1. Retomando para concluir.

Anjos são enviados em missão, isto é um fato incontestável, que tem uma certa comprovação empírica: as culturas e religiões, em todos os tempos, parecem admitir algum tipo de ação de seres invisíveis sobre nosso mundo, seja na forma de comunicações, seja na forma de missões. A fé cristã, com base na Bíblia, sempre entendeu estas missões como próprias dos anjos. Sem descartar o fato de que há anjos decaídos que agem não por missão divina, mas por iniciativa própria ou delegação de outros ainda mais perversos. Mas não é hora de discutir isto; apenas de estudar as missões dos Santos Anjos. Depois que colocamos o problema e o ponto de vista de Tomás nos textos anteriores, examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor

O primeiro argumento objetor lembra que os anjos são grandes mentes espirituais, absolutamente incorpóreos. Ora, a corporeidade é a marca da concretude, mas a imaterialidade é a marca da universalidade e da abstração. Isto é, os anjos são espíritos que funcionam em termos de atos intelectuais universais e abstratos, independentes de tempo e lugar. Como, por exemplo, entre nós humanos, os cientistas matemáticos desenvolvem sua ciência de maneira universal e abstrata, e a matemática não é algo que envolva um tempo e um lugar determinados, mas transcendem a estes condicionamentos materiais. Assim, não teria sentido imaginar que os anjos pudessem ser enviados a determinado tempo e lugar, em missão, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há duas maneiras pelas quais podemos falar de uma operação intelectual. Há uma maneira puramente contemplativa, como aquela pela qual um grande pensador matemático desenvolve uma nova fórmula de aplicação universal para resolver algum problema altamente abstrato. Neste caso, diz Tomás, este ato intelectual não se prende a tempo e lugar; e completa (citando Santo Agostinho) que, com este tipo de contemplação, até nossa mente humana também, de certo modo, foge aos condicionamentos deste mundo

Mas isto não significa que a atividade intelectual não possa se dirigir a algum elemento concreto do nosso mundo, como a matemática pode ser utilizada para calcular, digamos, a área de uma propriedade rural ou a grandeza da massa da Terra. Essa operação, embora concreta e dirigida a um determinado lugar num determinado tempo, é ainda uma operação intelectual, própria, portanto, de uma mente espiritual, como a nossa – e como a dos Santos Anjos. Por isso não há nenhuma contradição em afirmar que os anjos podem ser enviados a exercer um ministério determinado em nosso mundo

O segundo argumento objetor.

Os Santos Anjos, pela graça, optaram por Deus, de modo que estão plena e eternamente em Sua glória, gozando de sua presença. Estão, como se diz, no céu. Ora, se eles fossem mandados em missão a nosso mundo decaído, já não estariam no céu, mas no nosso universo, lugar de pecado e de queda. Seria, então, um verdadeiro rebaixamento da dignidade deles. Portanto, conclui de maneira um tanto arrogante o argumento, os Santos Anjos nunca são enviados em missão ao nosso mundo.  

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que os Santos Anjos estão no céu, no gozo da glória, contemplando Deus face a face. Mas ser enviados ao nosso mundo não rebaixa sua dignidade, assim como o rei que sai da Corte Real e visita um pobre casebre de um súdito não perde em nada sua dignidade real. Não foi diferente a missão do Filho, Jesus Cristo, entre nós: esteve em nosso meio sem perder a sua dignidade de Segunda Pessoa da Trindade, como lembra a Carta aos Filipenses, 2, 6-7. Por isso, ao serem enviados ao nosso mundo, os anjos não perdem sua condição de felicidade eterna na glória do céu

O terceiro argumento objetor.

Podemos nos distrair da atividade contemplativa se estivermos envolvidos em atividades exteriores que demandam nossa atenção, desviando-a de seu objeto intelectual. Assim as Escrituras nos ensinam, no Livro do Eclesiástico (38, 25), que “aquele que pouco se distrai adquirirá sabedoria”. Ora, se os anjos fossem enviados com missões externas em nosso mundo, teriam que se envolver com ocupações que os desviaram da contemplação ininterrupta de Deus, na qual consiste toda a sua felicidade. Assim, seriam distraídos pelas coisas a que se aplicariam por aqui, e diminuiria sua felicidade, o que seria inadmissível. Assim, os anjos não são enviados em missão, conclui levianamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Nós, seres humanos, quando nos dedicamos a alguma tarefa externa no mundo material, utilizamos simultaneamente nossos sentidos e nosso intelecto. Ora, essa integração entre aquilo que, em nós, é propriamente humano e aquilo que é comumente animal (sensibilidade e intelecto) não se faz sem esforço, porque é composto de partes heterogêneas. Por isso a atuação de nossa capacidade sensitiva distrai nossa capacidade intelectual, impedindo ou dificultando a contemplação. Para nós é dificílimo contemplar ao mesmo tempo em que estamos imersos em alguma atividade que exige muito de nossos sentidos. 

Mas o anjo, mesmo quando se aplica a nosso mundo, não se relaciona com ele por meio de sentidos, porque o anjo não é um ser de natureza animal. Por isso, mesmo se está envolvido com alguma atividade concreta em nosso mundo, isto não o retira da plena contemplação de Deus, e nem distrai sua atividade intelectual, já que aquilo que mede, que regula, não pode ser distraído por aquilo que é medido e regulado pela mesma capacidade. Assim, o anjo pode se dedicar a uma missão em nosso mundo sem se distrair da felicidade plena que lhe vem da contemplação de Deus. 

O quarto argumento objetor.

A Bíblia nos ensina que aquele que está sentado à mesa, sendo servido, é sempre maior do que aquele que está em pé, trabalhando, com o encargo de servir; Lucas (22, 27) diz: “Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa?” Ora, os anjos são maiores e mais perfeitos do que nós. Logo, não são eles que devem ser enviados ao mundo para nos servir, mas nós é que devemos servir a eles, conclui imprudentemente o argumento.  

A resposta de Tomás.

Não é a nós que os anjos estão diretamente servindo, quando são enviados a nosso mundo em missão: eles servem, em primeiro lugar, a Deus. Apenas indiretamente eles nos servem – e o fazem não porque sejamos superiores a ele, falando de modo absoluto e individualista. Na verdade, qualquer criatura, quando adere a Deus pela graça, torna-se superior a si mesmo e aos outros por estar em Deus, e o faz justamente pelo amor. Neste sentido, o serviço a Deus é a marca de toda superioridade verdadeira – como Jesus ensina em Mc 10, 43-45 ou Mt 20, 26-28. Mesmo no trecho citado do Evangelho de São Lucas, o dito de Jesus deve ser compreendido no contexto do versículo anterior (Lc 22, 26) que diz: “Que não seja assim entre vós; mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo”, ou o próprio versículo 27 que conclui com Jesus afirmando; “Todavia, eu estou no meio de vós, como aquele que serve”. Portanto, é próprio do Amor que o maior sirva ao menor por caridade, ou seja, por obediência a Deus que é o próprio Amor, e somente os demônios é que não entram nessa lógica, entendendo-se como dignos de ser servidos mas superiores demais para servir. Isto, esta mesma lógica da humildade e do serviço, também São Paulo nos ensina em Filipenses 2,3b: “que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos”. 

  1. Concluindo.

Os Santos Anjos são enviados em missão de amor, porque é próprio do amor servir. Mas se este serviço sempre implica necessariamente uma missão ativa em nosso mundo é o que veremos no próximo texto.