- Retomando.
Pode parecer apenas um preciosismo medieval distinguir, dentre algo tão pouco prático quanto os anjos, e algo tão pouco empírico quanto a hierarquia dos anjos, quais ordens são enviadas em missão e quais ficam a servir diretamente ao Trono de Deus, em contemplação. Mas considerando a visão medieval de sociedade, que incluía a ideia de que nossa sociedade humana vive um estado transitório no qual os seres humanos convivem com o pecado e devem optar pelo Reino com a graça de Deus ou rejeitá-lo e escolher a perdição eterna, faz muito sentido especular sobre essas enormes forças que nos superam e que nos são invisíveis, considerando-as pessoais e coordenadas. Deste modo, a vida espiritual estava muito mais perto deles do que está para nós, em nosso universo impessoal e pedregoso. Não devemos sonhar com algum retorno ao pensamento medieval, é certo. Mas tentar entender as razões por trás do seu pensamento pode nos ser de preciosa valia em nossa própria desorientação contemporânea.
No último texto estudamos quais ordens de anjos assistem ao Trono de Deus e quais ordens são enviadas em missão. Agora estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, quanto à relação da “classe média” dos anjos com a contemplação e a missão.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
Os anjos se dividem entre aqueles que assistem e aqueles que seguem em missão. Todo anjo deve necessariamente estar ou assistindo, ou enviado em ministério, conforme a interpretação de Daniel 7, 10b). Aqueles que assistem não são enviados em missão, e aqueles que são enviados não assistem (no sentido próprio da palavra). Quer dizer, os que assistem têm a função de desvendar a vontade de Deus e iluminar com ela os inferiores. Ora, diz o argumento, o Pseudo-Dionísio ensina que os anjos das hierarquias médias são iluminados pelos anjos superiores. Logo, os anjos da classe média não são assistentes e iluminadores; logo, eles são missionários junto aos seres humanos, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Vimos, no último texto, que Tomás explica que, dentre os anjos das classes intermediárias, os Principados e Potestades são enviados em missão, mas não as Dominações. Por um lado, Tomás aceita que eles não são propriamente assistentes de Deus, porque não pertencem às classes superiores (Serafins, Querubins e Tronos); mas tampouco são diretamente enviados em missão junto a nós. Na verdade, eles organizam as missões dos anjos que estão abaixo deles, planejam, estruturam e orientam. São, portanto, anjos missionários, mas não entre nós, senão entre os outros anjos, como os arquitetos, nas construções, não trabalham diretamente com os tijolos e o cimento, mas apenas organizam os trabalhadores manuais que lhes são subordinados.
O segundo argumento objetor.
São Gregório, grande autoridade em matéria de anjos, ensinava que há mais anjos missionários do que anjos assistentes diretamente junto a Deus. Mas se os anjos das hierarquias intermediárias não fossem enviados em missão, então haveria seis ordens de assistentes e apenas três ordens de missionários, o que iria contra o ensinamento daquele santo Papa. Assim, conclui o argumento, as classes intermediárias dos anjos são, todas, enviadas em missão a nós.
A resposta de Tomás.
Todo o debate gira em torno da interpretação daquela passagem, tantas vezes citada aqui, do Livro de Daniel (7, 10b): Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!
Para São Gregório, a primeira parte desse versículo não tem o significado de uma multiplicação, mas de uma participação: ele lê o texto como se significasse que, a cada milhar, um milhar é de servidores. Quer dizer, é indefinido o número dos que são enviados em missão, já que, dentre todos os anjos que podem ser enviados, todos o são. Com isto, ele quer significar que o número dos anjos missionários é incontável.
Mas quando ele lê a segunda frase, ele lê de fato como uma multiplicação: dezenas de milhares o assistiam. Assim, o número dos assistentes, embora muito alto, não é indeterminado nem incalculável, para São Gregório. E por isso ele conclui que o número dos anjos missionários é muito maior do que o número de anjos assistentes. E esta é uma interpretação perfeitamente válida, diz Tomás. Ela tem uma influência platônica: parte da ideia de que: quão mais perfeitas são as coisas, quanto mais elas se aproximam de Deus, menor em número elas são. De tal modo que os anjos assistentes, sendo mais perfeitos e mais próximos de Deus, são em menor número do que os missionários.
Mas há uma opinião diferente e também perfeitamente respeitável, que é a opinião do Pseudo-Dionísio, grande autoridade em anjos, também. Este grande escritor eclesiástico pensa que o referido versículo do Livro de Daniel (7, 10) deve ser lido como multiplicação mesmo. Assim, os que são missionários são milhares de milhares, mas os que assistem são dezenas de milhares de milhares, ou seja, são em número muito maior. E isto se explica, diz o Pseudo-Dionísio, porque Deus sempre multiplica muito mais aquilo que é maior e melhor: basta observar, diz ele, que os corpos celestes são em número imensamente maior do que aquilo que existe na Terra. De modo análogo, diz ele, os anjos assistentes são contados como dezenas de milhares de milhares, mas os anjos missionários são apenas milhares de milhares.
Ambas as leituras têm, portanto, boa fundamentação teológica, de modo que Tomás não escolhe nem afasta nenhuma das duas.
- Concluindo.
Tomás não se apega a filigranas em suas explanações: encontra duas interpretações bíblicas contrárias e, vendo que são ambas razoáveis, embora não possam ser ambas simultaneamente verdadeiras, na impossibilidade de refutar uma delas, permite que o leitor faça suas escolhas.
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