1. Introdução. 

No começo do seu Discurso sobre o Método, Descartes nos propunha duvidar de tudo, inclusive daquilo que nossos sentidos nos apresentavam como estímulos comprobatórios da existência de um mundo exterior e real. Poderíamos, pensava Descartes, estar vivendo numa matrix (como o famoso filme hollywoodiano que fez sucesso há pouco tempo) e todos os estímulos percebidos por nossos sentidos poderiam ser apenas enganos provocados por algum demônio maléfico, propunha ele. É certo que depois de chegar na ideia do penso, logo sou, ele propõe que a confiança em Deus nos basta para ter a garantia de que os sentidos não nos enganam e o mundo externo é real. Mas será que isto estaria de acordo com o pensamento de Tomás? Será que haveria alguma possibilidade de que vivêssemos num mundo ilusório, e que a possa percepção decorra apenas de estímulos falsos que anjos (ou melhor, demônios) provocam em nossos sentidos? Será que eles têm esse poder? Que confiança podemos ter em nossos sentidos, se o mundo que conhecemos em nossa mente for apenas ilusão gerada por inteligências que estimulam nossos sentidos falsamente?

É o que passamos a discutir neste artigo interessantíssimo.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Para provocar o debate, a hipótese quer propor que essas inteligências espirituais que conhecemos como “anjos” (sejam os Santos Anjos, que fazem a vontade de Deus, ou os demônios, que se rebelaram contra ela) não poderiam atuar diretamente sobre nossos sentidos, provocando fenômenos que fossem percebidos por nós como reais, sem que correspondam a coisas efetivamente existentes na natureza. A hipótese, portanto, nega que possam existir fenômenos que consistam, na verdade, em estímulos diretamente causados por anjos sobre nossos sentidos. Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

Nossa capacidade sensorial decorre do fato de que somos seres vivos, lembra o argumento. Quer dizer, o princípio que torna nossos sentidos atuantes é a nossa própria vida biológica. Ora, a vida é algo que está dentro de nós, e não fora de nós. Assim, os anjos não poderiam mover nossos sentidos ou impedi-los de funcionar, mas apenas nós mesmos os movemos, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Nossas capacidades têm uma hierarquia de nobreza, conforme a hierarquia do ser, lembra o argumento. Quanto mais nobre é alguma capacidade nossa, mais sob nosso controle ela está. Ora, a capacidade de nutrição não é tão nobre, porque todos os seres vivos, mesmo os organismos mais simples, dispõem dela.  Por outro lado, a capacidade sensorial, ou seja, aquela que se manifesta pelos órgãos dos sentidos, é muito nobre, porque só se apresenta nos seres mais desenvolvidos e em nós, humanos. Então ela representa um grau de autonomia, de autocontrole, maior do que a capacidade de nutrição, e portanto é menos sujeita a influências externas do que aquela.

Ora, prossegue o argumento, sabemos que anjos e demônios não podem agir diretamente sobre nossas capacidades nutricionais, isto é, não podem provocar nossa nutrição por seus próprios poderes. Mas se a capacidade de nutrição, que é inferior, não pode sofrer atuação direta dos anjos e demônios, então tampouco eles podem atuar diretamente nas capacidades sensoriais, que são superiores. Assim, os anjos não podem atuar diretamente sobre nossos sentidos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Os sentidos que nós e os animais possuem dirigem-se às coisas materiais, que agem sobre eles, estimulando-os.  Deste modo, para admitir que os anjos e os demônios pudessem agir diretamente sobre os sentidos, teríamos que admitir que eles são capazes de criar diretamente novas coisas materiais para produzir os respectivos estímulos a serem recebidos pelos sentidos. Mas já vimos, em artigos anteriores, que os anjos e os demônios não podem provocar diretamente o surgimento de novas coisas no mundo material. assim, eles não podem agir diretamente sobre os sentidos, porque não podem gerar coisas materiais novas, que são as únicas capazes de provocar estímulos sensoriais em nós, conclui o argumento. 

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, como sabemos, é aquele argumento que demonstra que não podemos simplesmente aceitar a hipótese controvertida como verdadeira, apesar dos argumentos objetores iniciais, porque há alguma razão de peso ou autoridade que se opõe a ela.

Aqui, o argumento recorre à autoridade das Escrituras. Não faltam passagens da Bíblia em que anjos agem diretamente sobre os sentidos humanos, quer para estimulá-los, quer para impedir seu funcionamento. No caso concreto o argumento toma dois exemplos bíblicos em que a atuação dos anjos sobre os sentidos humanos deu-se como impedimento para que os sentidos funcionem. O primeiro caso é a atuação dos anjos sobre os malvados habitantes de Sodoma, cegando-os. Diz a Bíblia (Gn 19, 11): “E feriram de cegueira os homens que estavam fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão por reen­contrar a porta”. Outro trecho testemunha igualmente uma ação dos anjos semelhante a essa, impedindo o funcionamento dos sentidos humanos. Trata-se do Segundo Livro dos Reis (6, 18), no qual, em resposta a uma oração de Eliseu, os anjos do Senhor provocam a cegueira temporária dos guerreiros sírios: “Entretanto, os sírios desciam para ele e Eliseu orou ao Senhor, dizendo: ‘fere de cegueira estes homens’. E o Senhor, ouvindo a prece de Eliseu, feriu-os de cegueira”. Ora, nestes dois casos, existe uma atuação direta dos anjos sobre os sentidos humanos, impedindo-os de correto funcionamento, o que prova que os anjos possuem um tal poder, conclui o argumento. 

5. Encerrando por enquanto.

A humanidade, em todas as culturas, conhece fenômenos como as visões, as transmissões de mensagens, as vozes e outras percepções sensoriais que são atribuídas a deuses ou espíritos de mortos ou a outros tipos de mensageiros espirituais. Temos, assim, uma larga base cultural para pleitear que há mais inteligências se comunicando conosco do que podemos contar. 

Veremos mais sobre isto no próximo texto.