- Introdução.
Eis aqui mais um daqueles artigos que parecem despropositados aos nossos olhos, hoje: Tomás vai debater, a partir das visões do Pseudo-Dionísio e de São Gregório Magno, quais anjos, de quais hierarquias celestes, são efetivamente enviados ao nosso universo, em missão divina, ou seja, quais deles têm ministérios a exercer por aqui.
Mas há, aqui, muita coisa em jogo, para os antigos. Basicamente duas coisas estão em jogo, aqui: 1) por um lado, estabelecer a importância e o valor do mundo espiritual, angélico, que tem sua própria consistência ontológica e não existe apenas em função do nosso – ou melhor, nem sequer existe principalmente em função do nosso. A relação do mundo das hierarquias celestes com o nosso se dá apenas nas esferas menos elevadas, porque todas as outras esferas ocupam-se do próprio Reino de Deus em sua transcendência. Ou seja, a vida intelectual não está apenas a serviço da vida material, biológica, mas tem um sentido em si mesma. 2) A outra razão é harmonizar o dado bíblico (que menciona expressamente arcanjos e serafins desempenhando missões), por um lado, e o pensamento dos grandes teólogos do passado, autoridades como o próprio Pseudo-Dionísio e São Gregório, por outro. Tomás respeita, não é um demolidor dos seus predecessores, salvo quando são adversários da verdade – o que não é o caso destes dois.
Mas estamos nos alongando. Vamos examinar o debate.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese controvertida inicial, que visa provocar o debate, é a de que todos os anjos exercem algum tipo de ministério em nosso universo material, ou seja, todos estão a serviço de alguma missão mais ou menos permanente, instituída por Deus em nosso favor. Não haveria, pois, nessa visão, algum anjo que não estivesse vinculado a alguma missão em nosso favor, ou que não pudesse ser vinculado a uma missão assim, por mais alto que fosse em perfeição, dentro da hierarquia dos anjos. Há quatro argumentos iniciais que tentam comprovar esta tese provocadora.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra o que a Carta aos Hebreus (1, 14) já nos ensinava: “Não são todos os anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?”
Ora se isto é verdade, então todos os anjos, e não somente aqueles de algumas ordens, podem ser enviados em ministério ao nosso mundo, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Como vimos quando debatemos a hierarquia dos anjos, nestes textos aqui, aqui, aqui e aqui, os Serafins são a ordem mais elevada no mundo das inteligências espirituais imateriais (que chamamos genericamente de Santos Anjos). Ora, as Escrituras dão testemunho de que foram os Serafins que tiveram a missão de purificar os lábios do Profeta Isaías (Is 6, 6-7). Portanto, se mesmo os anjos mais elevados, pertencentes à ordem mais alta dentre todos os anjos, recebem ministérios em nosso mundo, isto significa que todo e qualquer anjo pode ser enviado para um ministério em nosso mundo material, conclui apressadamente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
As Pessoas da Trindade são o único e mesmo Deus, e portanto excedem infinitamente em dignidade qualquer Anjo, por mais elevado que seja. Ora, as Pessoas divinas são enviadas em missão, como foi o caso do Filho e do Espírito – que já debatemos anteriormente na questão 43, aqui. Com mais razão, então, podemos concluir que qualquer anjo, em sentido genérico, sejam os mais simples, sejam os mais elevados, pode ser enviado com algum ministério em nosso mundo, conclui apressadamente o argumento.
O quarto argumento objetor.
A única coisa que justificaria a ideia de que algum anjo estivesse fora da possibilidade de ser enviado em ministério para o nosso mundo seria a ideia de que eles executam as ordens divinas de modo hierárquico, delegando para um anjo imediatamente inferior essa execução.
Ora, sabemos que nenhum anjo é da mesma espécie que o outro; isto significa que nenhum anjo é igual, em capacidade e dignidade, a nenhum outro. Assim, desde o primeiro anjo até o último, eles iriam delegando ao anjo imediatamente inferior a missão recebida, de tal modo que apenas o último dos anjos inferiores, o mais simples de todo, sozinho, é que executaria imediatamente a missão em nosso universo.
Mas isto iria contra a revelação bíblica, já que o Livro de Daniel, 7, 10, nos ensina que “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam”. Assim, qualquer anjo, independentemente de sua posição hierárquica, pode ser indiferentemente enviado em missão, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra resgata aqueles que são as maiores autoridades em matéria de anjos; de fato, quanto às missões, São Gregório cita o Pseudo-Dionísio, que afirma expressamente que “os anjos das ordens superiores jamais recebem missões externas”, quer dizer, nunca recebem ministérios em nosso mundo. Assim, nem todos os anjos recebem ministérios em nosso mundo, conclui o argumento, refutando a hipótese inicial, radicalmente.
- Encerrando.
Será interessante verificar, no próximo texto, como Tomás conseguirá harmonizar o dado bíblico com o ensinamento das autoridades teológicas que ele cita. Veremos isso nos próximos textos.
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