1. Retomando para concluir.

O envio à missão não causa um desligamento da contemplação: os anjos são criaturas, são limitados, mas Deus não é. De tal modo que, uma vez optando pelo Reino, os anjos passam a contemplar Deus pela Sua essência, e não perdem essa contemplação, mesmo quando enviados em missão.

Mas é claro que aqueles anjos que não são enviados em missão, mas que têm como centro da vida a própria contemplação de Deus atingem uma penetração muito mais aguda da Sua vontade e, dada a sua condição de perfeição hierárquica, passam a iluminar os inferiores, inclusive os que estão em missão. 

Deste modo, ficaram respondidos, no texto anterior, o primeiro e o segundo argumentos objetores. O primeiro, como lembramos, propunha que os anjos que são enviados também assistem, e que não haveria diferença entre o modo pelo qual contemplam a Deus e o modo pelo qual aqueles que se dedicam apenas a assistir o fazem. De fato, ambos contemplam, ambos assistem, mas não do mesmo modo, como reiteramos acima. A primeira objeção fica, assim, parcialmente acolhida, mas também parcialmente corrigida.

A segunda objeção também ficou respondida pela própria resposta sintetizadora. A objeção cita o Livro de Tobias (12, 15) para reiterar que, diante da fala do arcanjo Rafael, não haveria como negar que o Arcanjo Rafael está simultaneamente em missão e em contemplação, assistindo Tobias em sua jornada e assistindo perante o Trono de Deus. Mas, da resposta de Tomás, fica claro que, embora o anjo enviado em missão não cesse de contemplar Deus face a face e, de certo modo, assisti-lo, não o faz da mesma maneira nem com a mesma penetração que aqueles que se dedicam exclusivamente a assisti-lo, e cuja missão é justamente iluminar os outros anjos com respeito à vontade de Deus.

Agora examinaremos as duas últimas objeções e as respectivas respostas de Tomás.

  1. Os dois últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor tenta comprovar a hipótese inicial de que os anjos são simultaneamente enviados em missão e assistentes do Trono de Deus com outro trecho das Escrituras. Aqui, está em jogo o Livro de Jó 1, 6: “Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles”. Ora, se Satanás, que é um demônio, é visto assistindo ao Trono de Deus, com muito mais razão temos que admitir, diz o argumento, que qualquer dos Santos Anjos enviados em ministério assiste ao Trono de Deus, porque não teria sentido imaginar que Satanás estivesse mais perto de Deus do que qualquer dos Santos Anjos, ainda que de ínfima categoria; logo, os anjos enviados em ministério assistem ao Trono de Deus do mesmo modo que os anjos contemplativos, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Temos que interpretar cuidadosamente esta passagem. As Escrituras não dizem, nesta passagem, que Satanás é um dos anjos que “contemplam” ou que “assistem”, no sentido de estar pronto para conhecer a vontade de Deus e cumpri-la; o que está dito simplesmente é que ele veio ao Trono junto com os Santos Anjos, no meio deles – uma vez que, como sabemos, Satanás também é um anjo, embora decaído. A passagem não prova que qualquer anjo tenha a mesma intensidade e profundidade na contemplação e no serviço, portanto. 

O quarto argumento objetor.

A única forma de imaginar que os anjos inferiores não assistem diretamente ao Trono de Deus é imaginar a hierarquia no Reino dos Céus é tão rígida que eles apenas poderiam contemplar e conhecer a vontade de Deus por meio dos superiores, que, por sua vez, recebem-na de anjos ainda mais elevados, e que, por fim, são iluminados por apenas um anjo supremo, que seria o único a ver Deus por essência diretamente e conhecer Sua vontade sem depender da iluminação de outro anjo. Mas isto iria contra a palavra revelada das Escrituras, que, em Daniel 7, 10b, nos ensina que “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!”, e não apenas um único anjo supremo. Deste modo, devemos admitir que todos os anjos assistem Deus do mesmo modo, contemplando-o com a mesma intensidade e penetração, conclui imprudentemente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Todos os Santos Anjos assistem, de algum modo, o Trono de Deus, e podem vê-lo em Sua essência direta e imediatamente, mas não com a mesma intensidade nem com a mesma penetração. Os anjos da primeira e mais elevada hierarquia contemplam-no de um modo muito mais direto e imediato do que todos os outros, penetrando com muito mais profundidade em Sua maravilhosa vontade e iluminando os inferiores naquilo que estes não alcançam diretamente. Isto é muito parecido com uma estrutura de governo humano, na qual há servidores que estão muito mais próximos do Rei do que outros, porque servem com exclusividade e gozam da sua confiança plena, de modo que podem conhecer melhor sua vontade e orientar os demais servidores. 

  1. Concluindo. 

Deste modo, concluímos que todos os Santos Anjos contemplam, mas não do mesmo modo nem com a mesma penetração. A lógica do Reino envolve não somente o valor da contemplação como mais elevado do que o valor da missão, mas também a interdependência que não exclui o contato imediato com Deus. No céu não parece haver a lógica do “Solus Deus”, mas a lógica da necessidade de fraternidade eclesial.