- Retomando.
A hipótese controvertida, que estamos debatendo aqui, propõe que entre os anjos guardiões não pode haver luta nem discórdia, o que nos sinaliza, dizíamos no primeiro texto, que talvez possa haver, sim, alguma hipótese de discórdia entre eles – dado que as hipóteses iniciais sempre formulam o problema de um modo que será retificado, depois.
Vimos, no último texto, os três argumentos objetores iniciais que querem provar que existe, sempre e absolutamente, essa “concórdia incondicional” entre os anjos da guarda, e um argumento sed contra que sinaliza que as coisas podem não ser assim.
No final do último texto dizíamos que mesmo os Santos Anjos não são deuses. São criaturas. E mesmo na glória eles podem ter limites, não são oniscientes, podem precisar de um tempo para entender uma situação ou para discernir completamente a vontade de Deus – inclusive precisando de iluminação de algum espírito ainda mais elevado para chegar a penetrar nessa vontade. Deste modo, haveria indícios de que eles podem, eventualmente, discordar entre si – sem que isto signifique que eles possam aderir à mentira ou à injustiça. A discordância pode representar, simplesmente, que interesses opostos, eventualmente justos em si mesmos, ainda não alcançaram a ponderação ideal em algum caso concreto: pode-se estar em lados opostos numa mesa de negociação sem que nenhuma das partes esteja de má-fé ou seja injusta ou má.
Agora, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás, que nos esclarecerá que tipo de discórdia pode existir entre os Santos Anjos da Guarda.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
De fato, diz Tomás, todo este debate iniciou-se do fato de que, na Bíblia, parece haver situações em que as partes num conflito não estão deliberadamente no mal, mas simplesmente ainda não conseguiram chegar a um consenso. É exatamente este, diz Tomás, o caso da passagem de Daniel 10, 13, citada na primeira parte deste artigo (trecho no qual o Arcanjo Miguel declara: “o príncipe do reino da Pérsia opôs-se a mim durante vinte e um dias”.)
Quando comenta este versículo, o próprio São Jerônimo (profundo conhecedor das Escrituras) explica que, embora o profeta Daniel orasse pelo povo judeu, para que fosse libertado do expilio pelos persas, o pecado do povo judeu, talvez sob influências demoníacas, impedia que a oração, levada a Deus por Gabriel, fosse atendida. Deste modo, o anjo protetor do povo persa reteve a decisão de libertação do povo judeu, em desacordo com a oração de intercessão do Arcanjo Miguel.
Quanto à santidade desse anjo da Pérsia – que alguns poderiam defender que se tratava, na verdade, de um demônio – São Gregório, comentando a mesma passagem bíblica, nos assegura que, de fato, tratava-se do Santo Anjo da Guarda dos persas, e não de um demônio. Então parece haver evidência bíblica de discordância entre dois Santos Anjos, nesta passagem.
Na verdade, diz Tomás, os desígnios divinos particulares, relativamente aos povos e nações, são executados pelos anjos. Mas esses desígnios concretos encontram-se, na situação histórica, com os limites, escolhas e pecados dos próprios povos e nações e de seus governantes, de modo que dois povos podem entrar em conflito e eventualmente vir a dominar (ou a ser submetido) um ao outro.
Neste caso, que envolve a liberdade humana de atuação individual e coletiva na história, há muitos fatores que não são de conhecimento imediato dos anjos (que não possuem nem onisciência, nem a capacidade de ler o interior do coração dos seres humanos), o que pode implicar a eventual discordância e a busca, por parte deles, de maior penetração na vontade de Deus.
Neste caso, este processo de defrontar-se com o choque de interesses humanos conflitantes e de buscar penetrar mais profundamente na vontade de Deus pode levar a choques de posições entre os Santos Anjos, o que pode ser expresso, em termos humanos, como discordância; mas não se trata, neste caso, de conflito ou de afastamento quanto à vontade de Deus, mas simplesmente de um processo de composição e discernimento para que a vontade de Deus possa ser melhor compreendida e aplicada.
3. Os argumentos objetores e suas respostas.
Tomás considera que sua resposta sintetizadora já responde satisfatoriamente aos argumentos objetores iniciais. De fato, o primeiro argumento cita o Livro de Jó, 25, 2, que ensina que “Deus faz reinar a paz nos altos céus”, e disto conclui que não pode haver discórdia entre os anjos.
O segundo argumento lembra que no céu, entre os Santos Anjos, reina a perfeita hierarquia, justa em sua organização, porque respeita perfeitamente a ordem da natureza (as diferenças naturais entre os anjos) e a ordem da graça (a perfeição do amor entre eles). Numa organização assim não há espaço para desentendimentos e conflitos, porque existe perfeita harmonia. Logo, não haveria, segundo o argumento, possibilidade de desentendimento entre anjos da guarda. E por fim o terceiro argumento propõe que, em toda discórdia, sempre há um lado que está certo e outro que está errado; assim, se os anjos da guarda discordassem entre si quando seus protegidos entrassem em conflito, haveria um anjo do lado da justiça e outro do lado da injustiça, o que seria impensável, em se tratando de santos Anjos.
Mas a resposta sintetizadora, respondendo aos três argumentos objetores, mostra que há, na história humana, conflitos legítimos, cuja solução pode ser processual, e portanto pode implicar uma discordância legítima, embora sempre provisória, entre os Santos Anjos.
4. Concluindo.
Como dissemos, é possível discordar com caridade, e isto pode ocorrer até entre os anjos da guarda. O que nos mostra que, mesmo no céu, entre os santos, podem existir eventuais discordâncias, que cessam quando se discerne de modo mais profundo a vontade de Deus.
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