1. Retomando.

No último texto, vimos a hipótese provocadora inicial, que quer nos chamar a debater este assunto, a nos propor que não existem demônios encarregados de nos atacar espiritualmente para nos afastar de Deus e nos levar à perdição

De fato, a questão é a de saber se há demônios pessoalmente encarregados de nos atacar, desencaminhando-nos do caminho para a salvação, assim como existem anjos da guarda para nos guiar. Vimos, então, os primeiros argumentos, que tentam comprovar essa tese de que não há demônios desencaminhadores – eles partem da ideia de que Deus não mandaria demônios para nos tentar, nem permitiria que eles o fizessem, já que o ser humano já tem, na própria concupiscência, a fome de pecado capaz de desviá-lo do céu. 

Mas vimos, por fim, o argumento objetor, que nos lembra da palavra de São Paulo na Carta aos Efésios: nossos verdadeiros inimigos, diz São Paulo em Efésios 6, 12, não são os seres de carne e osso, mas as forças espirituais do mal. Com isto, haveria fundamento bíblico para imaginar a existência de demônios pessoalmente encarregados de nos desencaminhar.

Com o debate neste ponto, é hora de examinar a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás, com seu costumeiro didatismo, vai nos explicar que este debate tem duas dimensões que devem ser bem delineadas: 

1. Por qual razão, por qual motivação, os demônios atacariam os seres humanos, ou seja, qual a causa do ataque em si?

2. De onde parte a ordem ou a permissão para que os demônios ataquem os seres humanos?

Respondendo a primeira pergunta, ou seja, para descobrir por qual motivo os demônios querem atacar os seres humanos, Tomás nos esclarece que as duas razões são, exatamente, os dois grandes e fundamentais pecados dos demônios: a inveja e o orgulho  ou soberba.

De fato, quando estudamos os demônios e debatemos quais pecados são próprios a eles (textos aqui e aqui) vimos que o orgulho (arrogância, soberba) e a inveja são, fundamentalmente, os dois pecados deles. Logo, é por inveja de Deus (e por inveja da imagem de Deus que aperfeiçoa e se manifesta nos seres humanos que caminham para a santidade) e pela arrogância de querer imitar, ainda que toscamente, as coisas de Deus (enviando-nos “demônios da guarda” para sabotar a missão dos nossos anjos da guarda enviados por Deus) que os demônios se movem para nos atacar e desencaminhar.

Quanto à segunda pergunta, ou seja, quanto a saber por ordem de quem os demônios nos atacam, sabemos que, segundo a Carta de São Tiago (1, 13), ninguém deve dizer, quando for tentado, “é Deus quem me tenta”. Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém. No entanto, Deus pode permitir que os demônios nos ataquem e nos tentem, tanto por punição quanto por prova, porque, como ensina  Santo Agostinho, citado no § 311 do Catecismo da Igreja Católica, “Deus todo-poderoso […] sendo soberanamente bom, nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem”.

Assim, Deus pode permitir que os demônios prossigam em seus intentos maléficos, para que daí resulte, por exemplo, a justiça contra os maus ou a conversão dos eleitos. Neste caso, o mal que os demônios realizam decorre da sua própria perversão, e não da permissão de Deus.

No caso do bem que os anjos da guarda nos fazem, e da iniciativa da sua missão, não há simplesmente uma permissão de Deus, mas a fonte mesma desse bem e dessa missão é a ordem de Deus e sua iniciativa, que os anjos, zelosamente, cumprem. 

Portanto, somos de fato atacados por demônios, que querem, por inveja e orgulho, a nossa perdição, e há a permissão divina para que isto ocorra. Mas o mal mesmo que os demônios fazem não vem de Deus, mas da sua própria perversão demoníaca. 

  1. Encerrando.

Não há paralelismo entre Deus e o Diabo. Deus comanda o universo, e mesmo o Diabo, ainda que a contragosto, está sujeito a esse governo. Ele é apenas uma criatura, mesmo que seja naturalmente muito mais poderoso do que qualquer ser humano. Assim, não devemos desanimar nem ceder perante os ataques demoníacos. Vale aqui o velho ditado popular: muito mais tem Deus para dar do que o Diabo pode tirar.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.