1. Introdução.

Vimos que o anjo da guarda nos acompanhará mesmo depois da nossa morte, como companheiro no reino de Deus, para que possamos reinar com ele na glória para sempre. Mas quando começa a missão do anjo da guarda? Será que ele está conosco desde a nossa concepção, desde o nosso nascimento, ou será que apenas no batismo (sacramental, de sangue ou de desejo) ele nos recebe em missão? 

Pensemos, aqui, nos reflexos desta discussão para a defesa veemente que a Igreja faz da vida biológica do ser humano desde a concepção até a morte natural, diante das ameaças do mundo contemporâneo. Será que nosso anjo da guarda já está presente e atuante quando somos concebidos? Ou será que apenas entra em cena quando nos convertemos de algum modo a Deus, ou mesmo quando recebemos o batismo? Será que a proteção dos batizados é mais especial do que aquela concedida aos seres humanos em geral? 

Esta interessante discussão está começando. Vamos segui-la.

  1. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese polêmica inicial propõe que o anjo não nos é enviado logo no nascimento, mas em algum momento posterior – que será determinado de modo diferente em cada um dos argumentos objetores seguintes. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento nos ensina que os anjos são mandados em missão para proteger e guiar aqueles que receberão a herança da salvação, como diz a Carta aos Hebreus (1, 14). Mas nós sabemos, diz o argumento, que o batismo é a condição necessária para entrar no caminho da salvação e começar a ser herdeiro, como nos lembra Marcos 16, 16. Assim, a missão dos anjos da guarda só faz sentido a partir do batismo, conclui levianamente o argumento. 

O segundo argumento objetor. 

Os anjos cumprem sua missão conduzindo os seres humanos livremente pela via da lei de Deus, pela iluminação que concedem à inteligência humana. Ora, os bebês e as crianças de primeira infância não são capazes de receber nenhum tipo de iluminação que os guie no caminho da liberdade e da razão, porque ainda não são capazes de usar a razão. Deste modo, não faria sentido imaginar que bebês e crianças muito pequenas tenham anjos da guarda, conclui erroneamente o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Sabe-se que, com a sua formação pela geração no ventre materno, os embriões humanos adquirem alma racional, a mesma alma que os identificam após o nascimento e por toda a eternidade. Mas a Igreja somente lhes concede os sacramentos, que marca seu nascimento e crescimento para Deus, algum tempo após o nascimento.  Ora, antes de ser capaz de receber os sacramentos a criança ainda não é capaz de caminhar para a salvação. Assim, não é imediatamente após o nascimento, mas apenas quando estão em condições de receber os sacramentos, que as crianças recebem seus próprios anjos da guarda, conclui irrefletidamente o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

Aqui, o artigo traz aquele argumento que impede a aceitação da hipótese inicial, a partir da autoridade das Escrituras, da Tradição, do Magistério ou do pensamento de algum santo ou Padre da Igreja. No caso presente, o argumento traz a autoridade de São Jerônimo, autor da tradução da Bíblia para o latim, que também conhece muito sobre os anjos, e que ensina que cada ser humano, imediatamente após o nascimento, tem um anjo da guarda que lhe protege por designação divina. Logo, diz este argumento, a hipótese controvertida inicial está errada.

  1. Encerrando.

Este debate tem uma atualidade muito grande. Será que somos importantes, somos merecedores da especial proteção divina por meio de seus anjos, apenas quando já podemos receber os sacramentos, ou quando podemos usar a razão, ou quando somos efetivamente batizados? 

De certo modo, isto reflete aquela discussão sobre o aborto e sobre a dignidade do nascituro: se ele ainda não é um ser humano, se ainda não é digno de atenção e proteção especial por parte de Deus, e sequer recebe um anjo de guarda próprio, como poderia ser protegido contra um eventual aborto? Quem abortasse ou fizesse abortar não estaria simplesmente matando um amontoado de células, ou um apêndice pouco importante do corpo materno? 

São debates interessantes, que acompanharemos nos próximos textos.