- Retomando.
Não se pode imaginar o céu como um “lugar” no sentido geográfico, como poeticamente fez Dante. Como poesia, é muito belo, mas há o perigo de que tomemos a imagem pela coisa. Uma leitura platônica de Dante pode nos excluir da “posse antecipada daquilo que ainda não vemos” (Hb 11, 1), ou seja, de estabelecer, desde já, pela fé, uma relação com Deus, que como dizia São Francisco, é a perfeita alegria. O céu é uma relação, um vínculo de amor, uma presença, que a fé nos antecipa. Não é por outro motivo que Jesus advertiu, quanto aos anjos da guarda, que eles, embora encarregados de guardar as crianças, não deixam, por isso, de “ver a face de Deus” (Mt 18, 10).
Isto já sinaliza para a resposta que hoje vamos estudar. Vimos, no texto anterior, a hipótese polêmica e falsa, de que os anjos jamais seriam enviados a nós, jamais seriam dotados de encargos e ministérios no mundo criado, porque, vivendo no céu, estariam numa transcendência do tipo platônica, que torna qualquer missão impensável – fonte de perturbação e afastamento de Deus. Mas vimos, também, o argumento objetor que cita as Escrituras – nas quais há vários relatos de santos anjos enviados em missão a nós. O que afasta a ideia, nada cristã e muito platônica, de que o mundo criado é mau. O primeiro capítulo do Livro do Gênesis mostra justamente o contrário. A Queda dos primeiros pais não destruiu toda a natureza criada, na sua criaturalidade e na sua bondade; apenas feriu de pecado a natureza humana, retirando dela a graça habitual.
Mas Tomás tem uma boa palavra sobre isto, em sua resposta sintetizadora. Vamos sem mais delongas a ela.
- A resposta de Tomás.
Tomás não tem nenhuma dúvida de que os anjos são enviados por Deus ao nosso mundo material, com ministérios, ou seja, missões de caráter permanente. Ele não está contaminado com o platonismo gnóstico que traça uma linha intransponível entre uma “bondade” exclusiva do céu espiritual e uma “maldade” ou “degradação” do universo material. Isto não existe, porque Deus criou nosso mundo e declarou que ele é “muito bom”. Assim, não há contradição no fato de que os Santos anjos possam ser enviados a nós em missão sem abrir mão da contemplação da face de Deus.
De fato, diz Tomás, a palavra “missão” tem dois sentidos: que alguém passe a estar ali onde não estava, como, por exemplo, um embaixador enviado a um país amigo; ou que alguém passe a estar onde já estava antes, mas de um novo modo, como, por exemplo, quando um fiel é ordenado sacerdote para servir em sua antiga comunidade paroquial.
De fato, quando estudamos as missões das Pessoas Divinas, vimos que Deus está em toda parte sempre, perfeitamente e simultaneamente; mas quando uma das Pessoas passa a estar entre nós de um modo diferente, dizemos que ela nos foi enviada em missão. Assim, a pessoa do Filho nos é enviada para estar entre nós encarnado, morto e ressuscitado, e o Espírito é enviado para ser nosso paráclito. Não podemos imaginar que eles já não estivessem presentes (uma vez que são Deus onipresente), mas, pela missão, passam a estar aqui de uma maneira diferente. Eles são enviados, então, da segunda maneira acima mencionada.
Com os anjos, no entanto, ocorre a missão no primeiro sentido acima mencionado. Sabemos, e vimos quando estudamos o Tratado dos Anjos, que os anjos não estão submetidos a tempo e lugar da mesma maneira que nós; eles podem estar ali onde seu pensamento determinar, sem os limites do deslocamento espacial. Mas, ainda assim, eles não são onipresentes, porque não são Deus, mas criaturas. Deste modo, um anjo que exerce seu poder em determinado lugar não pode, simultaneamente, exercê-lo em outro lugar. Por isso, quando o anjo é enviado a um determinado lugar com uma missão, podemos dizer que ele, em razão dessa mesma missão, passa a estar ali onde não estava antes, e faz isso em razão da missão que recebeu.
Ora, justamente porque ele passa a estar ali em razão da missão que recebeu de Deus é que dizemos que o Santo Anjo foi enviado em missão: o princípio que o faz estar ali é Deus mesmo, a quem ele serve e que o designa para aquela missão. E o fim pelo qual Deus o envia é conduzir as coisas (e a nós, humanos) a seu fim, que é dar glória a Deus. Deste modo, Deus é o princípio desse movimento e é também seu fim, pelo que o anjo é missionário, ou seja, é como que um agente em nome de outro, um instrumento inteligente com um encargo divino. Um ministro de Deus, no sentido mais próprio. Por isso dizemos que os Santos Anjos, quando enviados em missão, são enviados a um ministério em nosso mundo.
- Encerrando.
A perfeita contemplação da glória de Deus não implica inação ou fuga do mundo, mas serviço. Assim, o ministério dos Santos Anjos no governo do nosso mundo não é incompatível com a sua perfeita e permanente alegria.
No próximo texto, de posse desses princípios, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Deixe um comentário