1. Retomando.

Estar no céu, pertencer plena e definitivamente a Deus, é gozar da felicidade final, perpétua e inesgotável. Mas será que isto impede a compaixão com aqueles que sofrem ainda nesta vida? Que tipo de amigo pode ser guardião e não se entristecer com as tristezas do amigo, não se desapontar com suas falhas ou lamentar suas derrotas? Mas como compatibilizar essa compaixão com a alegria infinita do céu? 

Vimos, no texto anterior, a hipótese de que os anjos da guarda sofrem de verdade com nossas derrotas, ficam infelizes com nossos fracassos, decepcionam-se com nossos erros e pecados, de um modo tal que seria incompatível com a felicidade eterna dos santos; mas deve haver alguma maneira de entender como eles podem, a um só tempo, ser compassivos para com os que eles devem guardar e, simultaneamente, manter a beatitude plena dos santos.

É o que veremos agora.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Podemos ter certeza, diz Tomás, de que nossos pecados e nossos sofrimentos não causam sofrimento em nossos anjos da guarda; o sofrimento sempre decorre da vontade frustrada, contrariada, e a vontade dos santos e dos anjos nunca é contrariada por aquilo que, sabem eles muito bem, decorre da ordem divina e resulta quer da vontade, quer da permissão de Deus. 

Por isso, os anjos nunca sofrem com as falhas e os sofrimentos dos seus protegidos. Sabem que Deus quer – ou ao menos permite – que aconteçam coisas que causam sofrimento aos seres humanos que caminham neste mundo, e com certeza os santos anjos e os bem-aventurados que já estão na glória não podem senão alegrar-se com a vontade e a permissão de Deus, que eles sabem que conduz apenas ao bem, no final das contas. Portanto, eles não podem sofrer em sentido estrito, isto é, não podem passar pela experiência de ter sua vontade frustrada ou contrariada em função da vontade ou da permissão de Deus, porque simplesmente eles não têm nenhum querer que seja desconforme à vontade ou à permissão de Deus

Mas é claro que, muitas vezes, nossa vontade acaba consentindo, no caso concreto, com aquilo que, de modo universal e abstrato, não gostaríamos de consentir. Assim, diz Tomás, o capitão que comanda o navio nunca quer, abstrata e universalmente, que sua carga se perca no mar. Mas, no caso concreto, quando ele está numa situação particular de tempestade ou de risco de naufragar, ele pode querer e até ordenar que a carga seja jogada ao mar – o que é uma decisão voluntária, no caso concreto, que contraria sua vontade abstrata de que a carga se salve.

Portanto, todos os anjos da guarda querem, de modo universal e abstrato, que os seres humanos pelos quais eles são responsáveis se salvem, e vivam uma vida santa e irrepreensível – o que é a vontade universal de Deus para todos os seres humanos (1 Timóteo 2, 4). 

Mas no caminhar da vida e na concretude dos nossos dias, muitas vezes os seres humanos pecam, erram, escolhem mal e fazem o mal, o que é contrário à vontade de Deus. Outras vezes, sofrem as consequências das más escolhas dos outros, ou mesmo dos limites da própria condição humana (doenças, acidentes, etc.). Isto, tudo, claro, é contrário à vontade dos anjos para os seus protegidos – e com certeza eles se compadecem, eles lamentam que estas coisas. Mas não sofrem nem perdem a sua bem-aventurança por causa delas, porque sabem que Deus é capaz de conduzir todas as coisas ao bem dos seus eleitos, e que, portanto, mesmo os piores pecados e os piores sofrimentos têm um sentido salvífico.

Neste sentido, podemos imaginar que os anjos ficam, muitas vezes, compassivos e até desapontados conosco; mas isto não abala sua felicidade nem os leva a sofrer, porque sabem que Deus está no governo de todas as coisas e é capaz de retirar o bem do mal e de, mesmo quando os seres humanos sofrem as dores consequentes ao pecado e à desordem que ele causa no mundo, isto se dá, no fim das contas, para a maior glória de Deus e para o bem dos que o amam.

  1. Encerrando. 

Há uma diferença enorme entre sofrer a tristeza de ser contrariado em sua vontade, por um lado, e ter compaixão por aquele que sofre, desapontar-se com o erro alheio, solidarizar-se com o insucesso de um amigo. Nestes últimos casos existe o vínculo que leva a caminhar junto, mas não existe a tristeza no sentido mencionado em Apocalipse 21, 4: [Deus] Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”. Este tipo de tristeza, esse tipo de dor, esse tipo de sofrimento não é compatível com a bem-aventurança dos santos no Reino dos Céus.

No próximo texto veremos a resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.