- Retomando para concluir.
Dizíamos, no último texto, que há uma diferença considerável entre: 1) sofrer a tristeza de ser contrariado em sua vontade, por um lado, e 2) ter compaixão por aquele que sofre, desapontar-se com o erro alheio, solidarizar-se com o insucesso de um amigo. Nestes últimos casos existe o vínculo que leva a caminhar junto, mas não existe a tristeza no sentido mencionado em Apocalipse 21, 4: “[Deus] Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”.
Quanto ao primeiro tipo de tristeza, é incompatível com a santidade definitiva de quem contempla a glória de Deus, como é o caso dos Santos Anjos. É o sofrimento que tem sua raiz no orgulho de uma vontade individual que se vê contrariada. Mas o segundo tipo, o da compaixão, do companheirismo, da solidariedade com o amigo, é próprio dos santos, e não representa lamentável infelicidade nem sofrimento propriamente dito, porque é cheia da confiança plena em Deus e da docilidade ao governo que Ele exerce sobre a sua criação.
Com estes princípios em mente, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentam sustentar o problema colocado neste artigo, que é o de saber se os santos anjos da guarda sofrem com as coisas ruins que acontecem aos seres humanos que eles devem guardar.
- As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Sabemos que a palavra “anjo” vem do grego, e significa “mensageiro”. Ora, prossegue o argumento, o Livro de Isaías, 33, 7b, nos assegura que “os mensageiros de paz choram amargamente”. O que poderia significar isto, senão que os anjos sofrem com nossos males e desmandos? Assim, diz o argumento, há fundamento bíblico para defender que os anjos da guarda sofrem com as coisas ruins que acontecem ou que são feitas pelos seus protegidos, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
É preciso interpretar bem este texto, diz Tomás. A quem o profeta Isaías está se referindo? Literalmente, ele está se referindo ao diálogo entre os mensageiros de Senaqueribe, rei da Assíria, e os mensageiros de Ezequias, rei de Judá; os mensageiros de Ezequias choraram ao ouvir as palavras duras do enviado de Senaqueribe, como está registrado no próprio Livro de Isaías, 36, 22. O sentido literal do texto não se refere, portanto, a “anjos”, mas a mensageiros humanos do rei de Judá.
Pensando em termos dos sentidos espirituais do texto, vemos que, alegoricamente, o texto se refere a todos aqueles enviados de Deus, como os profetas, os apóstolos e os pregadores de Deus que se deparam com a maldade das pessoas a quem foram enviados. Quantos missionários do Evangelho encontraram a dor em sua missão, e até foram martirizados!
Mas o sentido anagógico do texto, isto é, aquele sentido mais profundo, que se refere às coisas últimas, pode, de fato, incluir os anjos e sua relação com os seus protegidos; neste caso, quando se lê que os mensageiros choraram, não podemos compreender esta expressão, em sua referência anagógica aos anjos, como significando que os anjos literalmente verteram lágrimas, mas que, em sentido metafórico, eles se compadecem e se solidarizam com as quedas e as dores de seus protegidos, porque querem a salvação de todos, sem que isto signifique que chorem ou se deprimam em sentido literal. Temos vários exemplos desse tipo de linguagem figurada nas escrituras, quando, por exemplo, dizem que Deus se enfureceu ou que se arrependeu (Gn 6, 6). Aqui, também, o texto usa de metáforas para denotar que aquela situação não correspondia ao bem que se espera dos amados de Deus. É assim, metaforicamente, que a Bíblia atribui tais sentimentos a Deus ou aos Santos Anjos.
O segundo argumento objetor.
Santo Agostinho, lembra o argumento, na sua obra “Cidade de Deus” (Livro 14, capítulo 15), diz que a dor da alma, chamada tristeza, consiste em não se conformar com as coisas que, sem que as quiséssemos, nos sucederam. Ora, todos os anjos querem que seus protegidos se salvem; logo, quando eles se perdem, isso sucede sem que eles o quisessem. E neste caso é inevitável que eles sofram, que se entristeçam, como nos ensina Agostinho; é o que conclui, apressadamente, o argumento objetor.
A resposta de Tomás.
Tomás considera que a resposta já está dada por tudo o que foi dito até aqui. De fato, Santo Agostinho, no trecho citado pelo argumento objetor, está falando da vontade daquelas pessoas que estão tomadas pelo orgulho pecaminoso que não é capaz de harmonizar sua própria vontade com a maravilhosa vontade de Deus – o que não é o caso dos santos. Os santos sempre reconhecem a vontade de Deus como a mais bela e apropriada, a mais livre e conveniente, e por isso sempre querem o que Deus quer ou permite, de modo que podem se compadecer e solidarizar com seus protegidos, mas nunca irão sofrer de “vontade contrariada”, porque confiam de modo absoluto no governo de Deus.
O terceiro argumento
A tristeza é o contrário da alegria, assim como o pecado é o contrário da conversão. Ora, quando um pecador se converte, os anjos se alegram, como se lê em Lucas 15, 7. Portanto, o contrário disso, que é a queda no pecado, dele levá-los à tristeza, e portanto há fundamento bíblico para afirmar que os anjos se entristecem quando seus protegidos caem no pecado, conclui, de modo apressado, o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos estão sempre gozando da alegria do céu, e a Bíblia nos diz, nesse passo, que eles se alegram tanto na conversão dos seus protegidos quanto na sua queda, neste último caso porque confiam plenamente no governo e na justiça divina. Mas é claro que a conversão dos pecadores provoca mais alegria nos céus do que a queda.
O quarto argumento objetor.
As Escrituras, em Números 18, 12, faz menção a “primícias a serem oferecidas ao Senhor”, que Orígenes interpretou, em seu comentário, como uma referência à presença dos anjos no julgamento divino dos seres humanos decaídos, quer por causa da negligência dos anjos ou por causa da negligência humana. Ora, diz o argumento, ser submetido a juízo representa uma derrota, e quem está derrotado não pode senão estar triste. Logo, a queda dos protegidos é causa de tristeza para os anjos da guarda, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os Santos Anjos comparecem no juízo dos seres humanos, mas não como réus, mas como testemunhas; sabemos que os seres humanos que se rebelam contra Deus sempre parecem ter desculpas para seus próprios erros; assim, os anjos testemunharão, ali, que não foi por falta de um protetor zeloso, mas pelo pecado dos próprios seres humanos que eles são eventualmente condenados, diz Tomás.
3. Concluindo.
A felicidade no céu não é uma felicidade estoica, daquele tipo que se fundamenta na indiferença com o outro, no desprezo às coisas humanas, no resguardo contra o incômodo que as relações nos trazem. O céu não é um recanto isolado de hedonismo individualista, mas o refúgio seguro daqueles que, cheios de compaixão e solidariedade, já alcançaram abrigo no seio do onipotente e confiam tranquilos em Seu poder infinito. Longe da indiferença, o céu está pleno de doce confiança em Deus onipotente que é amor.
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