1. Retomando para encerrar.

Não há paralelismo entre Deus e o Diabo, dizíamos no último texto. Deus mantém o comando da Sua criação, mesmo considerando que o Diabo, de fato, é uma criatura poderosíssima – é, no entanto, apenas uma criatura. Deus a criou livre – e Deus quer, positivamente, a liberdade de suas criaturas inteligentes. Não poderia ser de outra maneira num universo regido pelo amor, já que o amor não pode ser imposto nem exigido, mas apenas esperado. E o Diabo recusou-se a entrar no amor. 

O plano de Deus leva em conta a liberdade das criaturas – inclusive daquelas rebeldes – mas não está determinado por elas, muito ao contrário. A liberdade de Deus não concorre com a liberdade das criaturas, até porque a liberdade das criaturas somente se realiza em Deus. Vale dizer, a vontade de Deus sempre prevalecerá, sem que, com isso, haja uma violação à liberdade das criaturas. A liberdade de Deus não concorre, mas realiza, a liberdade das criaturas. este modo, todo o mal que os espíritos rebeldes podem realizar devem contar, por um lado, com a permissão divina e, por outro, não significam que seus executores estão imunes ao poder de Deus. O Reino de Deus não conhece limites externos. 

Mas essas discussões profundas não apagam o fato de que há demônios atentos a nós, encarregados de nos assolar pessoalmente e que, efetivamente, nos atacam com seu poder espiritual. Não somos mais poderosos que eles, nem podemos resistir a seus ataques, senão na graça e na proteção de Deus e dos anjos da guarda. Grande lição de humildade. 

Com estas coisas em mente, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que queriam comprovar, de modo imprudente e apressado, que não existem ataques dos demônios a nós. Vamos ao debate.

  1. Os argumentos objetores e as respectivas respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Os nossos anjos da guarda são enviados por Deus, recebem dele a missão de nos proteger à sua ordem e para nos encaminhar à salvação. Ora, Deus não dá missões a demônios, mesmo porque Deus quer que todos os seres humanos se salvem (1Tim 2, 4), e os demônios, ao contrário disso, querem que nos percamos de Deus. Logo, não existem demônios cuja missão seja atacar os seres humanos, conclui imprudentemente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há duas maneiras pelas quais os demônios recebem a permissão para atacar os seres humanos, diz Tomás. São elas:

  1. Para tentar e instigar ao pecado; neste caso, há permissão de Deus, mas essa permissão é, digamos assim, passiva, quer dizer, não corresponde a uma iniciativa de Deus para a justiça ou para a punição de alguém. Poderíamos citar como exemplo, aqui, o demônio que foi enviado contra São Paulo como espinho na carne (2 Coríntios 12, 7), e que, afinal, colaborou para que Paulo desenvolvesse a humildade e a confiança na graça de Deus.
  2. Para restabelecer a justiça e punir os maus, e neste caso a permissão pode ter a iniciativa de Deus mesmo. O exemplo, aqui, seria o episódio de 1 Reis 22, 22, em que um espírito se apresenta para ser “espírito de mentira” que seduz Acab a receber o justo castigo divino. Neste caso, o castigo tem origem na própria justiça divina, e é executado por um “espírito de mentira”; mas é claro que a intenção do demônio é completamente diversa da intenção justíssima de Deus: Deus permite por causa da justa punição, o demônio executa a permissão por causa de sua própria maldade – sendo, no entanto, instrumento da justiça amorosa de Deus, malgrado seu. 

Em qualquer caso, portanto, Deus não é a origem da maldade do ataque dos demônios aos seres humanos, conclui Tomás.

O segundo argumento objetor.

Deus não pode permitir aquilo que é intrinsecamente injusto. Ora, não haveria justiça num ataque de uma criatura poderosíssima, ardilosa e sutil, contra um ser humano, fraco existencialmente e limitadíssimo intelectualmente. Logo, Deus, que é o autor de toda justiça, não permitiria a existência de demônios encarregados de atacar pessoalmente os seres humanos, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

É claro que não há igualdade de condições na luta direta entre um ser humano, pequeno fiapo de matéria dotado de um intelecto limitadíssimo, por um lado, e um espírito maligno, por outro. É por isso que o ser humano dispõe, para essa luta, de auxílios imprescindíveis, que tornam a luta possível de vitória: o auxílio da graça divina que nos protege espiritualmente com a couraça do amor, por um lado, e o auxílio concreto do anjo da guarda, que nos protege inclusive fisicamente. É claro que há seres humanos que rejeitam positivamente esse auxílio, usando do seu livre arbítrio para se encaminhar deliberadamente à perdição; mas essa rejeição não desmente o fato de que o auxílio está disponível e é operante para cada um de nós.

O auxílio que nos é disponibilizado torna, segundo as Escrituras, não somente a luta justa, mas até mesmo a vitória mais fácil, já que, segundo 2 Reis 6, 16, não devemos temer o ataque dos demônios, porque “os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles”.

O terceiro argumento objetor.

É certo que as provações, nesta vida, são inevitáveis, e nos encaminham ao crescimento e ao amadurecimento espiritual. E para isto bastam a concupiscência dos olhos, a concupiscência da carne e a arrogância da alma, como nos ensina a Primeira Carta de João 2, 16. Estas três dimensões de provação nos atacam, com permissão de Deus, para nos exercitar nas virtudes e nos fazer crescer. Portanto, não é necessário presumir que haja demônios encarregados de nos provar, porque já há provação suficiente para nós, independentemente deles. Portanto, os demônios não são encarregados de nos atacar pessoalmente, conclui imprudentemente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que essas chamadas “três dimensões da concupiscência” seriam e são suficientes para provar os seres humanos e desenvolver neles as virtudes e o amor a Deus.  Somos tão miseravelmente fracos que caímos a todo momento, independentemente de ataques demoníacos, de tal modo que os demônios estão longe de ser os únicos responsáveis pelas quedas dos seres humanos. Mas este fato não retira a realidade de que os demônios existem, são perversos e são capazes de nos assolar, valendo-se inclusive de modo ativo da tríplice concupiscência para nos provar. O fato, portanto, é que, embora sejamos capazes de cair sozinhos, ainda podemos sofrer o ataque dos demônios, gostemos ou não; eis porque é essencial estar sob a graça e contar com o anjo da guarda.

3. Concluindo.

Não há a possibilidade de salvar-se sozinho dos ataques do mal. A desvantagem é grande demais. Diante do fato de que os demônios existem, e que nos atacam, devemos buscar sempre a graça de Deus e a amizade do anjo da guarda, sem os quais estaremos, literalmente, perdidos.