele que está tentando ou 2) aquele que está sendo tentado.
Por isso, um ser humano pode tentar alguém para pô-lo à prova, para tentar descobrir suas fraquezas ou para fazê-lo reagir como se quer (controlar). É neste sentido que a Bíblia registra as próprias palavras de Jesus: “não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4, 7). Também há situações em que alguém põe outro à prova para prejudicá-lo ou para fazê-lo cair, como no caso de alguém que oferece bebida alcoólica a alguém que está lutando para superar o alcoolismo, ou mesmo tenta seduzir sexualmente alguém com pouco discernimento colocado sob sua responsabilidade. Mas há situações em que um ser humano põe outro à prova, quer para educá-lo, quer para testá-lo para alguma função ou missão. Neste caso, não há nenhum pecado nisso, mas justamente o contrário.
Mas o Diabo sempre nos tenta para nos prejudicar, fazendo os seres humanos caírem no pecado. Este é o modo ordinário pelo qual o Diabo e seus demônios se relacionam conosco: tentando-nos para nos desviar de Deus. É neste sentido que se diz que a tentação é o trabalho ordinário do Diabo, e que, mesmo quando um ser humano tenta outro para o mal, ele está, na verdade, agindo como um serviçal do diabo.
É certo que a Bíblia às vezes menciona que Deus nos põe à prova, nos testa; não faria sentido, porém, dizer que Deus o faz porque nos quer conhecer melhor; ele já nos conhece profundamente, porque Deus é onisciente. Em que sentido, então, se pode dizer que Deus nos tenta?
Na verdade, diz Tomás, Deus nos prova e nos testa não para descobrir algo novo sobre nós: ele já sabe tudo sobre nós. Ele nos testa, então, para que nossas virtudes se desenvolvam e se tornem manifestas para nós e para os outros!
É este o teor de Deuteronômio 13, 3, por exemplo: “porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para ver se o amais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.” É claro que Deus já sabe isto, mas ele quer que nós nos conheçamos melhor e desenvolvamos nossas virtudes aos nossos próprios olhos e aos olhos do mundo.
E quanto às concupiscências ordinárias, ou seja, a concupiscência dos olhos, da carne e a soberba da alma, mencionados em 1 João 2, 16, elas são os instrumentos, a matéria colocada nas mãos dos demônios para nos tentar. De fato, esta tríplice concupiscência pode servir para desenvolver as virtudes de um ser humano, como também para, sob os ardis do demônio, levá-lo à perdição.
- As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor inicial, como lembramos, quer comprovar que tentar não é uma atividade própria do Diabo porque, segundo as próprias Escrituras, Deus tentou Abraão (Gn 22, 1). Mas Tomás nem se dá ao trabalho de responder especificamente a este argumento; ele considera que a resposta sintetizadora já deixou a resposta clara: Deus nos põe à prova, como também pomos à prova os nossos irmãos, no sentido de que buscamos conhecê-los e aperfeiçoá-los no caminho da vida. Mas os demônios nos provam no sentido próprio, que é o de lançar tentações para nos perder a alma.
O segundo argumento diz que o Diabo já conhece o ser humano de antemão, já sabe quais os defeitos e as fraquezas que o ser humano tem. Assim, ele não precisa nos provar, nos tentar, para nos descobrir. Mas Tomás responde dizendo que conhecer o ser humano em geral, saber quais são os limites da natureza humana, isto não é a mesma coisa que conhecer o interior dos corações, o limite e as fraquezas que se escondem na intimidade de uma pessoa; isto somente Deus sabe. Assim, o Diabo nos tenta para evidenciar e explorar nossas fraquezas individuais, conhecê-las e usá-las para a nossa perdição.
Por fim, o terceiro argumento objetor lembra que os demônios não podem controlar nossa vontade, que é um dom espiritual, e portanto é livre. Logo, se o objetivo deles é nos fazer pecar, não teria sentido usar de tentações, porque elas não podem determinar a nossa vontade. Logo, conclui o argumento de modo leviano, os demônios não nos tentam.Como resposta, Tomás vai nos lembrar que as tentações do demônio não podem determinar nossa vontade, mas pode nos influenciar a pecar, pelo estímulo a nossas sensações, emoções e paixões, que estão ao alcance dos demônios e podem influenciar nossas decisões, levando a más escolhas da vontade que são pecaminosas. Assim, a tentação dos demônios não nos determinam ao pecado, mas nos influenciam. Veremos mais sobre isto no próximo artigo, que trata justamente da relação entre as tentações dos demônios e os nossos pecados pessoais.
Deixe um comentário