1. Introdução.

Já sabemos que há um anjo para cada ser humano, que ele nos protege pessoalmente e está conosco desde o nascimento – ou desde a concepção, imagino eu – e que não nos abandona mesmo na glória, quando reinará conosco para a eternidade. Mas temos a experiência de que, muitas vezes, não temos clareza para decidir frente às tentações e que coisas ruins podem acontecer sem que haja alguma proteção preternatural. A pergunta que às vezes nos ocorre é: onde estão os anjos da guarda nesses momentos? 

O debate, aqui, é sobre a continuidade dessa proteção, sua permanência. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Para provocar o debate, o artigo nos propõe a hipótese de que os anjos nem sempre estão conosco; às vezes eles se ausentam por algum motivo e ficamos sem sua proteção. É uma hipótese provocadora, proposta para incentivar o debate aberto. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor recorre às Escrituras para tentar provar que os anjos da guarda podem, às vezes, se afastar da pessoa a quem protegem, deixando-a momentaneamente sem proteção. 

De fato, diz o argumento, em Jeremias 51, 9, a Bíblia faz os anjos dizerem, a respeito de Babilônia: “Tentamos curar a Babilônia, mas em vão. Deixai-a!”. Ora, isto significa que os anjos protetores podem desistir de cuidar e iluminar um protegido que se recusa deliberadamente a ouvir. Também em Isaías 5, tratando da proteção que Deus dá à sua vinha, a Bíblia diz; “eu lhe arrancarei a sebe para que ela sirva de pasto, derrubarei o muro para que seja pisada”. Ora, a Glosa, que é o comentário medieval à Bíblia, lê esse trecho como um decreto de Deus para que a proteção dos anjos seja retirada. Logo, há provas bíblicas de que os anjos às vezes abandonam seus protegidos, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Sabemos que somos guardados pelo anjo da guarda, mas somos muito mais guardados por Deus. Mas a Bíblia parece ensinar que mesmo Deus pode, eventualmente, ausentar-se da proteção a alguém, como se vê do Salmo 21 (22): “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”. Ora, se o próprio Deus pode eventualmente abandonar a proteção do ser humano, como diz a Bíblia, então com muito mais razão devemos imaginar que nem sempre o anjo da guarda está presente e nos protegendo, conclui imprudentemente o argumento.

 3. O terceiro argumento objetor.

São João Damasceno ensina que, quando os anjos estão ao nosso lado neste mundo, então não estão no céu. Ora, não se pode negar que é próprio dos santos anjos estar ocasionalmente no céu. Logo, quando eles estão ali, não estão nos protegendo, e portanto às vezes nos abandonam, conclui levianamente o argumento.  

  1. O argumento sed contra.

Não temos dúvida, porque a Bíblia nos ensina assim, de que os demônios estão sempre de prontidão para nos atacar, e nunca desistem de fazê-lo. Na Primeira Carta de São Pedro 5, 8, a Bíblia diz: “Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar”. Ora, se os demônios nunca nos abandonam, muito menos os santos anjos da guarda interrompem nossa proteção, e sempre permanecem atentos às nossas necessidades, conclui o argumento. 

  1. Encerrando. 

Mesmo que às vezes tenhamos a impressão de que fomos abandonados pelo anjo da guarda, como se ele fosse obrigado a evitar todos os males e tentações que muitas vezes surgem da maldade humana ou da nossa própria imprevidência, a intuição parece apontar para a ideia de que eles nunca nos abandonam, mas nos guardam permanentemente – embora nem sempre possam ou devam evitar as consequências das más escolhas e do pecado, pessoal ou dos outros. 

Mas estamos nos adiantando. Este será o objeto do próximo texto.