- Introdução.
A nossa era tem é certo, dificuldades com a figura do Diabo; quer por considerá-la como uma figura mitológica de personificação imaginária do mal impessoal, quer por, ao contrário, pintá-lo como um “antideus”, um deus do mal, adversário de Deus que possuiria a mesma natureza divina. Quer, ainda, por considerá-lo como uma espécie de “rebelde libertário e revolucionário” de resistência à figura pretensamente autoritária de Deus, quer ainda por considerá-lo, às vezes, como único responsável por tudo de mal que ocorre com os seres humanos. Nenhuma dessas imagens é verdadeira, mas todas nos impedem de descobrir, de fato, o que ele é e o que faz. O que ele é, já estudamos em outros debates. Agora, interessa-nos saber o que ele faz; isto é, qual é o seu papel no governo do mundo – governo que, como sabemos, está, em última instância, nas mãos de Deus e de mais ninguém.
Neste artigo estudaremos a atividade e o papel do Diabo no governo do mundo. Será que seu papel tem relação com as tentações que sentimos cotidianamente? Será que o Diabo nos tenta? Será que todas as tentações vêm do Diabo? É o que começaremos a debater agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, para iniciar e provocar o debate, quer nos propor que a tentação não é algo próprio do Diabo, isto é, que a atividade própria do Diabo no governo do mundo, com relação a nós, não é a de nos tentar. Há três argumentos iniciais que vão tentar comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento quer provar que a tentação não é algo próprio do Diabo a partir de uma citação bíblica. De fato, o Livro do Gênesis (22, 1) diz que “Deus pôs Abraão à prova”, tentando-o com o desafio de sacrificar seu próprio filho. Além disso, sabemos que o ser humano sofre tentações advindas do mundo e de sua própria carne, e sabemos que a Bíblia menciona a possibilidade de que o ser humano venha a tentar o Senhor seu Deus (Mt 4, 7, citando Dt 6, 16). portanto, tentar não é algo próprio do Diabo.
O segundo argumento objetor.
A prova, a experimentação, é própria da tentação, porque quem tenta outro, faz isso para saber alguma coisa a respeito do outro, para experimentá-lo. Ora, os demônios, como seres espiritualmente poderosíssimos, sabem sobre o ser humano, conhecem-nos profundamente e são muito astutos quanto à nossa natureza e à condição humana, sendo certo que não precisam aprender coisas novas sobre nós. Portanto, não há sentido em imaginar que os demônios têm a tentação como atividade própria, conclui imprudentemente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A tentação é um método que induz ao pecado. Ora, o pecado mora na vontade humana. Mas a vontade, como atributo espiritual do ser humano, não está sujeita ao domínio dos demônios, porque o ser humano tem seu próprio livre-arbítrio. Logo, os demônios não têm, como atividade própria, aquela de nos tentar, conclui apressadamente o argumento.
- O argumento sed contra.
Como já sabemos, cada artigo da Suma traz uma hipótese polêmica, para provocar o debate, e alguns argumentos que tentam comprová-la; em seguida, traz um argumento contrário que impede que a aceitemos simplesmente; por fim, apresenta uma resposta que compila a verdade no debate inicial e enfrenta os argumentos iniciais a partir dos princípios assim estabelecidos, segundo o esquema dialético de tese, antítese e síntese.
O argumento antitético (sempre chamado de sed contra) é retirado, aqui da Primeira Carta aos Tessalonicenses (3, 5): “por temor de que o Tentador vos tivesse tentado”, o que a Glosa medieval ao texto explicava dizendo: “isto é, o Diabo, cujo ofício é tentar”. logo, as Escrituras comprovam que a atividade própria do Diabo é tentar, conclui o argumento.
- Encerrando.
Tentar, experimentar, provar; é certo que se pode fazer estas coisas visando conhecer melhor alguém ou alguma coisa, e, no fundo, é isto que os cientistas fazem. Ou seja, eis aqui um artigo de crucial importância para o desenvolvimento da ciência moderna. Se a experimentação, a prova e a tentação forem consideradas como atividades sinônimas, e como coisas próprias do demônio, todo conhecimento científico será condenado como algo demoníaco, e não foram poucos os que chegaram a essa conclusão, partindo exatamente dos pressupostos que foram colocados aqui. Mas este não é o caso de Tomás, que está longe de ser um obscurantista – ao contrário, é um pensador, um professor, um pesquisador. E sabemos o quão fundamental foi o pensamento de Tomás para o desenvolvimento das ciências no mundo cristão.
estudaremos mais sobre isto no próximo texto.
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