1. Retomando.

É preciso lembrar sempre que o mundo espiritual não existe por causa de nós, seres materiais; ele tem uma realidade própria, uma consistência própria, e está acima do nosso. Não podemos, portanto, imaginar que, de algum modo, a vida contemplativa, que é uma vida espiritual, esteja no mesmo plano, ou num plano inferior, com relação à vida ativa, que é a vida que envolve a transformação do mundo material. É por isso, por estar atento a esta hierarquia, que a tradição sempre proclamou que o serviço ministerial dos anjos em nosso universo era assunto da hierarquia mais baixa, não da mais alta. Assim, somente os anjos e arcanjos são enviados a nós em missão, mas não os espíritos de ordem superior.

A partir destes princípios, examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra a passagem bíblica de Hebreus 1, 14: “Não são todos os anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?

Ora, se as coisas são assim, então há base bíblica para afirmar que absolutamente todos os anjos, independentemente de grau hierárquico, podem ser mandados ao nosso mundo com algum ministério, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há duas maneiras para entender esta passagem bíblica e interpretá-la adequadamente.

 A primeira maneira envolve compreender que a noção de “anjo”, aí, é genérica, e inclui todas as missões confiadas a todos os anjos. De fato, diz Tomás, se pensarmos na própria Trindade Santa, nem todas as missões das pessoas são apontadas “para fora”, para as criaturas. Algumas das missões são internas, e envolvem a relação espiritual de amor entre as Pessoas. Assim, podemos deduzir que nem todas as missões das criaturas espirituais que chamamos genericamente de “anjos” sejam relacionadas conosco (seres materiais): na verdade, a maioria das missões deles dizem respeito a outros anjos, aos quais os anjos mais elevados acompanham e iluminam com aquilo que importa à condução do Reino de Deus e ultrapassa as capacidades do anjo inferior. Portanto, a referida passagem bíblica não deve ser entendida como se todos os anjos estivessem disponíveis para receber missões em nosso mundo.

a segunda maneira é entender que a passagem bíblica faz referência apenas aos “anjos” em sentido estrito, isto é, aos seres espirituais mais baixos dentre todos os da hierarquia celeste, a quem, segundo a tradição, foi confiada a missão de transmitir a Lei Mosaica. Como a Lei nova, a Lei evangélica, veio por Cristo, que é Deus mesmo, isto evidenciaria a superioridade absoluta da nova lei sobre a segunda. Em qualquer dos dois casos, a passagem bíblica não prova que todos os anjos, indiferentemente, estejam disponíveis para ministérios em nosso mundo, conclui Tomás. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento diz respeito a outra passagem bíblica, especificamente Isaías 6, 6, em que as Escrituras informam que um “Serafim” foi enviado para purificar os lábios do Profeta. Ora, como sabemos, os Serafins pertencem à mais elevada das ordens angélicas. Logo, se eles estão disponíveis para missões entre nós, qualquer anjo, de qualquer ordem, também o estará, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Segundo o Pseudo-Dionísio, esta passagem bíblica chama este anjo de “Serafim” porque esta palavra significa “aquele que queima”; como os lábios do Profeta foram queimados, no processo de purificação, então o anjo foi chamado assim, mas não por pertencer aos Serafins, mas porque era um anjo que queima

Há outro modo de interpretar, diz Tomás: podemos pensar que o Serafim é responsável por queimar de amor os lábios do Profeta, mas não diretamente, senão utilizando-se de anjos que têm a missão de intervir diretamente em nosso mundo. Seria como aqueles padres que cumprem missões delegadas pelo Papa aos seus bispos, e se diz deles que estão no lugar do próprio Papa, compara Tomás. 

Em qualquer caso, diz Tomás, não se trata, aqui, de um Serafim com uma missão em nosso mundo, mas de uma missão, digamos assim, “seráfica” de um simples anjo, conclui. 

O terceiro argumento objetor.

Sabemos que as Pessoas divinas superam infinitamente qualquer anjo em poder e dignidade, porque são Deus e não criaturas. Ora, sabemos que as Pessoas divinas são enviadas em missão. Logo, qualquer anjo, que está abaixo das Pessoas divinas, pode nos ser enviado em missão também, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Na verdade, trata-se, aqui, de uma limitação de linguagem mesmo: quando falamos em missão das Pessoas divinas, não estamos usando a palavra missão no mesmo sentido que usamos com relação aos anjos. Há um só Deus, e portanto todas as Pessoas são um só e mesmo Deus. A rigor, portanto, as Pessoas divinas estabelecem relações ad extra conosco, e chamamos esse modo de ser da Trindade de missão. Os anjos são enviados a nós em missão de um modo diferente, que convém apenas aos anjos das ordens inferiores, como já foi dito.

O quarto argumento objetor.

A única razão, diz o argumento, para defender que nem todos os anjos são enviados em missão seria o de admitir uma hierarquia tão rígida entre eles que eles sempre e apenas se dirigissem ao imediatamente inferior, para determinar e delegar a missão. Assim, quando um anjo de ordem superior recebesse uma missão, ele a delegacia ao que é imediatamente inferior, e este a delegacia ao imediatamente inferior, e assim por diante, até que o anjo mais baixo na hierarquia, o último em perfeição dentre todos os anjos, e ele sozinho, já que não há dois anjos iguais, cumprisse diretamente a missão entre nós. 

Ora, se as coisas fossem assim, então a missão sempre seria cumprida de fato por apenas um anjo, o menor de todos no céu. Mas isto iria contra as Escrituras, que dizem (Dn 7, 10b): “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!”. Logo, todos os anjos devem estar disponíveis para efetivamente cumprir as missões, e não apenas o último dentre eles, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não podemos ter dúvida de que há diversos graus na hierarquia dos anjos. Mas isto não significa que apenas o último anjo seja efetivamente enviado em missão; significa, apenas, que, ao designar missões, isto é feito com atenção à proporção entre o grau do anjo e o grau da missão que está sendo designada, de tal modo que os ministérios mais altos sejam atribuídas aos anjos mais elevados, e as mais baixas aos inferiores, lembra Tomás. Mas não se pode, a partir daí, concluir que todo e qualquer anjo possa ser enviado em missão ao nosso mundo, afirma ele.

  1. Concluindo.

O céu vive um dinamismo, todos estão sempre a serviço do amor. Mas esse serviço nem sempre envolve o envio a nosso universo material, nem é esse o encargo mais importante entre eles. É estonteante, pois, imaginar a dimensão das coisas, no céu, e a estrutura do amor que se desenvolve ali.