- Introdução.
Ainda em jogo, aqui, a ideia da contemplação como serviço direto a Deus. Será que ela se opõe à vida ativa da missão? Já vimos que alguns anjos são enviados ao serviço das criaturas, ou seja, para o governo do universo criado e a nossa salvação. Outros, mais elevados e perfeitos, servem diretamente a Deus em Seu trono, assistindo-o: os anjos contemplativos são chamados de “aqueles que assistem diante do trono de Deus”, em oposição àqueles que são enviados em missão. É claro que existe uma diferença entre os dois; são serviços diversos, e na concepção altamente hierárquica dos antigos, tanto seria necessário proclamar que aqueles que seguem em missão, na vida ativa de serviço aos irmãos, mesmo assim de algum modo contemplam a Deus quando estão a seu serviço “externo”, quanto reafirmar que aqueles outros que permanecem em contemplação direta, ou na vida contemplativa, têm um modo mais alto, mais perfeito de servir, porque não se voltam às criaturas, mas a Deus mesmo. Embora, é claro, o serviço caridoso às criaturas não seja algo ruim – justamente o contrário – ele não está acima da contemplação, o que, em todos os tempos, sempre causou debates.
Mas vamos ao artigo.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida propõe, para provocar o debate, que não haveria nenhuma diferença essencial entre os anjos assistentes, que estão ao redor do trono de Deus e não são enviados a ministérios em favor das criaturas, e anjos ministrantes, que são enviados a nós. Todos estes, independentemente de serem assistentes ou ministrantes, contemplam a Deus do mesmo modo e estão perante Ele com a mesma penetração contemplativa. Esta hipótese polêmica, que será, depois, moderada por Tomás na sua resposta sintetizadora, terá, antes disso, quatro argumentos objetores que tentam comprovar que ela é verdadeira sem ressalvas. Examinemo-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita São Gregório Magno, grande autoridade quando o assunto diz respeito aos anjos. Este antigo Papa e doutor da Igreja ensina, em uma de suas homilias, que os anjos são enviados em missão e simultaneamente assistem, porque, embora o espírito dos anjos, sendo criatural, é limitado em seus poderes, o Espírito de Deus não o é, de modo que a missão não se opõe à contemplação, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Sabemos, pelas Escrituras, que o anjo Rafael foi enviado a Tobias em missão; ocorre que, quando se revelou, o próprio Rafael, que estava em missão, declarou (Tb 12, 15): “Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor”. Logo, o fato de que ele fora enviado em missão não o impediu de assistir na presença do Senhor, segundo suas próprias palavras. Logo, os anjos missionários também assistem na presença de Deus, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Sabemos que qualquer um dos Santos Anjos, independentemente de sua posição na hierarquia celeste, está mais perto de Deus do que Satanás. Ora, as Escrituras atestam que Satanás também é um assistente de Deus, como se vê no Livro de Jó (1, 6): “Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles”. Portanto, se mesmo um demônio como Satanás assiste a Deus, muito mais os santos anjos missionários o fazem, do mesmo modo que todos os santos anjos, conclui o argumento imprudentemente.
O quarto argumento objetor.
Se pensarmos a hierarquia celeste de modo muito rígido, teríamos que imaginar que os anjos inferiores não contemplam a Deus diretamente, mas apenas conhecem Sua vontade pelo anjo que é imediatamente superior a eles. Ora, se fosse assim, cada anjo só receberia suas iluminações daquele que é imediatamente superior, e assim por diante, até que o mais superior de todos as recebesse diretamente de Deus; neste caso, teríamos que imaginar que apenas um anjo, aquele que é o mais perfeito e superior a todos, é que assiste a Deus em Seu Trono e contempla Sua vontade. Mas as Escrituras nos ensinam, no Livro de Daniel (7, 10b) que “milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!”. Portanto, não há essa hierarquia na assistência dos anjos a Deus, e todos eles, indiferentemente, o assistem, estando ou não enviados em missão, conclui apressadamente o argumento.
- O argumento sed contra.
Agora, apresenta-se o argumento sed contra, aquele que nos mostra alguma razão autoritativa para não adotar simplesmente a hipótese inicial.
Aqui, o argumento cita mais uma vez a autoridade de São Gregório, que, comentando aquele versículo do Livro de Jó (25, 3a: “Pode ser contado o número de suas legiões?”) nos ensina: “essas legiões são formadas por aqueles que não foram enviados para certos ministérios entre os homens”. logo, conclui o argumento (embora também de modo incompleto), aqueles anjos que foram enviados em ministério aos seres humanos não assistem a Deus em seu trono de modo algum.
- Encerrando.
O ponto da questão é muito sutil: em que medida os contemplativos estão também a serviço? E em que medida os de vida ativa estão de algum modo em contemplação? Esta pergunta ainda é relevante para nós, hoje, quando tantos cristãos estão servindo a Deus em funções estatais, empresariais ou econômicas, com encargos familiares e comunitários, enquanto tão poucos estão no serviço contemplativo, sacerdotal ou religioso mesmo. Como negar que quem contempla também serve e quem serve também contempla, sem negar a diferença entre esses dois modos de estar no Reino?
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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