- Introdução.
Já vimos que o envio em missão, em favor das criaturas materiais, é próprio das hierarquias mais baixas dos anjos; os anjos mais elevados, como vimos, são fundamentalmente assistentes de Deus junto ao Seu trono, conhecendo profundamente sua vontade e iluminando os inferiores.
A questão, agora, envolve os anjos intermediários: os que estão nas ordens acima dos que se relacionam diretamente conosco, mas estão abaixo dos que servem diretamente e exclusivamente a Deus. Como ficam estes? são enviados em missão ou contemplam diretamente a vontade de Deus para iluminar os inferiores? Como se pode entender essa “classe média” dos Santos Anjos? É o que veremos agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial propõe que essa “classe média” dos anjos (que, como vimos, envolve as Dominações, as Potestades e os Principados, para a maioria dos autores) estão todos disponíveis para as missões divinas, indiferentemente. Assim, os anjos das hierarquias inferiores (Anjos, Arcanjos e Virtudes, de acordo com a maioria dos autores) estariam todos disponíveis para as missões, mas também estariam todos os anjos pertencentes à “classe média” da hierarquia estariam completamente disponíveis para missões diretamente em nosso favor, propõe esta hipótese. Assim, somente os anjos das ordens supremas (Serafins, Querubins e Tronos) seriam dedicados a assistir Deus diretamente, contemplando-o e iluminando os outros, mas todas as outras ordens, as intermediárias e as inferiores, seriam apenas dedicados ao serviço e à missão em nosso favor. Há dois argumentos que tentam defender esta hipótese inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Todos os anjos caem numa de duas categorias: ou são anjos que assistem, ou são anjos que desempenham um ministério. Isto é palavra das Escrituras; em Daniel 7, 10 a palavra nos diz: “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!”. Ora, os anjos mais altos assistem a Deus, penetram na Sua vontade e, conhecendo-a profundamente, iluminam os anjos a eles inferiores. Os anjos das ordens inferiores, embora contemplem a Deus, não assistem como os superiores, e são por eles iluminados. Quanto às ordens intermediárias, segundo o Pseudo-Dionísio, eles são iluminados pelos das ordens superiores. Logo, não são assistentes diretos como os superiores. Portanto, são missionários como os inferiores, portanto, os anjos das ordens intermediárias são enviados em missão, e não são anjos assistentes como os superiores, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O argumento lembra que, segundo São Gregório, existem muito mais anjos sendo enviados em missão do que assistindo exclusivamente ao Trono de Deus. Mas, uma vez que são nove as grandes ordens de anjos, para que houvesse mais anjos missionários do que assistentes seria preciso que houvesse mais ordens sendo enviadas em missão do que assistindo. Mas se as três ordens intermediárias fossem assistentes (e não missionários) haveria seis ordens assistindo e apenas três em missão, o que significa que São Gregório estaria errado e haveria mais assistentes do que missionários. Mas São Gregório, que era Papa e grande autoridade no assunto, não podia estar errado neste particular. Logo, as ordens intermediárias devem ser missionárias e não assistentes, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra, como lembramos, é aquele que não aceita a hipótese controvertida inicial, e tenta provar que ela está errada. Aqui, o argumento lembra os ensinamentos do Pseudo-Dionísio, que ensina que, expressamente quanto à ordem das Dominações, que é uma das ordens da classe média dos anjos – uma das ordens intermediárias – eles não estão sujeitos a nenhum tipo de submissão. Ora, submissão significa justamente estar sob missão. Portanto, as ordens intermediárias nunca estão sob missão, conclui o argumento.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
É próprio de algumas ordens de anjos ser enviado em missão. Para saber quais são as ordens angélicas às quais a missão é determinada, diz o Pseudo-Dionísio, devemos examinar os nomes das ordens: aquelas ordens que têm nomes que significam alguma propriedade de execução de missões.
As ordens inferiores envolvem os simples anjos, os arcanjos e as Virtudes. Esses três nomes significam qualidades relacionadas à execução de missões. De fato, o nome anjo significa mensageiro, e arcanjo significa grande mensageiro. Levar mensagens é missão, então essas ordens são missionárias junto a nós. De maneira semelhante, o nome Virtudes significa capacidade de realizar alguma tarefa. É um nome que implica, portanto, capacidade de ser enviado em missão.
Dentre as intermediárias, os Principados e as Potestades também têm nomes que envolvem poder de realizar missões. A potestade, como a virtude, significa força para realizar atos, e o principado significa ser o primeiro entre os que lutam, como ensina São Gregório.
Mas a ordem das Dominações realmente não envolve uma noção que implique a execução de alguma missão direta entre nós, humanos. Quem domina não está sob a dominação de outro, portanto não está em missão. As Dominações são aqueles anjos que organizam e comandam outros, e portanto sua atividade consiste em coordenar as ordens de anjos que efetivamente estão em missão, sem que eles próprios estejam.
Deste modo, conclui Tomás, há cinco ordens de anjos, as cinco mais baixas, que estão disponíveis para missões: Anjos, Arcanjos, Virtudes, Principados e Potestades. E há quatro ordens que assistem diretamente a Deus: Serafins, Querubins, Tronos e Dominações.
- Encerrando por enquanto.
Pode parecer um preciosismo a nossos olhos essa insistência em conhecer detalhes sobre a estrutura de organização dos anjos, suas ordens, suas missões, sua configuração. Mas tudo isto envolve uma verdadeira compreensão política do Reino de Deus, que deve determinar, por analogia, a organização dos reinos terrenos, para Tomás e para os antigos. Há os que contemplam, isto é, os que estão mais perto de Deus, e estes devem estar hierarquicamente acima dos missionários, que lidam com a vida ativa. Para nós, que vivemos num estado laico, talvez seja difícil entender isto. Mas não estamos falando, aqui, de sociedades, como a nossa, em que o domínio sobre a economia, sobre as vontades e sobre os bens materiais é o objetivo (nem sempre declarado) dos políticos. Estamos falando de uma estrutura na qual a glória de Deus é o bem mais alto. E ainda deveria ser, para nós, sem que, no entanto, abríssemos mão da laicidade do Estado: conquista importantíssima da nossa era. Se há alguma superioridade na contemplação, deve ser a superioridade na proposta e na aceitação espontânea do bem.
No próximo texto examinaremos a resposta de Tomás aos dois argumentos objetores.
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