- Introdução.
A humanidade tem enfrentado conflitos e discórdias, desentendimentos e guerras, individuais e coletivas. Muitas vezes trata-se mesmo de povos irmãos, vizinhos, ambos até igualmente de tradição cristã, ou mesmo de desentendimentos na família ou na Igreja. Como ficam os anjos da guarda nestes casos? Será que se envolvem em conflitos também? Ficam eles do lado de seus protegidos, opondo-se aos outros Santos Anjos que guardam os adversários? Eis uma questão atualíssima, num tempo em que mesmo povos com a mesma confissão de fé às vezes entram em guerra. Como isto poderia acontecer, se os anjos da guarda vivem na unidade do céu?
É o que debateremos neste artigo.
- A hipótese controvertida inicial.
Normalmente, a hipótese controvertida inicial traz uma posição extremada que, como já sabemos, será afastada, total ou parcialmente, ao final do debate. Assim, normalmente já temos a ideia de que a hipótese inicial não está correta – e é um tanto surpreendente quando, em princípio, concordamos com ela ou entendemos que ela é tão correta que não vemos maneira de afastá-la, nem mesmo parcialmente. Da minha parte, eu acharia, logo de início, que não haveria possibilidade de que os santos Anjos pudessem discordar entre si, debater ou até mesmo lutar em razão das discordâncias de seus protegidos. Mas ocorre que a hipótese polêmica inicial – que, como sabemos de antemão, será afastada ou ao menos corrigida no final – propõe exatamente que entre os anjos guardiões não pode haver luta nem discórdia, o que nos sinaliza que talvez possa haver, sim, alguma hipótese de discórdia entre eles. Em todo caso, é um artigo interessantíssimo, porque colocará em dúvida aquilo que, numa primeira vista, não nos parece nada polêmico – a completa concordância entre os Santos Anjos e a paz permanente entre eles. Mas, aparentemente, as coisas não são tão simples no Reino dos Céus. De fato, há três argumentos objetores iniciais que querem demonstrar essa “concórdia incondicional” entre os anjos da guarda, e um argumento sed contra que sinaliza que as coisas podem não ser assim. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita o Livro de Jó, 25, 2b: “Ele faz reinar a paz no alto dos Céus”. Ora, isto parece se referir a Deus, que não permite discórdias no Reino dos Céus – no qual habitam para sempre os Santos Anjos da Guarda – mas apenas a concórdia e a harmonia. Logo, conclui apressadamente o argumento, a Bíblia atesta que não há discórdias entre os Santos Anjos.
O segundo argumento objetor.
Ali onde reina o perfeito amor e onde há uma hierarquia justa não pode haver conflito. Ora, entre os Santos anjos as coisas são exatamente assim: vivem na glória do perfeito amor de Deus e estão organizados numa hierarquia justa, que leva em conta as diferenças de natureza e de graça. Assim, diz o argumento numa resposta aparentemente lógica, não pode haver desentendimentos e discórdias entre os Santos Anjos da Guarda, conclui.
O terceiro argumento objetor.
Se admitirmos que os anjos entram em conflito entre si por causa de seus protegidos e das discordâncias entre eles, teríamos que admitir que um anjo toma o partido de um dos combatentes e o outro anjo toma o partido do outro. Mas, em todo combate, há sempre uma parte justa e uma parte injusta. Deste modo, a consequência seria admitir que um Santo Anjo poderia ficar do lado da injustiça, o que seria impensável. Assim, conclui o argumento de modo aparentemente correto, entre os Anjos não pode haver discórdia.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, surpreendentemente, aponta que existe evidência bíblica para apontar que os Santos Anjos podem, sim, entrar em discordância recíproca por causa de desavenças entre seus protegidos. De fato, diz este argumento, o Livro de Daniel (10, 13), falando a respeito do arcanjo Gabriel, faz este arcanjo afirmar: “o príncipe do reino da Pérsia opôs-se a mim durante vinte e um dias”. Ora, diz o argumento, está claro que o Arcanjo Gabriel não estava debatendo com o governante humano do reino da Pérsia, mas com o anjo protetor daquele reino, que resistiu ao apelo do Arcanjo durante esse tempo. Logo, diz o argumento, um santo Anjo pode resistir a outro, e portanto pode haver desavença entre eles, conclui.
5. Encerrando por enquanto.
Mesmo os Santos Anjos, que já vivem na glória dos Céus e possuem uma capacidade intelectual muito maior do que a humana, não são deuses. São criaturas. E mesmo na glória eles podem ter limites, não são oniscientes, podem precisar de um tempo para entender uma situação ou para discernir completamente a vontade de Deus – inclusive precisando de iluminação de algum espírito ainda mais elevado para chegar a penetrar nessa vontade.
No próximo texto examinaremos a resposta de Tomás a este tema intrigante.
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