- Introdução.
Sabemos, por fé, que temos um anjo da guarda. Passagens bíblicas como Mt 18, 10 corroboram este antigo ensinamento da Igreja. Mas há necessidade de aprofundar: qual a responsabilidade do anjo sobre nós? Qual a nossa relação com ele? O fato de que possamos sofrer danos e até morrer, ou de que possamos pecar, é de responsabilidade dos anjos?
Estas e outras perguntas interessantes serão respondidas nesta questão, da qual este é o primeiro artigo. Aqui, estudaremos especificamente a existência e a missão dos anjos da guarda junto a nós. Vamos ao artigo.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial visa iniciar o debate trazendo alguma polêmica sobre o tema que se quer estudar. A primeira hipótese, portanto, nega a própria realidade de que haja alguma coisa como anjos da guarda. A hipótese propõe que, aparentemente, os seres humanos não são guardados pessoalmente por algum anjo. Existem três argumentos objetores iniciais que buscam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor propõe que ninguém precisa de um vigia para tomar conta de pessoas que são responsáveis por si mesmas. Apenas colocamos guardadores ou tutores para vigiar os incapazes, os doentes, as crianças e outras classes de gente que não pode se cuidar sozinha. Ora, prossegue o argumento, os seres humanos têm livre arbítrio, são capazes de tomar decisões por si mesmos, e possuem racionalidade, que lhes faculta conhecer naturalmente o fim e discernir os meios. Logo, as pessoas capazes não têm necessidade de nenhum anjo da guarda, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento é o argumento “solus Deus”, que despreza qualquer intermediação sob o pretexto de que se confia a Deus e isso basta. Diz o argumento: quando alguém tem um protetor muito forte, não precisa de uma proteção mais fraca. Alguém que está guardado por um exército certamente não precisa de um cãozinho de guarda. Ora, os seres humanos são diretamente guardados por Deus, como dizem as Escrituras no Salmo 121(120), 4: “Não, não há de dormir, nem adormecer o guarda de Israel”. Ora, se o próprio Deus vigia perpetuamente os seres humanos, não existe a necessidade de que sejamos guardados por anjos, conclui apressadamente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento tem a ver com a proteção moral, com a responsabilidade moral do guardador pelo guardado.
Quando alguém está incumbido de guardar outra pessoa, diz o argumento, e essa pessoa, que foi entregue à sua guarda, vem a se perder ou a cair, isso é responsabilidade do guardador, como dizem as Escrituras em 1 Reis 20, 39b: “Guarda este homem! Se ele escapar, a tua vida responderá pela dele!”. Mas a nossa experiência cotidiana mostra que os seres humanos vivem caindo em pecado, vivem cometendo erros terríveis, sucumbindo à tentação – às vezes buscando mesmo a influência demoníaca, e nunca há nenhum anjo aparecendo de repente, produzindo milagres ou intervindo de algum modo para impedir as quedas e os pecados humanos. Assim, se os anjos tivessem recebido a missão de guardar os seres humanos, eles estariam realizando uma guarda muito negligente, o que seria impensável, em se tratando de seres santos e muito poderosos. Portanto, conclui imprudentemente o argumento, não há anjos incumbidos da missão de guardar os seres humanos.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra, que é aquele argumento que tenta comprovar a falsidade da hipótese inicial, é muito simples: ele lembra que as Escrituras nos ensinam expressamente que os anjos receberam a missão de guardar os seres humanos, conforme o salmo 91(90), 11: “porque Ele mandou aos seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos”. Portanto, diz o argumento, os anjos são, de fato, incumbidos da nossa guarda.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
É próprio da disposição divina, diz Tomás, fazer com que aquilo que é mutável e transitório seja sempre regido por aquilo que é permanente e estável. Assim, os corpos menores são sempre atraídos aos maiores, os seres vivos sempre interferem com o ambiente inanimado, modificando-o, e os seres inteligentes submetem os que não o são, para cuidar e gerenciar.
Mesmo no campo intelectual as coisas são assim, diz Tomás: nosso pensamento deve obedecer às regras gramaticais e ao raciocínio lógico, ao método e aos princípios científicos e filosóficos, se quiser chegar a conclusões válidas e comunicáveis.
Também no campo espiritual esta ordenação é válida. Somos criaturas espirituais fracas, de certo modo cegas ao grande universo espiritual, inconstantes e inconsistentes, movidos por nossas paixões e emoções que muitas vezes nos inclinam a fazer aquilo que não é bom nem para nós, nem para os outros. Deste modo, foi conveniente que Deus tenha enviado os anjos para nos proteger e guiar, para nos orientar e mesmo governar no caminho do bem, protegendo-nos contra o mal e, muitas vezes, contra nossa própria cegueira e ignorância e inclinações desordenadas. Precisamos sempre desse auxílio constante, seguro e poderoso para garantir nossa liberdade e nosso caminho até o bem.
- Encerrando.
Todos temos anjos da guarda. Se mantivermos o coração aberto e nos dispusermos a ouvi-los e confiar neles, certamente nosso caminho até o bem será muito facilitado pelas suas inspirações maravilhosas. Mas isso não é fácil, já que os demônios podem nos enganar, nos seduzir, já que o próprio Satanás pode se disfarçar de anjo de luz (2 Coríntios 11, 14). É necessário pedir sempre a Deus o discernimento dos espíritos, mencionado em 1 João 4, 1: examinemos as inspirações, para ver se de fato vêm de Deus.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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