- Retomando.
Desde quando recebemos o anjo da guarda para nos proteger, isto é, desde quando somos um caminhante autônomo aos olhos de Deus? Desde quando Deus nos vê como indivíduos, necessitados de proteção individual no caminho da salvação? Vimos, no texto anterior, a ideia de que apenas quando atingimos a idade da razão, ou quando somos batizados, ou quando estamos aptos a uma vida sacramental é que receberíamos um anjo da guarda encarregado da missão de nos proteger individualmente. Mas esta ideia, que delonga o reconhecimento da necessidade de proteção a um momento posterior qualquer, esbarra na posição de São Jerônimo, que expressamente afirma que há um anjo designado para nos proteger desde o nascimento.
Postos estes argumentos favoráveis – além do argumento contrário – à hipótese inicial, examinemos agora a posição de Tomás sobre o assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás inicia lembrando que o próprio Orígenes, escritor eclesiástico do século II-III, dizia que há duas posições sobre este tema:
- Alguns ensinam que o anjo é dado ao ser humano a partir do batismo, para guardá-lo no caminho da salvação que se abre para o cristão.
- Outros defendem que o anjo se encarrega do ser humano desde o nascimento, uma vez que é possível a salvação para a criatura racional que, sem culpa, desconhece a Igreja e os sacramentos. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, § 66: “mesmo considerando o Batismo sacramental necessário, enquanto meio ordinário estabelecido por Jesus Cristo para configurar a si mesmo os seres humanos, a Igreja não ensinou nunca a “necessidade absoluta” do Batismo para a salvação. Existem outros caminhos pelos quais pode ser realizada a configuração com Cristo. Já na primeira comunidade cristã era aceito que o martírio, o “Batismo de sangue”, pudesse substituir o batismo sacramental. Era, além disso, reconhecido o batismo de desejo”. O batismo de desejo, como se entende, é aquele que o Espírito Santo confere a quem, embora desconhecendo o sacramento, deseja-o e vive-o in voto, isto é, agindo, nos limites de sua cultura, como se estivesse batizado.
Esta segunda posição é abraçada por ninguém menos do que São Jerônimo. E por Tomás. Vale dizer: para nós, o batismo é necessário para a salvação, mas o próprio Deus é livre para agir por outros caminhos, na salvação de seus eleitos (Catecismo, § 67).
Portanto, o pressuposto para ter uma vida sacramental, ou mesmo para eventualmente salvar-se por meios misteriosos e conhecidos apenas por Deus mesmo fora dos limites visíveis da Igreja, é ter uma natureza racional, e esta o ser humano tem desde a concepção. Todo ser humano.
Ora, uma vez que, diz Tomás, o nascimento nos introduz na luta deste mundo, é necessário que o anjo nos proteja desde então, para que possamos nos encaminhar para a salvação mesmo frente aos desafios e perigos que cotidianamente enfrentamos. Deste modo, diz Tomás, todo ser humano recebe, desde o nascimento, um anjo da guarda designado para sua guarda pessoal.
3. Encerrando por enquanto.
É claro que a teologia deve levar em consideração, em suas especulações, o estado da ciência num dado momento. No momento em que Tomás refletia, não se sabia muita coisa sobre a gestação; além disso, não era comum – na verdade era mesmo muito raro – que uma mulher estivesse numa situação de desespero quanto à gravidez, que a levasse a praticar cotidianamente o aborto. Deste modo, imaginava-se, somente seria necessário receber um anjo da guarda próprio após o nascimento. Talvez hoje a situação seja um tanto diferente, diante da proliferação da legalização e da aceitação social do aborto. Mais do que nunca os nascituros precisam de um anjo da guarda desde a concepção.
Mas estamos nos adiantando. Isto é assunto para o próximo texto, no qual examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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