1. Retomando para finalizar.

Todos e cada um dos seres humanos possui um anjo da guarda, diz Tomás, e esse anjo da guarda nos acompanha por toda a nossa existência, desde a concepção até a eternidade da glória no Reino, onde reinaremos junto com ele para sempre. É um amigo fiel, dedicado e permanente, que só nos abandonará caso optemos livremente pela condenação eterna. Neste caso, em vez de anjo da guarda amigo, teremos um demônio especialmente designado para nos atormentar pela eternidade – o que, convenhamos, é uma perspectiva assustadora. 

Mas restam ainda algumas questões a debater. Notadamente quanto à existência de um anjo da guarda para Jesus e Maria, imaculados, e para Adão e Eva antes da queda, assim como para os réprobos, que rejeitam o amor de Deus já nesta vida e vivem deliberada e impenitentemente no mal. Estudemos agora as respostas de Tomás a estas interessantes questões.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que Jesus assumiu a condição humana plenamente (Filipenses 2, 7). Ora, se todo e cada ser humano tivesse um anjo da guarda teríamos que admitir que também Jesus Cristo, que não deixou de ser Deus ao assumir a natureza humana, teve um anjo da guarda. Mas sabemos que Jesus Cristo está acima de qualquer anjo, Hebreus 1, 4. Não faria sentido, portanto, que ele tivesse um anjo da guarda. Logo, nem todos os seres humanos têm necessariamente um anjo da guarda, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Por sua natureza humana, Jesus Cristo é humano como nós, exceto quanto ao pecado.  Mas, tendo a natureza divina, não precisava de anjo da guarda para protegê-lo. Por sua alma imaculada, ele estava em união perfeita com sua natureza divina, sem mistura nem confusão, mas sem hiatos ou separação: por isto a tradição diz que ele é, por sua alma, um “compreensor”, alguém que já vive a plenitude da graça; mas, por sua natureza humana real e verdadeira, é também um caminhante, nos dias em que passou na Terra antes da sua páscoa. Deste modo, os anjos o serviam, como diz o Evangelho (Marcos 1, 13). Assim, devemos concluir que Jesus tinha um anjo companheiro, como teremos nós na glória – mas subordinado a ele e não o contrário; e não, a rigor, um anjo regente ou guardador que fosse responsável por ele. 

O segundo argumento objetor.

No paraíso, nossos primeiros pais viviam uma vida protegida, porque sua alma estava em ordem com seu corpo e, ademais, as outras criaturas lhes eram submissas e nada poderia representar nenhum perigo a eles. Assim, não haveria sentido em imaginar que eles precisassem de algum vigia ou guarda ali. Logo, Adão e Eva no paraíso não tinham anjos da guarda, diz o argumento, aduzindo, imprudentemente, a partir dessa premissa, que nem todos os seres humanos têm necessariamente algum anjo da guarda.

A resposta de Tomás. 

De fato, diz Tomás, antes da queda nossos primeiros pais viviam em segurança no paraíso, com ordem exterior e interior, ou seja, sem ameaças de nenhuma das criaturas materiais nem algum tipo de concupiscência ou falta de virtude que conduzisse a alguma desordem interior perigosa para a salvação final. Mas havia, de fato, perigos exteriores, já que os anjos caídos estavam à espreita e poderiam tentá-los, como de fato veio a acontecer – e cujos resultados todos nós conhecemos. Assim, mesmo no paraíso os nossos primeiros pais, Adão e Eva, precisavam de anjos da guarda – e de fato os possuíam. 

O terceiro argumento objetor.

Anjos da guarda, lembra o argumento, são anjos enviados para guardar, reger e conduzir os seres humanos a eles encarregados individualmente a caminhar para a salvação e a vida eterna. Mas Deus sabe de antemão quem são os réprobos, isto é, aqueles que escolherão o caminho da condenação eterna e jamais alcançarão a salvação – estão, deste modo, livremente predestinados à perdição. Também aqueles que, embora imbuídos de bons propósitos, creem salvar-se por falsos caminhos, embora eventualmente fazendo coisas boas, estão destinados à perdição, porque rejeitam a relação com Deus e confiam em suas próprias forças, deixando de se submeter à boa condução da verdadeira fé. Tudo isto é conhecido por Deus desde a eternidade, pelo que seria inútil e desnecessário designar anjos da guarda para conduzir a Deus aqueles que já se sabe que não querem essa condução e não se submeterão a ela. Há, até  mesmo, a previsão bíblica de que, dentre os seres humanos, sairá o Anticristo, que conduzirá muitos à perdição (2 Tessalonicenses 2, 9), e não haveria sentido imaginar que alguém perverso assim tivesse um anjo da guarda para reger sua vida. Logo, os réprobos, os malvados e os perversos não precisam e não querem ter anjos da guarda nem eles lhes seriam de qualquer utilidade. Desse raciocínio o argumento conclui imprudentemente que nem todas as pessoas humanas têm anjos da guarda, mas somente aqueles que, de antemão, Deus sabe que se submeterão à sua condução e não se perderão. 

A resposta de Tomás.

Ninguém está fora do governo divino, nem mesmo as criaturas mais perversas. Nem os próprios demônios, nem Satanás pessoalmente, são livres para cometerem o mal que quiserem. Tampouco o são os réprobos, os apóstatas, os perversos e nem aquele que será conhecido como “o Anticristo” estará fora do governo de Deus.

Assim, mesmo os seres humanos mais perversos, mais opostos a Deus, têm anjos da guarda, que os impedem de cometer todo o mal que poderiam e quereriam, e os contêm para que não possam prejudicar a si mesmo e aos amados de Deus para além das permissões divinas. Desse modo, eles possuem anjos da guarda que, mesmo contra a vontade deles, dirigem-nos e limitam o mal que podem fazer a si mesmos e aos outros. 

  1. Concluindo.

No Evangelho de Lucas (22, 43), durante a agonia no Monte das Oliveiras, narra-se que um anjo veio consolar Jesus. Esta experiência deve ser compartilhada por nós em nossas necessidades: nunca estamos sozinhos, há sempre um santo espírito poderoso e inteligente, amoroso e cheio da graça, designado por Deus para zelar por nós.

Todos os seres humanos têm esse anjo da guarda particular, amigo fiel e condutor, que representa o governo de Deus em nossas vidas. Esse amigo nos acompanhará para sempre na salvação, mas nos entregará aos maus espíritos na perdição. Eis a verdade que agora aprendemos.