- Introdução.
Estar no céu, estar com Deus, é estar na felicidade perfeita. Mas ser amigo, caminhar junto, é alegrar-se com as alegrias do amigo e entristecer-se com as suas tristezas. Como, então, podemos imaginar que os anjos da guarda são nossos amigos de verdade se não puderem partilhar nossas alegrias e tristezas? Mas como imaginar que eles possam dividir conosco nossas tristezas se são plenamente felizes na sua santidade celeste? Eis o problema a ser resolvido aqui; vamos a ele.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial propõe que os anjos da guarda são nossos amigos de verdade, e por isso não poderiam deixar de se entristecer com as nossas tristezas e com as nossas quedas; eles experimentariam, portanto, a frustração e a decepção com as derrotas daqueles que foram entregues à sua guarda, bem como sofreriam a tristeza com tudo de mal que lhes viesse a acontecer. Esta hipótese polêmica, que visa provocar o debate, tem nada menos do que quatro argumentos iniciais que visam comprová-la – são os argumentos objetores iniciais – e um argumento sed contra, que tenta refutá-la. Vamos a eles.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que Isaías 33, 7b nos ensina que “os anjos da paz choraram amargamente”. Ora, prossegue o argumento, o choro amargo decorre sempre de um sofrimento profundo que causa um estado de tristeza. Logo, os anjos que nos guardam podem se entristecer e sofrer por nós, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Os nossos anjos da guarda têm por missão nos proteger, nos guardar, nos reger e nos iluminar para que cheguemos à salvação; isto é, eles querem que nos salvemos. Ora, muitos seres humanos não se salvam. Ocorre que a tristeza e o sofrimento decorrem justamente do fato de que a vontade de alguém é contrariada e acontece algo que não se quer, ou deixa de acontecer algo que se quer. Logo, quando um ser humano se perde, isso causa tristeza e
sofrimento em seu anjo da guarda, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Fazendo uma analogia, podemos dizer que a tristeza é contrária à alegria, assim como o pecado é contrário à conversão. Ora, em Lucas 15, 7, lemos que a conversão dos pecadores alegra os anjos do céu: “Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”. Portanto, se a conversão de um pecador alegra os anjos, então o pecado de alguém que eles guardam, o afastamento de Deus, deve entristecê-los, deve fazê-los sofrer; logo, os anjos da guarda podem sofrer por nós, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Existe uma passagem no Livro dos Números (18, 12), que diz: “Dou-te também as primícias que os israelitas oferecerem ao Senhor”. Ora, esta passagem é interpretada por Orígenes como uma alusão ao fato de que os anjos da guarda devem ir a juízo por seus protegidos, que são como que as primícias que Deus lhes confiou, para que fique claro se os seres humanos se perderam por negligência dos anjos ou por culpa própria. Ora, ser submetido a julgamento por alguma coisa ruim que aconteceu é sempre algo triste; e portanto será ocasião para que os anjos se entristeçam. Assim, conclui apressadamente o argumento, os anjos podem sofrer por nossas quedas.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que não podemos simplesmente aceitar a hipótese inicial de que os anjos sofrem tristezas e decepções ao exercer a missão de nos guardar, simplesmente porque esse sofrimento, essa dor e essa tristeza seriam incompatíveis com a plenitude da alegria no céu, descrita em Apocalipse 21, 4: “já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”, que é a imperfeição do mundo que ainda está a caminho. Ora, os anjos já não estão a caminho, mas gozam da beatitude do céu. Logo, não podem sofrer ou sentir dor de nenhuma espécie, conclui o argumento.
- Encerrando por enquanto.
A felicidade plena do céu impossibilita a compaixão? Ela representa algum tipo de impassibilidade estoica que fecha os olhos ao sofrimento alheio? Eis o que debateremos no próximo texto.
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