1. Retomando.

Vida ativa, vida contemplativa. Servir a Deus para os irmãos, servi-lo diretamente, aos pés de Seu trono. Nossa mentalidade contemporânea tende a não compreender aquilo que Aristóteles – que não conhecia a fé cristã, até porque viveu mais de três séculos antes de Jesus – já ensinava: a vida contemplativa é superior em felicidade à vida ativa. 

A pergunta é: pode-se ser ativo, pode-se viver no serviço aos outros sem perder a fé, sem perder a conexão com Deus? Ou, perguntando mais diretamente: em que medida os que estão em vida ativa podem simultaneamente contemplar? 

Vimos, no texto anterior, a ideia de que mesmo aqueles que estão em missão estão também, simultaneamente, assistindo ao Trono de Deus, do mesmo modo que aqueles outros que não estão enviados em missão. 

Mas isto é algo que torna a missão indiferente para os fins da contemplação, e de certo modo diminui a condição de quem está aos pés de Deus numa entrega total. nenhum dos dois extremos (nem a ideia de que a vida contemplativa monopoliza a graça, nem a ideia de que a vida ativa tem a mesma dignidade de proximidade com Deus que a contemplativa) parece ser adequada. É o que veremos agora, estudando a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Há anjos que se ocupam de assistir a Deus em Seu trono, diretamente, contemplando-o e conhecendo de perto a sua vontade. E há anjos que são enviados como seus ministros em missões que nos beneficiam. Isto se assemelha aos reinos humanos, nos quais há aqueles que formam a corte do Rei e estão próximos a ele, servindo-o diretamente, e os seus ministros, que ele envia para missões junto ao seu povo ou mesmo ao estrangeiro. 

É claro que aqueles que estão em missão não estão desligados do Rei; continuam vinculados a ele e cumprem suas ordens por amor a ele. Quando administram seu povo, ou quando se relacionam com os estrangeiros, mantêm sempre o vínculo que os une com o mandante de sua missão. Deste modo, podemos dizer que todos os anjos missionários, ou ministros, são também assistentes ou contemplativos em algum grau, porque estão sempre vinculados ao autor de sua missão. É por isso que São Gregório ensina (como foi citado pela primeira objeção, no texto anterior) que aqueles que são mandados para alguma missão exterior, para a nossa salvação, ainda assim assistem, contemplam a face do Pai. Não teria sentido que aqueles que administram o Reino em nome de Deus estivessem inteiramente desvinculados do Seu coração. E assim a primeira objeção, justamente aquela que cita São Gregório para dizer que todos os anjos, mesmo os missionários, contemplam, fica parcialmente acolhida, aqui: os que são enviados também contemplam, mas não com a mesma profundidade, como veremos a seguir.

Mas é claro que aqueles cuja vida consiste em rodear o trono e servir só a Deus estão mais perto do Seu coração. São, ademais, os espíritos mais perfeitos, mais elevados na hierarquia celeste, uma vez que, como vimos no artigo anterior, são os espíritos mais simples aqueles que são enviados em missão. 

Deste modo, os que estão assistindo diretamente aos pés de Deus têm maior acesso ao Seu coração e conhecem com mais intimidade os detalhes de Sua vontade maravilhosa. Dentre estes, os espíritos angélicos mais perfeitos são os das esferas mais elevadas da hierarquia, que têm uma inteligência mais capaz de penetrar as profundezas divinas e iluminar os inferiores. Portanto, os anjos inferiores, missionários, também contemplam, mas são menos capazes de penetrar e entender a intimidade divina, e precisam ser iluminados pelos superiores para alcançar mais plenamente essa verdade do amor. E isto responde à segunda objeção, aquela que lembra que o Arcanjo Rafael, ao se revelar a Tobit e Tobias, declara ser um dos que assistem na presença do Senhor (Tb 12, 10). Ele o é, de fato, mas isto não exclui a existência de outros espíritos muito mais elevados que ele, cuja assistência a Deus é mais direta e profunda, sem excluir a sua própria. 

Assim, podemos dizer: os anjos enviados em missão também contemplam, mas não do mesmo modo nem com a mesma penetração dos que servem aos pés do trono.

3. Conclusão.

No velho embate, digamos figurativamente, entre as Martas e as Marias (Lc 10, 38-42), o problema com Marta não era tanto o de estar ocupada com muitas coisas, mas a dispersão que isto lhe causava. Marta andava distraída, esquecia-se daquilo que deveria estar em primeiro lugar e ainda queria que o Mestre censurasse Maria por estar aos seus pés, ouvindo-o. É claro que o serviço doméstico e a alimentação do Mestre deve ser providenciada, e é claro que aquele que o faz não está distante do coração do Mestre: está cumprindo sua missão. Mas não deve estar distraído nem desatento a ele, nem deve se esquecer que a “melhor parte” sempre foi estar aos pés de Deus. Quem o assiste ao Trono goza mais intensamente de Sua intimidade, mas quem o serve em missão não deve afastar dele o coração.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.