1. Voltando para finalizar.

Maravilhoso amigo enviado por Deus para nos guardar para sempre, para nos proteger das forças invisíveis que tentam nos conduzir à perdição, mais poderoso do que qualquer inteligência humana, humilde a ponto de passar despercebido entre nós. Quão pouco valorizamos esta companhia perene, este amigo exclusivo e eterno, que nos acompanha mesmo se não queremos. Assim, temos um anjo encarregado de cuidar de nós; e cada anjo guardião é encarregado de cuidar de um e apenas de um ser humano, com exclusividade.

Vimos tudo isto nos últimos textos. Veremos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentavam sustentar o contrário disso.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Qualquer anjo é mais poderoso do que o mais poderoso dos seres humanos, lembra o argumento. Ora, muitas vezes um único ser humano é encarregado de guardar várias outras pessoas. Assim, com maior razão um único anjo poderia ser encarregado de guardar diversos seres humanos, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Com relação ao fato de que um ser humano pode ser encarregado de cuidar de outro, de duas maneiras isso pode se dar, diz Tomás:

  1. Quando é necessário vigiar e proteger uma pessoa individual concreta, é necessário encarregar um guarda de vigiá-lo especificamente. Às vezes, inclusive, vários guardiões são designados para proteger aquela pessoa concreta, como, por exemplo, no caso da Guarda Suíça do Vaticano, todos encarregados de proteger o Papa.  
  2. Quando alguém é vigiado e guardado por pertencer a alguma coletividade; neste caso, pode haver apenas um guarda tomando conta da coletividade inteira, e ele só se preocupa com os membros da coletividade quanto àquilo que diz respeito a essa mesma coletividade. Assim, por exemplo, um sargento recebe diversos soldados sob seu comando, mas não estende sua vigilância sobre eles quanto àquilo que ele faz nos momentos de folga e que não diz respeito à segurança do exército ou da nação. 

Por isso, uma vez que a guarda que os anjos exercem sobre os seres humanos não diz respeito apenas àquilo que os envolve como uma coletividade, mas tem relação com a salvação individual de sua alma, não se poderia pensar em algum tipo de guarda colegial ou coletiva, mas é necessário que haja uma guarda individual, ou seja, que a cada ser humano, individualmente, seja designado um anjo individualmente também.

O segundo argumento objetor.

Sabemos que cada anjo é diferente do outro. Assim, cada anjo está num grau hierárquico diferente de todos os outros. Os superiores são mais próximos de Deus e, deste modo, podem iluminar os intermediários, que, por sua vez, iluminam os inferiores. Ora, se os seres humanos são inferiores a todo e qualquer anjo, então apenas o anjo mais baixo na hierarquia poderia iluminar diretamente os seres humanos, já que, entre ele e os seres humanos não haveria nenhum outro intermediário. Portanto, há apenas um anjo, o mais baixo da hierarquia dos anjos, que é guardião de toda a humanidade, conclui imprudentemente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não podemos entender a hierarquia celeste deste modo tão estreito, como se apenas o mais elevado de todos os anjos tivesse acesso aos segredos divinos e apenas o mais baixo dentre todos tivesse acesso aos seres humanos. Na verdade, embora sejam, todos os anjos, individualmente diferentes, há classes de anjos que, por se assemelharem muito entre si, têm a mesma função. Por isso, todos os anjos da classe suprema têm acesso aos segredos de Deus, embora sejam diferentes entre si em capacidade e poder. Os anjos da classe suprema podem, por seu turno, iluminar todos os inferiores, quanto àquilo que todos podem compreender, e os intermediários ficam encarregados de iluminar os demais, sucessivamente, com relação àquilo que ultrapassa a compreensão dos inferiores na sua relação direta com os espíritos supremos.

Deste modo, mesmo a classe inferior dos anjos recebe da classe mais elevada algumas iluminações, enquanto recebe das classes intermediárias outras iluminações, conforme as possa receber. 

Nada impede, portanto, que na classe dos anjos da guarda, alguns iluminem diretamente os seres humanos, mesmo sendo superior em capacidade e poder a outros anjos da guarda, aos quais também pode iluminar. Portanto, não existe, no Reino dos Céus, essa visão rigidamente hierárquica que o argumento quer colocar, mas uma visão de organização colaborativa que respeita a capacidade e os dons de cada um. 

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a diversidade entre os anjos implica que eles variam em capacidades e poderes. Logo, os anjos de maior capacidade são enviados para trabalhos maiores e mais difíceis. Ora, todos os seres humanos são iguais em sua espécie e em sua dignidade, não havendo diferença natural entre eles como há entre os anjos. Ora, se não há dois anjos iguais, e se a tarefa de guardar qualquer ser humano é igual a de guardar qualquer outro ser humano, então não poderia haver dois anjos diferentes encarregados da tarefa de guardar dois seres humanos diferentes, porque seriam dois anjos diferentes em capacidade e poder encarregados de uma tarefa igual. Logo, há apenas um anjo encarregado de guardar todos os seres humanos, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

De fato, todos os seres humanos são naturalmente iguais, ou seja, somos todos da mesma natureza e da mesma dignidade. Mas não temos a mesma história: cada um de nós viverá seus próprios desafios, uns maiores, outros menores, como é o caso daqueles que receberão a graça do martírio, por exemplo – graça que nem todos receberão, mas que será um grande desafio para os que tiverem que vivê-la. Deste modo, somos diferentes para a Providência divina, porque cada um viverá sua própria história, uns com maiores, outros com menores provações e desafios, uns aceitando o chamado de Deus, outros rejeitando-o. Por isso, faz sentido que anjos diferentes sejam designados para guardar cada um de nós, anjos cujo poder e capacidade sejam proporcionais aos desafios e provações que a vida nos guarda. 

3. Concluindo.

Um anjo da guarda para cada ser humano. Mas a qual ordem hierárquica pertencem os anjos que são enviados para guardar os seres humanos? É o que veremos no próximo artigo.