- Introdução.
Estudamos detalhadamente o papel dos anjos, e especialmente dos anjos da guarda, no governo do universo. Mas há uma outra realidade: a dos anjos decaídos, ou demônios, comandados pelo Diabo, líder da maldade. Criatura elevadíssima em seus poderes, mas, apesar de tudo, apenas uma criatura. Sabemos que o Diabo gosta de tentar imitar as coisas de Deus e que, na sua maldade e em seu egoísmo, quer conquistar mais seres humanos para a perdição. Será que, na sua torpe tentativa de emular as coisas de Deus, ele envia “demônios missionários” para nos atacar, de modo invertido àquele pelo qual Deus envia seu anjo para nos guardar? Temos demônios encarregados de assediar nossa vida espiritual, para nos encaminhar à perdição, de modo inverso àquele pelo qual os anjos da guarda nos regem para a salvação? É o que debateremos a partir de agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese provocadora inicial, que quer nos chamar a debater este assunto, propõe que não existem demônios encarregados de nos atacar espiritualmente para nos afastar de Deus e nos levar à perdição. Ou seja, não somos espiritualmente assediados e atacados por demônios, diz esta hipótese polêmica, para nos provocar. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese, e um argumento que se opõe a ela. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Deus governa o universo, de modo que nada acontece sem a sua vontade. Deus nos envia os Santos Anjos como missionários para nos guardar, nos reger e iluminar. Mas Deus não envia demônios para nos assediar, tentar e atacar porque o mal não tem sua origem em Deus e ele não faz pecar nem induz à perdição. Logo, não há demônios encarregados de atacar os seres humanos, conclui imprudentemente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Em comparação com os seres espirituais, como os anjos e os demônios, os seres humanos são fracos, cegos e desavisados, além de ignorantes das coisas espirituais. Ora, não há justiça num ataque de um ser poderoso contra um ser fraco, nem de um ser astuto contra um ser despreparado como os seres humanos. Em suma, não há proporção entre o poder de um demônio e o poder dos seres humanos. Mas Deus é justiça infinita, e não poderia concordar com a injustiça. Assim, Deus não poderia permitir que os demônios assolassem e atacassem os seres humanos, conclui apressadamente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Para provar os seres humanos, já temos a chamada “tríplice concupiscência”, quer dizer, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da alma, conforme a Primeira Carta de João, 2, 15-17. De fato, Deus permite que sejamos provados pela tríplice concupiscência, para desenvolver nossas virtudes e exercitar nossa fé. Não seria, pois, necessário sofrer, ainda, ataques demoníacos para esse mesmo fim. Logo, conclui levianamente o argumento, Deus não permite ataques demoníacos contra os seres humanos.
- O argumento sed contra.
Depois de lançar a hipótese provocadora inicial e os argumentos que tentam comprová-la, o artigo sempre nos apresenta um argumento contrário a ela (sed contra), para estabelecer o debate.
Neste artigo, o argumento sed contra é retirado da Bíblia. De fato, São Paulo, na Carta aos Efésios (6, 12) ensina que ”não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares”. Ora, há uma afirmação bíblica direta que nos ensina que há, sim, uma luta dos demônios contra nós, conclui o argumento.
- Encerrando.
Talvez não haja fato espiritual mais atestado na Bíblia, especialmente no Novo Testamento, e mais experimentado pelos santos no caminho para a salvação do que o assédio dos demônios para a provação das almas. Por isso este artigo é tão interessante: Tomás tem a coragem e o conhecimento para nos esclarecer sobre isto.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora.
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