- Voltando para encerrar.
A confiança de Tomás nos sentidos parte de dois pressupostos fundamentais: 1) vivemos num mundo real, cuja verdade se encontra em Deus, não na nossa mente. Diferentemente do idealismo de hoje em dia, que proclama que nós “criamos” o mundo em que vivemos pela nossa inteligência que o conhece, Tomás sabe que o mundo foi criado por Deus e corresponde àquilo que Deus quer que ele seja. É certo que o mundo é uma obra aberta de Deus, e que nós, seres humanos, somos capazes de completá-lo. Mas nossa capacidade criadora somente envolve a alteração de fatores acidentais, nunca o surgimento substancial, essencial, de alguma coisa nova. 2) Nossos sentidos e nossa inteligência são capazes de conhecer verdadeiramente este mundo dado e aberto, e nós não nos enganamos com relação ao conhecimento sensorial e intelectual que somos capazes de adquirir.
Assim, ninguém poderia ser deliberadamente enganado por um demônio quanto ao mundo externo que capta por seus sentidos como Descartes imaginou possível e os idealistas, (desde Platão até o filme Matrix) postularam como fundamento de seu próprio ceticismo. É certo que podemos sonhar e alucinar, e que os seres espirituais podem induzir as duas coisas. Mas, de ordinário, para que os anjos e demônios provoquem estímulos sensoriais em estado de vigília, eles devem de fato alterar o mundo externo de algum modo, para que esses estímulos possam alcançar nossos sentidos. Quando, por exemplo, São Rafael assumiu um corpo, no Livro de Tobias, era um corpo externo, embora acidental, mas era realmente capaz de ser visto, ouvido e tocado. Os anjos e demônios podem, também, alterar e até anular as estruturas fisiológicas de nossos sentidos, mas não podem simplesmente estimulá-los de modo a fazê-los crer, em estado de vigília, que coisas materiais inexistentes são reais.
Vimos tudo isto nos textos anteriores. Estudemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
Quem faz com que nossos sentidos sejam efetivos, sejam realmente capazes de receber estímulos externos, é o fato de que estamos vivos. Cadáveres não possuem sentidos.
Ora, anjos e demônios não são princípio de vida em nós; a nossa vida é intrínseca a nós, e não pode nem ser concedida, nem ser diretamente retirada, nem ser impedida, por atuação de anjos e demônios. Assim, se a vida pessoal é o princípio dos sentidos, e se os anjos e demônios não podem atuar diretamente sobre a vida pessoal humana, então tampouco eles podem atuar sobre os nossos sentidos, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
É verdade que o princípio fundamental para a operação dos nossos sentidos é o fato de estarmos vivos: sem a vida humana, ou melhor, sem a vida animal em geral, não há um corpo dotado de sentidos. Mas o princípio imediato para a atualização dos sentidos é o estímulo fornecido pelo mundo exterior, captado e transmitido pelas estruturas de nosso corpo. Ora, os anjos e demônios podem, embora de maneira limitada e sempre sob a permissão de Deus, atuar tanto no mundo exterior, provocando movimentos espaciais nas coisas, quanto nas estruturas interiores do nosso corpo, por exemplo alterando ou impedindo hormônios e impulsos neurológicos. Então podem, de fato, atuar sobre os sentidos, deste modo.
O segundo argumento objetor.
Nosso corpo é constituído por vários sistemas, alguns mais essenciais que outros. Dentre eles, um dos mais fundamentais para a manutenção da vida é o sistema de nutrição, responsável pela aquisição e manutenção da energia vital. Ora, os anjos (e os demônios) não podem atuar diretamente sobre o sistema nutritivo, por exemplo causando a nutrição ou determinando a saciedade do organismo, ou mesmo dando-lhe energia vital. Ora, se os anjos (e demônios) não podem atuar sobre esse sistema tão fundamental, tampouco poderiam atuar sobre o sistema sensorial, que é menos fundamental ainda do que este, conclui imprudentemente o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos e os demônios podem provocar alterações em hormônios, em transmissões neurais e mesmo em estruturas corporais responsáveis por enviar, receber e processar estímulos. Assim, embora de fato não sejam capazes de nutrir ou de dar diretamente energia aos corpos, são, no entanto, capazes de alterar os estímulos de tal forma a provocar, por exemplo, a fome ali onde ela não deveria existir, ou a sensação de saciedade enganosa. Do mesmo modo, eles podem alterar as estruturas corporais relativas aos sentidos, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
O estímulo que atua diretamente sobre os nossos sentidos é aquele que resulta da interação com as coisas externas, materiais. São, pois, os aspectos sensíveis das realidades materiais externas que estimulam os sentidos, atualizando-os. Ora, os anjos não podem alterar substancialmente a ordem das coisas materiais. Logo, eles não podem atuar diretamente sobre os sentidos, conclui apressadamente este argumento.
A resposta de Tomás.
O anjo é criatura, não é Deus. Assim, ele não pode alterar a própria ordem criatural, por exemplo fazendo milagres ou manipulando a própria realidade, mudando o real. Mas eles podem atuar sobre as coisas particulares, deslocando-as. Deste modo, os anjos podem, em casos singulares e particulares, atuar sobre os sentidos (ou sobre as coisas que os estimulam desde fora).
- Concluindo.
Não existe a possibilidade de que vivamos numa matrix, quer dizer, que haja algum sistema externo, ou algum anjo ou demônio, que nos iluda de tal modo que tomemos pela ordem real das coisas aquilo que é apenas uma estimulação artificial dos sentidos. As coisas existem, foram criadas por Deus, nós nos relacionamos com elas e as percebemos assim como são. Mas os anjos e demônios podem agir sobre elas e sobre nós, em situações particulares, de tal modo a causar ou impedir percepções. Sempre sob a permissão ou mesmo, no caso dos anjos, sob missão divina.
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