1. Introdução.

Vimos, portanto, que há anjos das cinco ordens inferiores da hierarquia celeste dedicados a proteger a criação material e os seres humanos em geral. Vimos, também, que há anjos da ordem mais baixa encarregados de proteger pessoas humanas individuais, de tal modo que cada anjo desses teria uma pessoa humana como missão, e cada pessoa humana teria um anjo designado para cuidar dela. A pergunta agora é mais estreita: isso ocorre com todos os seres humanos? Será que todo ser humano, cada um de nós – incluídos eu e você – têm um anjo da guarda? É o que discutiremos agora.

  1. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese polêmica inicial, proposta para provocar o debate, é a ideia de que nem todo ser humano individual teria um anjo da guarda designado especialmente para guardá-lo. Talvez alguns de nós o tenham, ou mesmo muitos de nós, propõe o argumento, mas não todos os seres humanos. Existem três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que as Escrituras descrevem Jesus Cristo como Filho de Deus que “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (Filipenses 2, 7). Ora, se Jesus Cristo assumiu em si a natureza humana, e se fez igual a nós em tudo, exceto no pecado (Hebreus 4, 15), então, se houvesse um anjo da guarda para cada ser humano, teríamos que admitir que o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus, teve um anjo da guarda designado para ele. Mas ocorre que as Escrituras nos dizem que Jesus Cristo é muito maior do que qualquer anjo (Hebreus 1, 4). Logo, nem todos os indivíduos da espécie humana são protegidos por um anjo da guarda particular, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O nosso primeiro pai (Adão) segundo as Escrituras, foi criado sem pecado e colocado no Éden (Gênesis 2, 8), que era um lugar sem quaisquer ameaças a ele – que, ademais, foi criado imaculado, sem pecado original. Portanto, ele não precisaria ser vigiado por um anjo da guarda, simplesmente porque não corria nenhum perigo. Assim, o argumento deduz imprudentemente que nem todo ser humano recebe um anjo da guarda para o proteger

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor vai no sentido contrário aos dois primeiros argumentos, Se nos dois primeiros argumentos parte-se da ideia de que Jesus ou aqueles criados de maneira imaculada e colocados no paraíso não precisam de um anjo da guarda, este último argumento lembra que, por outro lado, há aqueles que deliberadamente optam pela perdição, seja abraçando livremente o mal, em rebelião aberta contra Deus, seja desprezando a verdadeira fé deliberadamente, seja buscando a salvação com desprezo à graça, por suas próprias forças, sem considerar que não há obra justa e salvífica fora da graça de Deus. Além disso o Anticristo, como lembra 2 Tessalonicenses 2, 8-9, será um ser humano submetido inteiramente ao poder de Satanás, que se oporá frontalmente a Jesus. Nenhum desses, diz o argumento, parece efetivamente estar protegido por um anjo da guarda, ou mesmo fazer jus a um anjo assim. Logo, conclui o argumento apressadamente, nem todo ser humano tem um anjo da guarda designado para cuidar de si

  1. O argumento sed contra.

Por fim, o artigo nos traz um argumento que se opõe à hipótese controvertida inicial e aos três argumentos objetores iniciais, a partir de alguma autoridade – as Escrituras, algum Padre da Igreja, algum elemento da Tradição ou do Magistério – que impede de aceitar aquela hipótese.

No caso concreto, o argumento sed contra nos traz a autoridade de São Jerônimo, responsável pela primeira tradução integral das Escrituras para a língua do povo (a Vulgata), e que no século IV já ensinava que cada alma humana, cada ser humano já existente ou que virá a existir, possui um anjo da guarda cuja missão é protegê-lo do mal. Isto parece, portanto, apontar para a conclusão de que cada ser humano, independentemente de ser santo e imaculado, ou réprobo e malvado, tem um anjo da guarda designado por Deus para guardá-lo, conclui o argumento. 

5. Encerrando.

 Há pessoas más, pessoas que não se encaminham à salvação, que rejeitam fortemente a fé, que escolhem o caminho da perdição de modo voluntário, e por isso não parecem guardados individualmente por um ser espiritual poderoso e responsável por ela. Por outro lado, há os casos dos seres humanos que não nasceram com o pecado original, como Adão; ou, melhor ainda, como Jesus, que está acima dos anjos – o que significa que ele não precisaria de anjo da guarda, e que, portanto, nem todo ser humano individual o tem. Como compatibilizar essas constatações com a ideia de que todo ser humano, cada um dos que já existiram ou existirão, têm um santo anjo da guarda cuja missão é protegê-lo? É o que veremos no próximo texto.