1. Retomando.

Sabemos que Tomás tem uma visão profundamente hierárquica da criação: o universo é como um grande exército, o exército do amor, que está nas mãos de Deus. Existe, é claro, a ordem da natureza, que envolve os níveis de complexidade no ser (seres inanimados, vegetais, animais, seres humanos, anjos), e que é, em si mesma, hierárquica. Mas existe a ordem do amor, que envolve a graça e o serviço, na qual um ser humano, como Maria Santíssima, pode ser declarada “plena de graça” (Lc 1, 28) de um modo que nenhum anjo jamais ouviu de Deus, e estar colocada hierarquicamente acima de todos os anjos como predileta entre todas as criaturas. 

Na ordem do amor, alguns são enviados em missão por Deus, porque ele mesmo quis se valer de suas criaturas como colaboradoras de Sua obra maravilhosa. Isto está, de certo modo, registrado no primeiro versículo do Livro do Apocalipse: “Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João; Vemos, aí, que Deus envia o Filho, que, por sua vez, envia o Anjo a João para que João nos instrua. Eis o modo pelo qual Deus se relaciona hierarquicamente com suas criaturas.

A pergunta, aqui, diz respeito às missões que os anjos recebem, em nosso mundo. De fato, sabemos, pelas Escrituras, das missões do arcanjo Rafael, no Livro de Tobias, do Arcanjo Gabriel, em Lucas 1, e do Arcanjo Miguel em Apocalipse 12. Sabemos também dos serafins que revelaram a missão a Isaías, no capítulo 6 de seu livro, dentre tantas passagens bíblicas em que anjos se revelam como missionários de Deus para nós. Resta saber: todos os anjos podem ser enviados, ou esta condição está reservada àqueles de menor hierarquia, enquanto os mais elevados têm missões que envolvem apenas o próprio mundo angélico? 

É o que vamos saber agora, examinando a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Sabemos, e já vimos, quão hierárquica é a visão que Tomás tem da criação. Mas ele também sabe que a ordem da graça, embora pressuponha sempre a ordem da natureza (Deus nunca desrespeita aquilo que Ele mesmo criou e ordenou), supera a ordem natural com muita liberdade, porque a ordem do amor é sempre mais elevada do que a ordem da física. É por isso que Jesus é livre para fazer seus milagres diretamente, sem que isto implique a supressão da ordem natural, mas sem que isto impeça o amor de agir livremente. Assim, Jesus pode ressuscitar Lázaro sem alterar a ordem da vida e da morte, pode curar um cego sem que isto passe por um tratamento cirúrgico qualquer – nestes casos, Deus supera a ordem da natureza para nos dar a conhecer, de modo perceptível para nós, que a ordem da graça é mais elevada. 

Mas a natureza, lembra Tomás, não se limita às coisas visíveis. Os anjos também têm natureza criatural, e, pela ordem da natureza, são poderosos sobre as coisas materiais, e agem sobre elas. Anjos e demônios têm poder causal sobre a matéria, podem deslocá-la, podem provocar fenômenos, mas não podem realizar milagres, porque não têm poder para superar a ordem natural. 

Também devemos lembrar que Deus quer se valer de suas criaturas, mas ele não precisa delas. Deus pode se manifestar e se revelar diretamente aos seres humanos, como fez em Jesus, sem precisar da intermediação dos anjos (é justamente o que nos ensina o segundo capítulo da Carta aos Hebreus). Também os anjos mais elevados poderiam se dirigir diretamente aos seres humanos, sem precisar necessariamente dos inferiores. 

Por causa deste aspecto (a liberdade de Deus frente a suas criaturas, a liberdade dos anjos superiores frente aos inferiores) é que algumas pessoas, alguns estudiosos, chegaram a afirmar que Deus poderia mandar um anjo de uma ordem elevadíssima para realizar diretamente alguma tarefa entre os seres humanos, mesmo que essa tarefa pudesse ser eficazmente realizada por um anjo inferior. Mas Tomás acha que esta afirmação não faz sentido

De fato, diz Tomás, sempre que a ordem da natureza é desconsiderada por Deus, isto se dá porque o milagre, de algum modo, nos insere na ordem da graça e manifesta o amor de Deus, visivelmente, a nós, humanos. Ora, a ordem da natureza pode ser desconsiderada pela ordem da graça, quando isso é necessário para manifestar o amor de Deus, tornando-o perceptível a nós. Mas que razão teria Deus para desconsiderar a própria ordem da graça? Nenhuma. Desconsiderar a ordem da graça seria simplesmente um ato gratuito de exibição de poder, de quebra de hierarquia, e Deus não age assim. 

Agora, lembremos que os Santos Anjos se organizam pela ordem da graça, e não simplesmente pela ordem da natureza. É por isso que Maria Santíssima pode ser a rainha dos anjos, embora, na ordem da natureza, ela seja muito inferior a eles. Mas ela é plena de graça, e portanto, no Reino dos Céus, supera qualquer outra criatura.

Assim, Deus nunca envia uma criatura superior, na ordem da graça, para realizar uma missão que uma criatura inferior nessa ordem possa realizar. Não haveria nenhuma vantagem, para o Reino, em romper a ordem da graça, porque isto nem sequer seria manifesto para nós, e não revelaria a ordem do Reino, mas manifestaria, ao contrário, uma desordem que não é compatível com ele. 

Ora, segundo nos ensinam as grandes autoridades quanto aos anjos, que são o Pseudo-Dionísio e o Papa São Gregório, não há nenhuma missão à qual os Santos Anjos possam ser enviados ao nosso mundo que não possa ser realizada pelos anjos das ordens inferiores. Mesmo o anúncio da encarnação, que é o mister mais alto que um anjo poderia receber na terra, foi realizado pelo Arcanjo Gabriel, que é de uma das ordens mais baixas, no céu – a ordem dos arcanjos. 

Assim, os Santos Anjos que estão acima da ordem dos arcanjos não são enviados em missão a nós; eles se ocupam de serviços compatíveis com sua enorme dignidade, serviços que dificilmente poderíamos sequer imaginar.

  1. Encerrando.  

Como é bela a ordem da graça, e como o próprio Deus a respeita, observa e atende! Não é por outra coisa que tantos fiéis têm uma grande veneração por Maria Santíssima: ela é a maior criatura, na ordem da graça, e por isso sempre será considerada, por Deus, como aquela que nos traz Jesus.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.