- Retomando.
Será que os anjos da guarda se distraem, quando estão nos vigiando? A nossa imaginação poderia nos dizer que, sendo eles tão poderosos e tendo a missão de nos guardar, dificilmente poderiam acontecer coisas ruins conosco, como tentações, assédios, possessões demoníacas ou mesmo acidentes físicos casuais. Mas todas essas coisas acontecem, o que pode significar que os anjos não estavam presentes, ou nos tinham abandonado à nossa própria sorte. Pareceria, então – e esta é a hipótese polêmica inicial – que os anjos da guarda podem eventualmente nos abandonar. Vimos, no último texto, justamente esta hipótese e os argumentos que tentam comprová-la, bem como o argumento contrário, retirado da Bíblia – especificamente da Primeira Carta de São Pedro, 5, 8, que lembra que o demônio nunca nos abandona em seu projeto de nos destruir; disso, o argumento conclui que tampouco o santo anjo da guarda nos abandona em sua missão de nos proteger.
Com todos estes elementos em mente, examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Como já vimos nos textos anteriores, os anjos da guarda recebem de Deus a missão de nos reger, guardar, dirigir e iluminar, e isto é parte do governo de Deus sobre o universo criado. É o modo pelo qual a providência divina cuida de nós pessoalmente. É possível escapar do governo divino?
Não, não é possível nem desejável escapar do governo divino, de Sua providência maravilhosa que toma conta de nós. Nada, nenhuma criatura, pode escapar do governo divino; podemos nos unir a Ele, e assim alcançar a nossa liberdade na busca do bem que nos completa e redime, ou podemos resistir ao bem, caso em que seremos ainda governados por Deus, mas sem a nossa cooperação.
É neste último sentido que às vezes se fala que Deus “abandona o ser humano”, quer dizer, permite que ele sofra os revezes do mau uso de sua liberdade e até mesmo da liberdade dos outros, ou que participe do sofrimento próprio da condição criatural, que se une ao sofrimento de Cristo para “completar na nossa carne aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo” (Colossenses 1, 24), quer dizer, para nos associar ao plano divino da redenção. Não se trata, pois, de “abandono” no sentido próprio, no sentido de ausentar-se ou de esquecer-se, mas de deixar que a criatura possa ter espaço para fazer suas próprias escolhas e participar das consequências.
Assim agem também os nossos anjos da guarda. respeitam a nossa capacidade de escolher, ajudam-nos a ser livres, mas sempre se abstêm de nos proteger das consequências do abuso da nossa própria liberdade. Os anjos nos tratam de modo adequado à nossa própria condição de criaturas com consistência causal, com capacidade de ação e de participação, como inseridos num universo em que as coisas verdadeiramente existem, caminham e se relacionam, para o bem e para o mal.
É neste sentido que as Escrituras trazem aquelas passagens citadas no primeiro argumento objetor (Jeremias 51, 9: Tentamos curar a Babilônia, mas em vão. Deixai-a! ou Isaías 5, 5: “Pois bem, eu vos mostrarei agora o que hei de fazer à minha vinha: eu lhe arrancarei a sebe para que ela sirva de pasto, derrubarei o muro para que seja pisada”) Em ambas as passagens, diz Tomás, já respondendo ao primeiro argumento objetor, não há um “abandono da missão” pelos anjos, mas apenas a permissão para que aconteçam as consequências das más escolhas dos seres humanos. Tem o mesmo sentido a passagem citada no segundo argumento objetor, do Salmo 21(22): “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”. O abandono, aqui, é apenas a permissão divina para que a criatura passe pelo sofrimento que é consequência das más escolhas próprias ou de outros, ou que encaminha à salvação.
Ficam, assim, respondidos desde logo o primeiro e o segundo argumentos objetores iniciais.
- A resposta de Tomás ao terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor, como nos lembramos, cita São João Damasceno, que afirma que, quando os anjos estão conosco neste mundo, não estão no céu. Ora, então poderíamos concluir que, quando estão no céu não estão neste mundo, e portanto nos abandonam, conclui o argumento com uma lógica ruim.
Mas Tomás nos ensina que não podemos entender a frase do Damasceno de modo tão espacial, tão material, porque os anjos não são seres materiais, e portanto não estão presos aos limites do espaço e do tempo para se deslocar. Assim, quando está atento a nós, não precisa se deslocar para passar a estar atento ao céu; e, quando está atento ao céu, não precisa estar fisicamente longe de nós, de tal modo que pode voltar sua atenção para nós sempre de modo instantâneo, quando precisamos.
- Concluindo.
Não podemos entender a noção de “abandonar”, que a Bíblia às vezes usa para descrever a atitude dos anjos, e do próprio Deus, para conosco, como se fosse uma atitude de distanciamento, de desinteresse ou mesmo de desprezo. Ninguém jamais é abandonado por Deus neste sentido. Tampouco pode ser abandonado, esquecido ou desprezado pelo seu próprio anjo da guarda. O que não significa que não tenhamos que sofrer as consequências das nossas más escolhas – aquilo que os antigos chamavam de “mal de culpa”, ou das más escolhas dos outros e da maldade no mundo – aquilo que os antigos denominavam “mal de pena”. Isso pode ser chamado de “abandono”, mas num sentido completamente diferente, ou seja, no sentido de respeitar a consistência e os limites do mundo criado, bem como o livre arbítrio das criaturas.
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