1. Retomando.

A qual ordem pertencem os anjos encarregados de nos guardar do mal? Esta foi a questão colocada no início deste artigo, no texto anterior. Vimos, ali, a hipótese de que eles pertencem a diversas ordens, e não apenas à menor das ordens. Vimos os argumentos colocados no sentido dessa hipótese, bem como o argumento contrário a ela, retirado de um ensinamento do Pseudo-Dionísio – que ensinava que nossos anjos são soldados rasos na hierarquia angélica. Lembrando sempre, é claro, que qualquer anjo é muito mais poderoso do que qualquer ser humano. 

Visitaremos agora a resposta de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Mais uma vez Tomás nos lembra que as confusões, neste assunto, vêm do fato de que não nos atentamos para o sentido da palavra “guardar”. De fato, quando dizemos que há anjos que “guardam” os seres humanos, há pelo menos dois sentidos para a noção de “guardar”:

  1. A guarda pessoal, pela qual cada ser humano é entregue à vigilância de um anjo especialmente designado por Deus para ele. Ora, diz Tomás, essa missão é sempre entregue a anjos da ordem mais inferior de todas, aqueles que cuidam das coisas pequenas, concretas, atinentes, por exemplo, à salvação pessoal de um indivíduo da espécie humana.  Esta é a missão mais restrita, mais simples, mais específica, mais concreta que um anjo pode receber. Assim, ela é sempre entregue aos menores dentre os anjos.
  2. Há, no entanto, uma missão de guarda universal da espécie humana, pela qual somos coletivamente protegidos do mal e encaminhados à salvação. Neste caso, as missões mais amplas serão entregues a anjos cada vez mais poderosos, de tal modo que um anjo que guarda toda a espécie humana, por exemplo, será mais poderoso do que aquele incumbido de guardar apenas um povo ou uma nação. 

A partir daí, dessa distinção, podemos especular quais ordens são incumbidas de cada missão. Mas são apenas especulações, e devemos sempre nos lembrar disso. É possível cogitar a respeito disso, mas devemos sempre nos lembrar de que, nessa matéria, nosso conhecimento é muito limitado. 

Portanto, quando falamos da custódia geral da espécie humana, que não envolve ser incumbido de tomar conta concretamente de um e único ser humano, podemos imaginar que possivelmente, diz Tomás, a ordem dos Principados seria incumbida de guardar toda a espécie humana; ou talvez, diz Tomás, estejamos coletivamente sob a guarda dos arcanjos, que são chamados de príncipes dos anjos; de fato, o Livro do Apocalipse 12, 7, cita Miguel como combatente em nosso favor, enfrentando as hostes satânicas que querem subjugar a Mulher, quer dizer, a Igreja. Neste sentido, Miguel pode ser considerado um príncipe dos Arcanjos, embora não seja da ordem dos Principados, mas seja apenas um arcanjo. 

Sabe-se, na tradição teológica, que as Virtudes guardam as criaturas corporais, isto é, o mundo material, e as Potestades subjugam os demônios; as Dominações e Principados, por outro lado, segundo a tradição teológica, lideram os bons espíritos em suas missões divinas. Deste modo, todos estes bons e santos anjos exercem uma vigilância ampla sobre nós. Neste sentido, podemos dizer que são guardiões da criação e dos seres humanos em geral. Mas a guarda individual e concreta de cada pessoa humana é realizada apenas pela ordem menor dos anjos, aquela que a tradição chama de anjos em sentido estrito, e que são os menores no reino das criaturas espirituais.

3. Encerrando. 

Sempre olhamos com muita alegria para as distinções sutis de Tomás, que nos esclarecem maravilhosamente sobre o assunto debatido. Aqui, ele distingue entre a vigilância geral do mundo material e da espécie humana, que é realizada por espíritos angélicos das mais diversas ordens, conforme a amplitude e a diversidade da tarefa, e a função de anjo da guarda de um ser humano concreto, que sempre pertence aos anjinhos da ordem mais ínfima do céu. Mas não nos iludamos: eles são espíritos poderosíssimos em natureza e em graça, e deveríamos estar muito felizes com uma amizade deste tipo – que nos é concedida pelo próprio Deus.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.