1. Retomando para encerrar.

Trataremos, agora, de verificar as respostas específicas de Tomás aos argumentos objetores iniciais – que, como lembramos, tentavam comprovar que há anjos dos mais diversos níveis hierárquicos designados para nos guardar. 

Somos coletivamente protegidos por anjos muito poderosos, de diversos e elevados graus hierárquicos, desde os níveis inferiores até os intermediários. Somos pessoalmente protegidos por anjos do grau inferior da hierarquia, designados exclusivamente para nos assistir e vigiar individualmente, por todos os dias de nossa vida. Vimos tudo isto nos textos anteriores. 

Munidos destes princípios, voltemos aos argumentos objetores iniciais e suas respostas.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento resgata uma velha interpretação que São João Crisóstomo faz de Mateus 18, 10b (“seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus”). Segundo aquele Padre da Igreja Oriental, esta passagem significa que os anjos da guarda são daqueles anjos elevadíssimos e poderosíssimos, que assistem diretamente ao trono de Deus. Logo, não são os anjos inferiores que são enviados em missão para nos guardar, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Nós já sabemos que Tomás dificilmente contradiz diretamente a um antigo e santo escritor eclesiástico, mesmo quando eventualmente discorda. é o caso aqui. Ele evita desmentir ou mesmo contestar abertamente São Crisóstomo, e procura reinterpretar as palavras daquele santo de modo a preservá-las, mas corrigindo-as sutilmente.

Neste caso, Tomás nos lembra que, de fato, mesmo os anjos da ordem inferior não são iguais entre si, de tal modo que há anjos mais poderosos do que outros, mesmo nessa ordem ínfima. Ora, diz Tomás, os anjos inferiores mais poderosos são designados para proteger as pessoas humanas que foram eleitos por Deus para um grau maior de glória, demandando, portanto, maior proteção. Portanto, devemos entender a interpretação de São Crisóstomo como uma referência a esta diferença: quando ele fala de anjos supremos, está, na verdade, fazendo menção àqueles anjos da guarda que receberam uma missão mais difícil, mais nobre, de proteger os eleitos à maior glória de Deus – e não aos espíritos supremos dentre todos, como os serafins e querubins.. 

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento lembra que a missão de nos guardar envolve a ampla proteção dos seres humanos que foram eleitos para a glória eterna. Ora, há pelo menos cinco ordens de anjos, de acordo com a tradição, que são escalados para proteger os eleitos de Deus, sendo enviados para o ministério externo em nosso favor. Logo, não são apenas os anjos da ordem mais inferior que recebem a missão de serem anjos da guarda, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás nos lembra que há, de fato, anjos de muitos graus que são encarregados de proteger a criação, a humanidade e subjugar os demônios, e estes anjos pertencem a diversos e elevados graus hierárquicos. Mas os anjos da guarda em sentido próprio, aqueles que devem cuidar concreta e individualmente de proteger um ser humano individualmente, são sempre e necessariamente da ordem inferior, e isto é o que ensina o Pseudo-Dionísio, com toda a sua autoridade na matéria. 

O terceiro argumento objetor.

Para proteger os seres humanos, diz o argumento, é preciso subjugar os demônios (o que é missão das Potestades) e viabilizar milagres (o que é próprio das Virtudes). Ora, essas duas ordens de anjos não pertencem ao grau inferior dos anjos, mas a um grau mais elevado e perfeito. Logo, não são apenas os anjinhos do grau inferior que são designados para serem nossos anjos da guarda, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Eventualmente, os nossos anjinhos da guarda, mesmo sendo do grau mais humilde dentre os anjos, realizam atos miraculosos em nosso favor e afastam de nós os demônios. Mas quando o fazem, fazem isto apenas em favor daquele que devem cuidar individualmente, e o fazem com seus poderes restritos e concretos – porque estas missões, quando realizadas de modo geral e amplo, pertencem a anjos mais poderosos do que eles. 

Um anjo de grau inferior pode, de fato, participar de algum poder próprio de um anjo mais elevado, embora sempre de modo casual, limitado e concreto, como executores dos poderes daqueles mais elevados. De modo análogo, um soldado que é enviado em missão por um general adquire, de modo limitado e temporário, algo do poder do superior que o enviou. 

  1. Concluindo.

Nosso anjo da guarda é um amigo maravilhoso, um soldado do Reino de Deus que vive na glória e deve nos proteger; mais poderoso do que qualquer ser humano, é quase inacreditável que tenhamos essa companhia espiritual permanente ao nosso lado.

Mas será que todos os seres humanos têm um amigo desses? É o que veremos no próximo texto.