1. Retornando. 

Mencionamos, no texto anterior, a postura de Descartes que, no início do seu Discurso sobre o Método,  resolve colocar em dúvida (metódica) não somente o que lhe ensinaram, mas também  aquilo que seus sentidos lhe revelam, diante da ideia de que os sentidos podem se enganar e podem ser enganados, talvez por algum espírito maléfico que os faça perceber algo que, de fato, não existe.

É claro que há algum bom senso nessa ideia: o mundo não se dá imediatamente aos sentidos, e não são poucos os enganos científicos e mesmo filosóficos que decorreram de interpretações errôneas dos dados sensoriais. A ideia de que a terra gira em torno do sol, a ideia de que haja algum tipo de éter preenchendo os lugares vazios do universo, a ideia de que as coisas tendem sempre para “baixo” são interpretações deste tipo.  Mas atenção: para os antigos, e assim também para Tomás, não havia nenhuma dúvida de que os sentidos nunca se enganam com relação aos seus objetos, que eles chamam de “sensíveis próprios”. O olho saudável não se engana com aquilo que vê, o ouvido não se engana com o que ouve, mas podemos interpretar mal o que vemos e ouvimos. O engano não está nas capacidades sensoriais, mas na interpretação dos dados.

É claro que os anjos podem causar fenômenos ilusórios, como várias vezes se narra na Bíblia: podem assumir formas aparentemente corporais sem terem corpo, podem mover coisas espacialmente, e tudo isto pode ser confuso para nós. Mas nada disso deve nos enganar quanto à capacidade que os nossos sentidos têm, quando saudáveis, de capturar adequadamente os fenômenos externos. Existem, é claro, causas patológicas de engano: um vírus pode alterar o paladar, uma bactéria pode fazer perder a visão, e assim por diante. 

Mas estamos nos adiantando. No texto anterior, vimos a hipótese de que os anjos e os demônios não poderiam realizar alterações em nossos sentidos, e os argumentos utilizados para comprovar esta hipótese. Vimos o argumento contrário a ela, retirado da Bíblia, que nos lembra de tantos fenômenos em que esses seres espirituais atuaram sobre os sentidos humanos. Estudemos agora a resposta de Tomás.

  1. A resposta de Tomás.

Tomás sempre é muito cuidadoso, em suas respostas, para estabelecer com muita clareza os fenômenos que analisa e distinguir as palavras e noções que emprega.

No presente caso, Tomás nos lembra que há dois sentidos na expressão “atuar sobre os sentidos”; um sentido exterior e um sentido interior.

No sentido exterior, estamos falando das coisas que nos interpelam, que interpelam nossos sentidos e os estimulam. Olhamos para uma árvore e vemos seu formato e suas cores. Podemos sentir o cheiro característico de suas flores, ouvir o ruído de suas folhas farfalhando e a textura do seu tronco; podemos sentir o gosto dos seus frutos e concluir: eis uma goiabeira. Neste sentido, a goiabeira se deu aos nossos sentidos, interpelando-os. Ela funciona como estímulo externo aos nossos sentidos, neste caso.

Mas há outra maneira pela qual nossos sentidos são modificados: pelas condições internas a nós mesmos. Assim, um simples resfriado pode alterar o paladar do doente, como o aumento de pressão ocular pode danificar os olhos e nos impedir de enxergar. aqui, os sentidos são modificados por causas internas ao sujeito.

De ambos os modos os seres espirituais podem atuar sobre nossos sentidos, diz Tomás. Tanto podem agir internamente em nós, alterando, por exemplo, hormônios e estímulos neurais para que nossa percepção de mundo seja alterada (e assim vemos como pessoas influenciadas por um demônio – sem que estejam doentes ou transtornadas psiquiatricamente – podem, por exemplo, sofrer a influência de um surto de ira que as ensurdecem para argumentos de bom senso), quanto o podem fazer externamente,  assumindo, pela manipulação de elementos do mundo físico, formas externas ou estímulos sensoriais (cheiros, luzes, visões). pelos dois modos os anjos podem atuar em nossos sentidos.

Mas atenção: eles não podem atuar nos sentidos, segundo ensinavam os antigos, de tal modo que nos façam perceber estímulos que de algum modo não estejam ali, como, por exemplo, provocando uma falsa percepção de algum odor ou de alguma figura que não corresponda, de fato, a algum estímulo externo, ainda que provocado pela manipulação da natureza. Os anjos e os demônios têm que provocar esses estímulos por algum tipo de alteração do mundo material, não pela alteração direta dos sentidos para enganá-los quanto ao que percebem. As alterações dos sentidos, que eles podem fazer, são apenas capazes de impedir ou alterar alguma percepção que efetivamente existe, não para criar percepções ali onde nenhuma existe, de modo a nos enganar a respeito da realidade que efetivamente captamos. Os anjos e os demônios não poderiam nos enganar a ponto de não sabermos que estamos num mundo real e não numa matrix, ou de confundir um sonho com as percepções que ocorrem na vigília. Tudo isto deve ser imputado a patologias humanas, não a atuações espirituais externas. 

  1. Encerrando.

Sonhos, alterações no mundo exterior, alterações e distorções nos sentidos, tudo isto pode ser influência demoníaca ou inspiração angelical. Mas não há como a sua atuação nos levar a confundir vigília e sono, percepção externa e ilusões diretamente causadas nos sentidos, mundo real e projeções de mente a mente. A amplitude da atuação desses seres sobre nós é grande, deve ser respeitada e discernida, mas nunca deve nos levar a duvidar do mundo que nos cerca e que percebemos como sendo um mundo real. 

No próximo texto, que será o último desta questão, examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás dá a eles.