1. Introdução.

Que existem anjos designados para guardar os seres humanos já sabemos; que cada anjo guarda apenas um ser humano, descobrimos também. Que os anjos são diferentes em capacidade e poder, já sabíamos. A questão agora diz respeito à posição dos anjos da guarda na hierarquia dos anjos: por um lado, sabemos que mesmo o mais simples dos anjos é muito mais poderoso intelectualmente do que nós. Mas, dentre os anjos, há alguns poderosíssimos, e outros muito pequenos (mesmo se muito maiores do que nós). A pergunta, agora, é esta: quanto aos anjos da guarda, serão eles espíritos elevadíssimos ou anjos da menor ordem na hierarquia? É o que debateremos.

  1. A hipótese inicial.

A hipótese inicial é a de que os anjos da guarda não pertencem apenas à menor das ordens angélicas. Há três argumentos iniciais, que tentam provar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o evangelho de Mateus, 18, 10 (“os seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está no céu…”) foi interpretado por São João Crisóstomo como sendo uma referência a anjos elevadíssimos, supremos mesmo, dentre todos os anjos. Assim, o argumento conclui que não são apenas os anjos menores que recebem a missão de guardar pessoalmente os seres humanos, mas mesmo os supremos dentre os espíritos celestes podem receber esta missão. 

O segundo argumento objetor.

Em Hebreus 1, 14, as Escrituras nos ensinam que os anjos são todos “espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação”. Portanto, as missões dos espíritos celestes são todas voltadas à salvação dos eleitos. Ora, nos artigos anteriores vimos que há cinco ordens de anjos que são enviadas para missões externas, ou seja, há cinco ordens de anjos que recebem missões ordenadas à nossa salvação. Logo, com base nisso, o argumento afirma que há anjos da guarda pertencentes a essas cinco ordens de anjos, e não apenas à menor ordem de todas

O terceiro argumento objetor.

A missão de guardar os seres humanos envolve,  segundo São Gregório, principalmente a missão de combater os demônios, porque são estes os poderes externos que mais ameaçam a salvação humana, e a missão de conduzir os milagres, que levam os seres humanos à conversão pela graça. Ora, o combate direto aos demônios é encargo das Potestades, e a realização dos milagres é supervisionada pelas Virtudes. Portanto, não somente os anjos das ordens inferiores recebem a missão de guarda dos seres humanos, mas mesmo os anjos de ordens mais altas como virtudes e potestades têm essa missão, e podem ser encarregados de ser anjos da guarda, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento sed contra lembra que o próprio Pseudo-Dionísio, grande autoridade cristã sobre o assunto dos anjos da guarda, assevera que apenas os anjos da ordem mais inferior são encarregados de guardar os seres humanos, servindo de anjos da guarda, conclui este argumento.

  1. Encerrando.

O debate está colocado. Os argumentos são fortes para os dois lados, e realmente há elementos para defender que a atividade de nos guardar cabe a muitos anjos de diversas ordens, e há elementos para acreditar que essa tarefa concreta é entregue apenas aos menores dentre os anjos. No próximo texto veremos a resposta de Tomás a este problema.