1. Introdução.

Como já vimos, o universo, que para nós se explica pelo recurso a leis impessoais, era explicado pelos antigos como regido por forças inteligentes e leais a Deus. A regularidade, que para nós é marca de impessoalidade, era, para eles, justamente o contrário: aquilo que é regular, previsível e poderoso é análogo aos reis, que são assim; aquilo que é episódico, imprevisível e inconstante equivale aos escravos, que não devem satisfações a ninguém.

A regularidade e o poder das forças universais remetem, pois, a inteligências imateriais que têm uma profunda lealdade a Deus e que optaram, sem nenhuma possibilidade de transigência, ao bem completo. São, pois, inteiramente livres, uma vez que compreendamos que ser livre é ser capaz de reconhecer o bem e se dirigir para ele de modo perfeitamente voluntário. A ideia, que temos hoje, de que a liberdade é a capacidade de escolher indiferentemente entre o bem e o mal pareceria muito estranha a eles. De fato, o bem deve ser reconhecido e buscado, o mal deve ser evitado, eis a norma fundamental da liberdade clássica – que não deixou de ser válida hoje, embora já não a reconheçamos como tal. 

Lidando, no entanto, com um contexto ainda muito influenciado pelo dualismo platônico (como somos nós, hoje em dia), os antigos podiam pensar: como poderiam os Santos Anjos deixar a transcendência absoluta, que é Deus, para vir agir sobre nosso mundo ambíguo, decaído, cheio de perdição, de dor e de impureza? Não seria uma contradição dizer que os Santos Anjos estão na glória, mas se misturam com este mundo para regê-lo? Poderia Deus enviá-los para cá, sem que isto significasse afastá-los de si mesmo e, portanto, da felicidade eterna e absoluta? As consequências disso tudo para nós, em especial quanto a missão do próprio Jesus, são enormes. Vamos ao artigo.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Lembramos que todos os artigos da Suma sempre trazem um grande e destemido debate, que começa por uma hipótese que parece contradizer aquilo que o artigo propõe, provocando, deste modo, a discussão. No presente caso, a hipótese inicial propõe, para lançar polêmica, que os anjos não são enviados por Deus a nós em missão com algum encargo, algum ministério próprio em nosso mundo. Há quatro argumentos objetores iniciais que, lançando mão de fortes e muitas vezes equivocados raciocínios, tentarão comprovar esta hipótese. Vamos a eles.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.  

O primeiro argumento, de orientação um tanto platônica, lembra que os anjos, sendo criaturas puramente espirituais, sem nenhuma composição de matéria, não estão sujeitos às noções de tempo e espaço, que são próprias do mundo material. De fato, são criaturas essencialmente intelectuais, seus atos são estritamente intelectuais e, como sabemos, tudo o que é intelectual se caracteriza por ser universal e imaterial, e portanto estranho a tempo e lugar. Ora, não teria sentido dar a eles um ministério neste mundo, isto é, designar os anjos a exercer missões permanentes que envolvem tempo e lugar. Assim, os anjos não são enviados com ministérios em nosso mundo, conclui apressadamente o argumento.

O segundo argumento objetor.

Sabemos que o céu, no sentido teológico de gozo completo e permanente de Deus pela essência, na completa felicidade, não é um lugar, mas fundamentalmente uma experiência, a experiência do mergulho completo e total em Deus, em Sua plenitude;  a isto, e este estado de mergulho completo em Deus, os antigos chamavam de céu empíreo. Ora, estar nesse estado de céu, sendo espiritual, implica ter seu próprio espírito repleto de Deus, sem qualquer possibilidade de qualquer outra coisa encontre campo para ocupar.

Se é assim, enviar os anjos a este mundo seria retirá-los do seu pleno mergulho na felicidade imperturbável de Deus, isto é, do céu, e abri-los à incompletude do nosso mundo. Mas isso seria um rebaixamento para eles. Assim, os anjos não são enviados para ministérios em nosso mundo, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento vai na mesma linha do segundo, mas parte da noção de contemplação. Contemplar significa voltar a atenção para Deus, para sua realidade, sem se distrair. Mas o nosso mundo está mergulhado na distração, isto é, naquilo que perturba a fixação do nosso olhar contemplativo em Deus. Mas os anjos, uma vez que estão na glória, têm sua atividade na contemplação definitiva e sem distrações. Mas se fossem enviados com algum ministério ao nosso mundo, eles se distrairiam da sua contemplação permanente. Logo, os anjos não recebem ministérios em nosso mundo, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O superior, diz a Bíblia, é aquele que se senta à mesa para ser servido, e o inferior é aquele que, de pé, isto é, em exercício, o serve. Isto está em Lucas 22, 27a: “Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa?”.

Ora, os anjos são naturalmente superiores a nós. Logo, caberia a nós servi-los, e não o contrário. Portanto, os anjos não são enviados a este mundo com ministérios para nos servir, conclui imprudentemente o argumento. 

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai buscar fundamento nas Escrituras, no sentido de verificar que há Santos Anjos efetivamente enviados em missões estáveis e permanentes.  Isto é o que Deus diz a Moisés em Êxodo 23, 23a: “Porque meu anjo marchará adian­te de ti e te conduzirá”. Assim, ao contrário do que propõe a hipótese inicial, diz este argumento, Deus envia seus anjos para ministérios em nosso mundo, conclui.  

5. Encerrando.

Estar no céu, estar na glória, não é, para os anjos, estar alheio ao serviço em nosso mundo. Também não o é para o próprio Deus, que não poupou seu próprio Filho nem seu Espírito da missão entre nós.

Mas veremos isso mais detalhadamente no nosso próximo texto.